Deus lhe pague, Chico

Em 2012, o site Pragmatismo Político utilizou a letra da canção Construção, de Chico Buarque, para noticiar a morte de Wanderson Pereira dos Santos, borracheiro carioca atropelado por Thor Batista, filho do empresário Eike Batista. Na letra da canção, um operário sem nome beija a mulher e os filhos e sai para a rotina sem saber que encontraria no caminho um fim trágico, morrendo na contramão e atrapalhando o tráfego. Wanderson, aos 30 anos, montaria na sua bicicleta para sair de casa pela última vez e, como o protagonista dos versos trabalhados de Chico Buarque, ele encontraria a sua trágica morte, flutuando no ar como se fosse um pássaro, enquanto buscava mantimentos para o tio doente. A triste relação que estabelecemos entre a morte de Wanderson e a composição de Chico confirma a genialidade e o sucesso da música e do álbum ao qual ela dá nome — considerado um dos maiores da música nacional — em retratar e criticar política e socialmente, através de letras magistrais, a realidade do povo brasileiro, revelando-se potencialmente atual 45 anos depois do seu lançamento.

Lançado em 1971, Construção é resultado do seu tempo. Germinado entre o final do exílio voluntário de Chico na Itália e o seu retorno ao Brasil, na época acossado pela vigência do Ato Institucional nº 5, o álbum é marcado por letras carregadas de um lirismo apaixonado e de uma rebeldia contida, nascidas de parcerias com nomes como Vinicius de Moraes, Toquinho e Tom Jobim e representa um divisor de águas na carreira de Chico: com ele, o artista abandonava a figura de bom moço projetada nacionalmente pela mídia e assumia uma posição mais madura, combativa e crítica, que viria a marcar sua carreira nos anos seguintes.

Construção fala sobre o brasileiro. Partindo do ponto de vista de um homem nunca identificado que repete uma mesma rotina fatigante, o álbum reflete sobre o engessamento do povo em um círculo vicioso de trabalho, almejando sempre a felicidade de uma outra vida e afirmando a infelicidade da vida real, rotineira. Formado por canções dotadas de sensibilidade e sofisticação estrutural únicas, o álbum exibe, mesmo em suas melodias mais alegres, uma desesperança pungente, pintando em cores tristes as dez canções. A primeira faixa, Deus lhe pague, é uma belíssima prece mergulhada em agonia que agradece ironicamente às concessões que o regime vigente dava; Por mais um dia, agonia pra suportar e assistir/ Pelo rangido dos dentes pela cidade a zunir/ E pelo grito demente que nos ajuda a fugir canta Chico em versos frenéticos e rimados, acompanhados por um arranjo que remete à uma sensação de tempo passando veloz que se torna contundente ao introduzir, nos versos finais da canção, o som de metralhadoras.

Capa do álbum

Feita a prece matutina, vem a rotina. E é com a emblemática Cotidiano que Chico narra um dia de ações programadas que se repetem em uma poesia corriqueira embalada por um arranjo que faz uso dos mesmos instrumentos no mesmo ritmo, remetendo à circular vida de um personagem que só pensa em poder parar e em dizer não, mas que, forçado pela necessidade, pensa na vida pra levar, se cala com a boca de feijão e volta ao trabalho.

A faixa seguinte, a apaixonante Desalento, chama a atenção por ser um desabafo romântico que se espreme entre a agonia e a tragédia das outras canções, da mesma maneira que sentimentos genuínos como amor e arrependimento se escondem por trás da rotina. Composta juntamente com Vinicius de Moraes, a canção revela em versos simples a infelicidade no “descaminho” que o Brasileiro Sem Nome seguiu, bem como um dolorido pedido de desculpas, acompanhado por uma cuíca entristecida, pano de fundo que reforça a ideia do contraste entre a vida que se tem e a que se quer ter. O mesmo amor é marcado pela tragédia da morte da mulher amada em Olha Maria, composta a seis mãos por Chico, Vinicius e Tom Jobim. Destacam-se nessas canções a presença da figura feminina, e reside aí a única coisa que soa incômoda aos ouvidos ao longo do álbum: sempre vista pelo olhar do outro, a mulher em Construção vive sempre em razão do homem e para o homem, seja para esperá-lo no portão de casa no fim do dia, seja para ele se apaixonar ou para ser peça principal de um conformismo. É o que acontece em Valsinha, outra parceria de Chico e Vinicius, que com uma bela letra apresenta um conformismo apaixonado em que o Brasileiro Sem Nome “se contenta” com a vida e com a esposa que tem.

