Dandara Vital: “Eu sou feminina demais para interpretar uma travesti e minha voz é grossa demais para ser uma mulher cis”

Um Castelo no meio do Flamengo. O Castelinho do Flamengo, que desde 1992 abriga o centro cultural Oduvaldo Vianna Filho, é uma construção tombada pela prefeitura do Rio de Janeiro um ponto turístico conhecido na cidade. Foi nesse mesmo local que, ano passado, artistas acusaram a prefeitura de censurar uma mostra de diversidade e o palco escolhido para a minha conversa com a atriz e produtora do centro cultural Dandara Vital, 37, sobre sua trajetória como uma travesti negra que luta para viver de arte.

Onde você nasceu?

Dandara: Eu nasci em Niterói, numa clínica chamada São Francisco. Eu nasci lá, mas nunca fui registrada em Niterói. Eu sempre morei no Rio, na Zona Norte. Atualmente moro em Pilares, mas já morei durante uma época na Praça Seca, também, Dona Vera Lúcia, trabalhava como enfermeira, tirando sangue enquanto meu pai, Luiz Carlos, sempre trabalhou em departamento pessoal. Depois que casou, minha mãe passou a ser dona de casa e depois voltou a trabalhar como doméstica e diarista pagando o INSS como autônoma. Hoje em dia ela e meu pai são aposentados;

E seus pais são negros?

Dandara: Eu acho que eles não têm essa noção racial, não entendem isso. Eles não se identificam como negros, mas se consideram pessoas morenas. Eles nunca falaram sobre isso, apesar da leitura social ser de pessoas negras.

Na sua casa e na sua família essa questão racial nunca foi trabalhada?

Dandara: Não. Na verdade, o meu avô por parte de mãe era negro , ele já é falecido. Mas ele não se identificava como negro e era uma pessoa extremamente racista. Então, a única vez que a gente conversava sobre isso mesmo era com o meu avô como referência. Ele era extremamente racista e homofóbico também. Ele falava que se uma filha dele ou neta dele namorasse — uma vez ele expulsou da casa dele o namorado da minha prima, porque ele usava brinco e brinco era coisa de menina. Então era uma pessoa super complicada e super machista. Por exemplo, ele sempre teve vários relacionamentos por fora e isso nunca era abordado entre ele e a minha avó. Ele nunca respeitou a minha avó, eles tinham um relacionamento super abusivo. Ele não chegava a ser agressivo fisicamente, mas era um relacionamento extremamente abusivo. Porém, ele era um cara cheio de valores quando eram “do próximo”. O cara não podia ser preto, o cara não podia ser gay ou ter alguma coisa no corpo, que ele julgava como feminina.

Se essas questões não eram conversadas na sua família, quando foi o momento que você tomou consciência da sua raça perante a sociedade?

Dandara: Faz pouco tempo, cerca de um ano. Foi quando eu conheci o Pedro Bento, que faz a peça comigo, ele me falou que eu era uma pessoa negra. Eu fiquei chocada porque sempre tive na cabeça que eu sou uma pessoa parda, sou morena, eu não tinha esse conhecimento. E eu acho que por ser uma pessoa negra de pele mais clara, eu nunca sofri o mesmo de uma pessoa que tem pele escura, por isso esse meu entendimento foi bem tardio.

E foi um processo difícil quando o Pedro falou isso pra você e você começou a se entender?

Dandara: Eu, comigo, não foi difícil. Passou a ser mais complicado quando eu passei a perceber. Eu não tinha a empatia de estar no lugar da pessoa é negra. Por exemplo, se alguém fala “eu até tinha amigos gays…”, isso já me dá uma empatia de sentir raiva e querer debater sobre isso. Mas a questão do negro eu não tinha isso. A partir daí que eu passei a entender. Eu ainda tenho dificuldade de falar porque ainda estou descobrindo a minha negritude. Então muito antes de eu ser uma pessoa negra, eu sou uma travesti. Então, eu sofro tanto esse preconceito por ser travesti que às vezes essa questão de ser uma mulher negra fica até escondida. Faz um ano que eu venho estudando essa questão dentro de mim e que eu venho entendendo mais sobre isso.

