Um dragão na minha infância

foto de Mãe

Eu vejo um dragão.

Ele olha de volta com seus olhos de bronze, cheios de um vazio frio, com os dentes arreganhados numa fúria petrificada desde muito antes de mim. Eu, dentro de calças largas com joelheiras pretas, não consigo encará-lo no fundo de sua fúria. O enxergo de forma periférica, enquanto meu olhar anda em linha reta na direção de minha mãe. Lembranças de um dia de sol, há muito passado.

Da minha infância eu não lembro muito, apenas as linhas gerais. Lembro que foi a época em que conheci a solidão presente em seu vazio — talvez mais presente e mais vazia na minha vida de criança. Lembro do uniforme vermelho da minha pré-escola, lembro do borrão de uma figura paterna hoje já apagada e lembro de minha mãe. Lembro do seu rosto mais magro e do seu calor que já naquela época era muito confortante. As poucas fotos que tenho daquela época que eu era mais baixinho não me ajudam muito a escavar meu passado. Vejo balões, poses, sorrisos ensaiados, bolos envolvidos por merengue e encimados por velas coloridas que me situam no tempo. Mas só. Elas me dizem muito ao mesmo tempo que me dizem nada.

Nesse fluxo de esquecimento, uma foto nada contra a maré. O registro de um passeio na Porto Alegre dos anos 1990, no qual eu talvez já guardasse no fundo do peito o amor pela rua e por andar na rua, e que terminou com a ideia da mãe de gravar o meu encontro com o ilustre jornalista Júlio de Castilhos, na Praça da Matriz. Naquela época eu não sabia o que era o positivismo, mas sabia muito bem o que era o medo causado pelo dragão que encarava Júlio e eu.

Na verdade, todo aquele conjunto de figuras de olhos escuros e vagos do monumento a Júlio de Castilhos me dava medo. Mas para eles eu dava as costas, o que eu não podia fazer para o dragão. Ele estava ali, na minha frente, entre a mãe e eu, me encarando daquele jeito medonho. Como que sabendo que, no futuro, aquela foto me incentivaria a pensar nos dragões de minha existência, a mãe insistiu para que eu posasse para a foto e, vendo que já naquela época eu não era dado ao perfil de herói valente que enfrenta os medos sem pestanejar, pediu para o Moço de Óculos Escuros que passava por ali no momento ficar próximo de mim. A sua missão era simples: se o dragão alçasse voo na minha direção, ele deveria dar um jeito de manter intacta a minha integridade de criança vestida em calças largas com joelheiras pretas.

Foi um trabalho fácil para ele no fim das contas, já que o dragão de bronze não voou. Apenas quedou na sua ira faminta à qual fora condenado quando construído. A mãe fez o registro (levemente desfocado) e alguns muitos anos depois eu olho a foto e penso que até os medos de infância pouco memorizada eram melhores. No mundo de medos adultos que permeiam a vida que vem depois dos vinte anos, os dentes arreganhados do dragão da Praça da Matriz parecem formar um esquisito e sincero sorriso de amigo que reencontra outro amigo. Suas asas parecem braços abertos em um abraço de conforto e sua cauda sei lá o que parece, só sei que é algo encaracoladamente mais suave que a cauda dos dragões de hoje. Os dragões do cotidiano.

Pense no futuro, ganhe dinheiro, seja produtivo, seja eficiente — não apenas eficiente, mas muito eficiente. Não tenha apenas um único talento — seja multifacetado, isso é muito importante: multifacetado em negrito e itálico . Seja bonito, se vista bem, tenha uma boa alimentação — salada, coma salada, não esqueça da salada pelo amor de qualquer deus. Seja popular, todos devem te amar, abrace a todos, conheça a todos, seja feliz para todos. Não se esqueça de ser promissor, estar na chefia aos 27 anos é um ótimo começo. Ignore, ignore as bobagens, ignore as pessoas que não te rendem algo, pense alto, voe! Seja o orgulho da família, o primeiro a isso, ou mesmo o primeiro a aquilo; esteja encaixado em um quebra-cabeça com um número sem fim de peças, tão grande que cause inveja. Seja jovem, sempre jovem, cada vez mais jovem e empreendedor é claro. Se você for jovem e empreendedor nada vai te parar, você vai cuspir fogo nos problemas, você não vai temer o dragão, você vai ser o dragão!

Mas não o dragão do Júlio, um outro dragão, esse parido pelo mundo pós vinte anos, furioso e insensível como ele. Quando paro e penso que não me encaixo nesse mundo, que sou, como Vitor Ramil canta, viajante de um caminho extinto, e que ao menos tenho a mãe ou um Moço de Óculos Escuros imediatamente próximos para me resgatar dos apuros, eu saio para caminhar. A rua me conforta e não raro eu vou na direção da Praça da Matriz, onde me sento perto do dragão que há tanto tempo eu conheci. É quase como rever um amigo. Ali sentado encaro os dragões da infância para esquecer os dragões do presente e do futuro.