Equacionando diferentes trajetórias

Conheça as histórias das bibliotecas do Instituto de Ciências Exatas e dos Departamentos de Química e de Física da UFMG

A década é de 1960. Sob o regime militar no Brasil, nessa época comandado pelos marechais Castello Branco (1964- 1967) e Costa e Silva (1967–1969), a população vivenciava uma onda de protestos que contestavam a intolerância da linha dura que se instituía no país. Nessa época, os cursos de licenciatura e bacharelado em Física, Matemática e Química ainda estavam sediados na antiga Faculdade de Filosofia de Minas Gerais. A despeito do sonho de ampliar o acesso ao ensino superior, os primeiros dez anos da Faculdade de Filosofia não foram fáceis, pois os recursos financeiros eram escassos. A demanda pelos cursos era muito pequena e, de 1939 a 1952, formaram-se em Física somente três pessoas.

Até o final da década de 60, os professores de Física, Matemática e Química lecionavam não só na Faculdade de Filosofia, mas também em outros institutos da Universidade, como a Escola de Engenharia e a Faculdade de Farmácia.

Antiga Faculdade de Filosofia de Minas Gerais

As curvas da história

Durante os governos militares, o ensino superior passou pela Reforma Universitária de 1968, que teve dois princípios norteadores: o controle político das universidades públicas e a formação de mão de obra para economia. Foi nesse mesmo período conturbado da história política brasileira que foi formado o Instituto de Ciências Exatas (ICEx), com os Departamentos de Física, Matemática e Química. Nessa época, o Departamento de Matemática, juntamente com as salas de aula e os laboratórios de ensino de Física e Química, foram instalados em um prédio provisório, denominado Pavilhão Central de Aulas (PCA).

Em 1972, parte dos docentes do Departamento de Matemática se desvinculou, dando origem aos Departamentos de Ciência da Computação e Estatística e aos respectivos cursos de graduação. Ainda em plena ditadura militar, foram criados os cursos de pós-graduação de Física, Química, Matemática e de Ciências da Computação da UFMG.

“A universidade tinha papel fundamental para alimentar a indústria e outras áreas estratégicas de novas tecnologias e recursos humanos. Essa combinação de impulsos gerou uma política universitária contraditória”
— Rodrigo Patto Sá Motta

No livro “As universidades e o regime militar”, o professor da UFMG, Rodrigo Patto Sá Motta, aborda os paradoxos da ditadura na definição da política universitária. Ele aponta que, se por um lado houve a expulsão, prisão e tortura de professores e estudantes que eram contra o regime, por outro, foi feito um investimento na modernização das universidades para impulsionar o desenvolvimento econômico. “A universidade tinha papel fundamental para alimentar a indústria e outras áreas estratégicas de novas tecnologias e recursos humanos. Essa combinação de impulsos gerou uma política universitária contraditória”, afirmou Sá Motta, em matéria publicada no Boletim UFMG de 10 de março de 2014.

Nesse contexto de “modernização autoritária”, foram criadas as bibliotecas de pós-graduação do ICEx e do Departamento de Química e de Física, cada qual com sua trajetória em busca da disseminação do conhecimento.

A Biblioteca da Física e seus agentes

Com mais de 9 mil exemplares e cerca de 6 mil títulos, a Biblioteca do Departamento de Física foi nomeada em homenagem ao professor Manoel Lopes de Siqueira, importante agente na construção do espaço.

No ano de 1957, Siqueira formou-se em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG, onde também realizou pós-graduação em Engenharia Nuclear. Na década de 60, especializou-se em Física na USP. Foi autor de cerca de cinquenta trabalhos para periódicos científicos nacionais e internacionais. Atuou como chefe do Departamento de Física da UFMG por duas vezes e foi também diretor do ICEx. Além de dar nome à Biblioteca, uma avenida próxima à Escola de Engenharia e ao Centro de Microscopia da Universidade, no campus Pampulha, também homenageia o professor.

Outra agente de destaque da Biblioteca da Física é a professora Beatriz Alvarenga, cujas doações formam uma coleção de destaque no acervo, devido ao volume expressivo e à importância de sua produção.

Nada de inércia

Energia e força são pouco para resumir o entusiasmo e dinamismo de Beatriz Alvarenga. Em um ambiente dominado por homens, como as ciências exatas, Beatriz foi pioneira. Em 1946, foi a única mulher a se formar em Engenharia Civil pela então UMG, que mais tarde se tornaria Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1968, foi uma das responsáveis pela criação do Departamento de Física dentro do ICEx. Hoje, aos 93 anos, é autora da coleção de livros didáticos “Física — contextos e aplicações”, best-seller na área desde 1970.

Composição física da Biblioteca da Química

Localizada em seu próprio Departamento, a Biblioteca de Pós-Graduação em Química realiza, anualmente, mais de 4 mil empréstimos domiciliares, com frequência de cerca de 5 mil usuários. Na totalidade de volumes de materiais impressos, a biblioteca hoje possui 8 mil itens no acervo. Entre eles, destacam-se algumas preciosidades, como o livro “Traité de Chimie Inorganique” (Tratado de Quí- mica Inorgânica), de 1921, e “Theilheimer’s synthetic methods of organic chemistry” (Métodos de Síntese da Química Orgânica de Theilheimer), datado de 1982.

Biblioteca do ICEx: interseção de três áreas das ciências exatas

Originalmente, as bibliotecas dos Departamentos de Ciência da Computação, Estatística e Matemática encontravam-se separadas em diversos prédios da Universidade. Nessa época, o ICEx vinha ampliando gradativamente suas atividades e atuação, no entanto essa expansão não se verificava no espaço físico. O ICEx era carente de áreas adequadas para salas de aula, laboratórios e bibliotecas.

Para solucionar esse problema, foi proposta a construção do atual prédio. Nesse projeto, uma área foi destinada à construção de uma única biblioteca para os Departamentos de Ciência da Computação, Estatística e Matemática, que geraram benefícios significativos. Com a construção da Biblioteca do ICEx, foi possível economizar recursos financeiros e uniformizar os regulamentos, assim como os procedimentos técnicos e políticas. Serviços, produtos e normas de utilização foram amplamente divulgados, possibilitando maior integração entre a biblioteca e os usuários.

Equacionando as trajetórias das bibliotecas da Química, da Física e do ICEx encontramos, como ponto de interseção, o comprometimento dos profissionais com o conhecimento, por meio da aquisição, manutenção e aperfeiçoamento de acervos especializados que subsidiam a produção científica e permitem ampliar o horizonte da pesquisa na Universidade. Apesar de atenderem diretamente aos pesquisadores da pós-graduação, as bibliotecas dos Departamentos e do Instituto estão abertas a toda a comunidade universitária.

Alexandre Vilaça, jornalista do Sistema de Bibliotecas da UFMG

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