Precisamos diferenciar modismo e tendência em educação

É fundamental considerar novas formas de comportamento humano e as constantes transformações pelas quais a sociedade vem passando

Assunto delicado esse e até espinhoso. Falar em “tendências” para a educação é muito mais do que citar novidades em dispositivos tecnológicos ou adotar modelos e terminologias considerados inovadores por especialistas aqui ou acolá. Tenho notado um certo deslumbramento quando leio ou escuto sobre esse tema, como se fosse possível resolver todos os problemas da educação com soluções mágicas. A intenção é quase sempre boa mas, invariavelmente, “tendência” se confunde com “modismo”, ou seja, algo que ganhou notoriedade momentânea. 
 
 Um exemplo bem pontual de modismo são as chamadas plataformas adaptativas que surgiram para atender a um sistema oficial de avaliação criado em 1998, o ENEM — Exame Nacional do Ensino Médio. O professor brasileiro Paulo Blikstein, da Universidade de Stanford, em entrevista à Revista Educação, ressaltou bem esse assunto. Nenhuma plataforma por si só vai conseguir revolucionar a educação, mesmo que ela dê o resultado esperado, ou seja, que consiga ajudar o aluno a ir bem em uma prova. Blikstein rejeita, inclusive, a palavra “adaptativa”, argumentando que seriam, na realidade, plataformas de reforço para alguns tópicos do currículo e voltadas a um perfil determinado de educando. 
 
 Se usamos a tecnologia para criar programas que vão servir a um esquema específico que pode um dia ser modificado ou substituído, estamos falando de tendência? Acredito que não. Estamos falando de modismo. E se esses programas focam em personalização e ensino híbrido? Continua sendo modismo, pois não é nova a ideia de pensar estratégias pedagógicas que valorizem os perfis individuais e o uso de outros ambientes além da sala de aula. Recomendo a leitura do artigo do professor José Pacheco que ainda destaca outro termo da moda, a “sala de aula invertida”.

Falar em tendência remete a algo mais profundo e nem tão evidente. Envolve analisar as constantes transformações pelas quais a sociedade vem passando ao longo dos últimos tempos e refletir como isso pode ser absorvido em propostas e ações educativas, sejam elas formais ou informais. Anísio Teixeira, defensor da democratização da educação, já salientava no século passado que se a sociedade passa por mudanças, a escola precisa preparar o educando a partir desses novos paradigmas. 
 
 Nem sempre uma tendência tem um tempo de duração definido. Se consideramos educação como um processo, muitas tendências levam anos para serem de fato incorporadas ao modus operandi de um determinado sistema ou método educacional. Desde o movimento da Escola Nova, na década de 30 — e não apenas com o surgimento das tecnologias digitais — que qualidade na educação está ligada a relações dialógicas entre educador e educando, à conquista da autonomia e ao desenvolvimento humano de forma integral (unindo cognição e emoção).

Organizei no quadro abaixo duas colunas sobre tendências. À esquerda, listei algumas das mais conhecidas, que surgiram muito antes do advento da internet e seguem sendo desafio em muitas instituições de ensino. À direita, relacionei o que arrisco chamar de tendências no cenário atual.

De todo modo, tendência em educação deveria ser nunca aceitar metodologias, materiais ou modelos prontos para serem seguidos, sem possibilitar adaptações ou recriações. Também, não permitir que estudantes fiquem passivos diante de informações recebidas, sejam elas de livros didáticos, materiais audiovisuais ou dos meios de comunicação. E mais uma que todo mundo já sabe mas é sempre bom lembrar: valorizar e formar profissionais da educação.