Polaridades (na política ou em qualquer outra área) não combinam com a sociedade em rede

Até no Design Thinking para Educadores a dicotomia “sonhos” e “pesadelos” serve para chegarmos ao ponto de equilíbrio

Antes que alguém pense que vou fazer aqui uma defesa de qualquer tipo de muro e dizer que o bacana mesmo é ficar por lá e só observar tudo de cima, estou bem longe disso. Até porque o formato de sociedade que temos hoje, mediada pelas tecnologias digitais, em rede, sugere múltiplas possibilidades dentro de um mesmo lado — e também do outro.

A filósofa Viviane Mosé, em entrevista na CBN para falar sobre angústia, explica que nós seres humanos temos uma capacidade enorme de sentir, mas pouca de processar o que sentimos. Ela lembra também que fomos educados no modelo linear, marcado por polaridades estanques: certo ou errado, bem ou mal, bonito ou feio etc e que não costumamos valorizar o sentimento “do meio”. Por isso, quando não nos “encaixamos”, sentimos angústia.

Nos processos formativos em educação que desenvolvo, uso a abordagem do Design Thinking e, nas entrelinhas, acabo trabalhando com essa sensação de angústia pontuada por Viviane. Quantos sonhos temos de mudar uma situação ou criar algo novo mas ao mesmo tempo nos deparamos com tantos pesadelos e impedimentos no caminho? Se a gente ficar só na polaridade, das duas uma: ou vai agir ingenuamente, com a maior boa intenção, mas com grandes chances de fracasso, ou vai paralisar e não fazer absolutamente nada, já que tudo é muito difícil e custoso.

Qual a saída então? O equilíbrio. Como quase tudo na vida, eu sei, mas nesse caso aqui, se a gente não fizer um esforço para entender (e compreender!) que há várias possibilidades dentro de um mesmo lado e que um mesmo lado pode ter sintonia com o outro lado em algum aspecto (ou mais de um), a gente não vai evoluir como sociedade. Mesmo.

Quem disse que para ser contra ou a favor de algo é preciso seguir um script? Se você é contra, precisa sair de vermelho, ir a toda manifestação de rua e mudar a foto do seu perfil. Se é a favor, precisa terminar a amizade com os que são contra, adotar e valorizar o apelido de coxinha e usar a bandeira brasileira. Como se não bastasse, dessa polaridade insana, ainda surge o termo “isentões” para (des)qualificar aqueles que optaram por não se posicionar em nenhum dos lados de forma unilateral como ocupantes da indesejável posição “em cima do muro”. Se não ficarmos atentos, o conflito, que faz parte das relações humanas, vai mesmo se transformar em confronto simplesmente.

É inegável que o atual cenário político é um dos mais desastrosos. Crise é pouco para poder nomear tamanha descrença, revolta, vazio no peito e até repugnância se considerarmos alguns dos últimos acontecimentos. Até para fazer humor tá puxado em meio a isso tudo. Afinal, o que tem graça e o que não? E para quem? Mas se a gente reparar, o mundo também não anda lá essas coisas. Basta lembrar as recentes ações terroristas ou a situação dos refugiados sírios na Europa.

Por isso, as perguntas (desafios) que venho me fazendo nos últimos tempos e queria compartilhar aqui são:

Como podemos fazer jus a uma sociedade em rede cada vez mais emergente evitando ao máximo a polarização, respeitando a multiplicidade de visões e e posicionamentos?

Como podemos buscar refletir sobre nossa própria atuação política cotidiana e como ela se reflete nos problemas de representação que vemos hoje?

Como podemos incentivar formatos variados de atuação e integrar ações em prol de uma educação política efetiva?

Termino citando algumas experiências que me parecem promissoras:

Vempraroda #vaiterdialogo
Fast Food da Política
Advogados Ativistas
Assembleia Popular Horizontal