Cordão e Samba de Orly por sua vez, apresentam o lado mais pessoal de Chico no álbum e fazem referência direta ao censurado contexto brasileiro. A primeira é um samba contra a repressão, onde se destaca um Chico cantando de forma alegre aquilo que poderia ser um grito de ordem: Ninguém vai me acorrentar/ Enquanto eu puder cantar/ Enquanto eu puder sorrir. A segunda, fruto da parceria com Toquinho, fala sobre saudade e faz uma referência aos exilados do regime militar ao mencionar no título o aeroporto de Paris, refúgio de grande parte dos exilados brasileiros. Minha História por sua vez, é a versão em português de Gesù Bambino, canção de Lucio Dalla com quem Chico fizera parceria durante o exílio na Itália, que estabelece Jesus Cristo também como um operário cujo final, à mesma maneira dos seus colegas de copo e de cruz, se revelaria trágico. Por fim, Acalanto encerra o álbum de maneira singela e ao mesmo tempo gigantesca. Ao alertar para a pequena filha que acorda com a rotineira saída do pai (Dorme minha pequena/Não vale a pena despertar) Chico e o Brasileiro Sem Nome apontam para um país desigual e mergulhado em opressão.

Mas é a faixa-título que se revela a força motriz de Construção. O requinte da sua estruturação, um genial jogo de proparoxítonas embalado pelo arranjo magistral do maestro Rogério Duprat, transcende a narração da morte de um personagem: constrói um desenho lógico e mágico, que num ritmo progressivo, remete de fato ao empilhar de tijolos. Construção, considerada por muitos a obra-prima de Chico Buarque, se agiganta dentro do álbum não só em razão da sua duração, fora dos padrões da época, mas por escancarar a realidade trágica do brasileiro: preso a um regime e imobilizado pela desigualdade social, vive uma vida insípida de tentativas e tentativas para, no final, ser vítima de uma trágica morte, cuja preocupação maior a respeito é o atrapalhar do tráfego.

E é aí que reside a razão de Construção ser um álbum tão importante não só na carreira de Chico, mas também na história da música nacional: a capacidade de não só se manter fiel à realidade do contexto no qual se formou, mas também por encontrar ecos no Brasil de hoje. Se em 1971 o país se via amordaçado por regime autoritário e violento, em 2016 milhares de Brasileiros Sem Nome permanecem marcados pela desigualdade, aprisionados em um cotidiano vicioso, vítimas de uma violência hoje simbólica, mas ainda assim contundente. Parcelamento de salários, congelamento de investimentos nas áreas mais básicas, descaso, precarização e a priorização dos interesses próprios em detrimento dos interesses públicos se caracterizam como atos que naturalizam a violência contra o trabalhador brasileiro. O resultado disso é uma roda-viva da qual nós Brasileiros Sem Nome nunca conseguimos escapar, todo dia fazendo tudo sempre igual, sem uma chance palpável de real mudança de realidade. Agonizamos todos no meio do passeio público, na pele de muitos Wandersons, esperançosos em uma vida melhor, caindo de andaimes ou tropeçando no ar. E, como dizem os versos finais de Deus lhe Pague, reprisados ao final de Construção, o que nos resta é agradecer ironicamente a Deus pelas concessões dadas, ou então agradecer à arte por nos fazer refletir sobre a realidade do cotidiano. Pela breve reflexão dessa dura realidade inerte, até a paz derradeira que enfim vai nos redimir, Deus lhe pague, Chico.

Crítica escrita para a cadeira de Jornalismo Impresso I, do curso de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação.

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