Então a questão da sua identidade de gênero foi muito anterior à sua questão racial? Como foi esse processo?

Dandara: Eu sempre soube que gostava de meninos. Tinha certeza, desde que eu comecei a ter desejos, que me sentia atraída por meninos. Por isso, até uma certa idade eu me identificava como uma pessoa gay — a gente não falava cis, na época. Para explicar bem isso, eu era uma pessoa cis gay e me identificava assim.

Eu fui me relacionar com homens aos 18 anos. Eu já estava com os hormônios à flor da pele. Até os 18 anos, o meu conflito era que os meus pais não descobrissem que eu era gay porque eles não iriam aceitar e iriam me expulsar de casa. Quando eu comecei a trabalhar, foi quando eu comecei a ter mais coragem: “Se me expulsar agora, pelo menos eu estou trabalhando e vou ter como pagar um aluguel”. E como eu estava com os hormônios à flor da pele e comecei a sair com meninos, essa situação meio que abafou outras questões que eu tinha dentro de mim. Porque eu era feliz saindo com os meninos. Então eu me identificava como gay.

Mas depois de um tempo, eu fui vendo que aquilo não era o suficiente pra mim. E é estranho, porque eu consegui realmente a entender quando eu passei a andar com algumas travestis que moravam perto da casa da minha irmã, onde eu morava. E essas travestis ficavam interessadas em mim, querendo se relacionar comigo. A gente ia para os bares de homens héteros, ou os mais masculinos, que davam em cima delas. Geralmente quem dava mais em cima de mim eram os gays mais afeminados, as mulheres, e aquilo era uma coisa que passou a me fazer refletir. Então passar a andar com elas que eu fui realmente entender o mundo delas e o que eu era.


E para você, o que é ser travesti?

Dandara: Acima de tudo, travesti é resistência. Isso é importante falar. Mas eu também aprendi assim: para você ser travesti, quando nasce e te designam um gênero, mas você se identifica com outro. E você passa a viver essa necessidade de transformação física, mas você não quer fazer a cirurgia. Eu aprendi dessa forma. Sendo que, hoje em dia, a gente trabalha com uma ideia que você é aquilo que você quer ser. Independente de uma travesti que quer fazer a cirurgia ou não, ela se identifica como travesti.

E ser travesti é uma coisa difícil. Eu acho que é isso: uma questão de resistência. Ainda tem isso: quando a pessoa vai falar de uma mulher trans, ela fala no feminino. Aí quando fala de uma travesti, fala no masculino. Então, a travesti ainda sofre até hoje esses rótulos. Acho que as pessoas que têm que aprender a respeitar o ser humano, sabe? As pessoas que têm que entender que ela pode ser o que quiser. Então, acima de tudo, eu acho que travesti é resistência. Não que deveria ser, mas infelizmente é.

E como é tentar transpassar as barreiras dos estereótipos do que é ser travesti?

Dandara: Na verdade, essa pergunta pra mim é muito difícil de responder, porque apesar de eu ser uma travesti, negra e gorda, eu preciso confessar que sou uma pessoa privilegiada. Eu tenho privilégios. Eu tive problemas familiares, eu estive na prostituição, foi uma fase muito difícil, mas eu consegui ir para um caminho que muita travesti não consegue. Então, eu sou uma pessoa privilegiada. Eu não sei dizer exatamente o que uma travesti sente na pele porque eu vejo muitas manas travestis numa vulnerabilidade que, por mais que eu estivesse na prostituição e tenha sido expulsa de casa, eu jamais estive nessa vulnerabilidade.

Porém, como eu sou uma atriz e sempre procuro dizer no final do espetáculo que o lugar da travesti é onde ela quiser. Qualquer lugar que eu esteja, eu tenho orgulho em dizer que eu sou travesti. Por querer dizer que cada ser humano é único. No sentido que, em cada um desses rótulos que se colocam, vai ter gente que se identifica assim — travesti, mulher trans, pessoa cis — e existem pessoas que não. Então venho nesse jeito de poder mostrar que cada ser humano é único. Porém, eu preciso reconhecer o privilégio e dizer que eu não passo metade do que as travestis que eu conheço passam.

Você comentou que foi expulsa de casa. Como foi esse processo? Quando você se assumiu, teve muita resistência em casa?

Dandara: Eu já tinha terminado o ensino médio e já estava trabalhando. Só que quando eu transicionei, fui mandada embora do emprego e as portas do mercado se fecharam para mim ao mesmo tempo que eu fui expulsa de casa. Então, o grande perrengue que eu passei na minha vida foi esse: de ser expulsa de casa sem estar trabalhando e não conseguir emprego. Foi o que acarretou a prostituição. Como eu estava saindo de casa e tinha que pagar aluguel, eu tive que me prostituir por três anos. Acho que o preconceito familiar foi o que mais doeu me desestabilizou. Porque se eu tivesse dificuldade de conseguir emprego e estivesse morando com os meus pais, por exemplo, eu não precisaria me prostituir. Não que eu ache errado, mas eu nunca ia querer aquilo na minha vida. Foi realmente porque eu necessitei. Foi uma questão de sobrevivência.

Por exemplo, se hoje em dia eu consigo um emprego, é porque eu peço para as pessoas. Eu entregando currículo não consigo. Mas eu peço às pessoas e geralmente elas se disponibilizam a me ajudar. Esse que eu consegui aqui foi assim — eu postei no Facebook: “Gente, estou precisando de um emprego, me ajudem”. Aí, no mesmo dia, a diretora daqui me respondeu e pediu que eu viesse aqui para conversar. No dia seguinte, eu estava trabalhando aqui. E eu também nunca trabalhei em empresa privada, desde que eu transicionei. Trabalhei em ONGs ou em projetos da Prefeitura, mas nunca consegui trabalhar em empresa privada, por exemplo. E quando você trabalha em ONG, tem prazo de validade. Atualmente, por exemplo, eu posso ficar aqui quatro anos que é o tempo de gestão da diretoria. Para que eu continue, vai depender da próxima gestão — não depende só do meu trabalho. Se eu não fosse travesti, ia depender só do meu trabalho lá dentro. Mas, aqui é diferente.


E depois que você saiu de casa, como foi esse processo? Foi aí que você começou a trabalhar o projeto de artes?

Dandara: O que verdadeiramente me levou a sair foi o projeto Damas, da Prefeitura de inclusão social de travestis e transexuais. Um dia eu estava na prostituição, já de saco cheio, aí uma mulher que trabalha na Prefeitura — era um grupo da Prefeitura — foi me entregar camisinha. Aí eu falei: “Ah, não quero. Eu quero é conversar com o Prefeito que eu quero um emprego e não consigo!”. Fui super grossa com ela. Aí ela disse: “Calma, calma, eu vou te ajudar. Me manda um email explicando a sua situação”. Aí eu fui e mandei. Ela disse que ia me colocar no projeto Damas, um projeto de inclusão social para travestis e transexuais, onde muitas conseguem emprego. Aí eu consegui comprar uma casa de R$3 mil no morro, subterrânea e cheia de infiltração, mas que pra mim era uma mansão porque quando eu entrei no Damas e passei a ganhar R$240, eu não me prostituí nunca mais. Porque eu passei a viver com esse valor. E apesar de eu não pagar aluguel, mesmo numa casa que tava me dando alergia e acabando com a minha saúde, ao menos eu não precisava pagar aluguel. E nessa época eu pagava meu INSS, que era R$90 e poucos, então eu vivia R$150 por mês. E eu tive sorte e empenho, porque eu corri muito atrás. No Projeto Damas você faz um estágio, e nesse estágio eu fui parar numa ONG. Quando houve uma oportunidade lá dentro, eu me dediquei e, a partir daí, consegui um emprego.

E quanto tempo você ficou no projeto Damas?

Dandara: Na época, durava quatro meses. Dois meses em sala de aula, tendo palestra, te ensinando a ser uma dama. E nos outros dois meses você fazia um estágio em algum lugar. Até a última turma, acho que durava oito meses.

E foi lá que você descobriu que queria ser atriz ou sempre soube?

Dandara:Eu sempre quis ser artista, mas nunca pensei em ser atriz. Sempre pensei em ser paquita, apresentadora de programa infantil, cantora., mas nunca atriz. Através do projeto Damas, teve uma Companhia teatral que se instalou na Lapa, perto do Beco da Rua, na Rua Joaquim Silva, esquina com a Rua da Lapa. Quando os atores iam para o ensaio, para qualquer atividade na Companhia, eles passavam pelo espaço das travestis, viam elas se prostituindo, e queriam se relacionar com elas. Então eles pensaram em dar um curso. Porque lá era um espaço chamado Instituto do Ator, onde eles se aprofundavam e só recebiam pessoas que já eram ator ou atriz para se aprofundar nessa arte. Eles não tinham um curso inicial, mas abriram um para as travestis. Mas eles tiveram dificuldade. Como a gente sofre muito preconceito, às vezes a gente já coloca uma defesa aí no meio. Eles então articularam esse curso com o projeto Damas e foi ali que eu descobri a arte. Foi estudando e fazendo a primeira peça ali.

Então foi ali que você descobriu que queria ser atriz? Não foi no percurso?

Dandara: Quando eu comecei a estudar teatro, queria ser vedete. Não queria ser atriz assim não. Queria fazer teatro de revista, queria até ser drag, mas não pensava exatamente em ser atriz. Aí a primeira peça que eu fiz foi Tchekovy. A diretora tinha um trabalho que você não mexia tanto em cena. Você concentrava toda a emoção de dentro pra fora e aquilo era algo que me incomodava muito. Porque eu queria ser vedete, queria cantar em cena. No início existia muito essa vaidade e não um amor a arte. E aos poucos que eu fui percebendo o que era ser atriz e que eu queria ser.

Apesar de ter retornado ao mercado formal de trabalho, o grande momento da minha vida foi o teatro. Porque o teatro é algo que faço com amor, e quando conseguimos juntar amor com profissão é incrível. Foi o teatro que me segurou nos momentos difíceis, que me deu visibilidade e me transformou em uma pessoa privilegiada. Eu posso dividir minha vida entre antes e depois do teatro.

Como é ser atriz e travesti?

É bem complicado, porque nas artes virou moda falar sobre nossas vivências, mas dar oportunidade para pessoas trans e travestis nem tanto. Por isso, eu tive que me reinventar na arte quando percebi que não podia ter tudo o que queria por ser travesti. A maioria das meninas que começou teatro comigo não continuaram, Eu percebi que para continuar nessa área tinha que criar meus próprios projetos, já que não poderia depender de oportunidades ou mercado. E isso piora por eu ser uma travesti gorda, já que quando me chamam para um teste, eles querem saber suas medidas. Eles exigem que a travesti siga um padrão de corpo. Eu sou feminina demais para interpretar uma travesti e minha voz é grossa demais para ser uma mulher cis.

E como foi o processo de fazer sua primeira peça, Dandara através do Espelho?

Dandara: Essa peça é toda autobiográfica. Quando eu comecei no teatro, comecei um blog, que teve vários nomes, o Boneca Dandara, em que eu escrevia várias coisas desde coisas relacionadas a teatro até sobre prostituição. Quando eu saí de casa, eu fiquei muito solitária e o blog era o que me salvava. Quando eu entendi que o teatro transformava a vida das pessoas, eu quis juntar o teatro com meus escritos. A princípio, ninguém acreditava na ideia ou focava mais nas partes sexuais do blog. Até que, em 2015, consegui montar a peça convidei o Diego para dirigir a peça, inicialmente queríamos fazer um curta-metragem, mas achamos que era pouco tempo para contar a história e nossa maior experiência era no teatro. Quando pensamos na peça, decidimos trazer um pouco dessa jornada que vivemos, que não foi nada fácil, para a peça. Atualmente, apresentamos a peça em temporadas e em apresentações isoladas.

Além dessa peça, quero trabalhar na peça que estou montando sobre a solidão da mulher trans. Porque quando eu pensava na questão da solidão da mulher trans, pensava só na falta de um amor, mas conforme fui estudando percebi que a solidão é muito maior. A travesti fica longe da família, sem emprego ou na prostituição que é uma forma de solidão também. Quero contar outras histórias além da minha trazendo esse aspecto que, infelizmente, é presente nas nossas vidas.