Moby Dick e a caça à nossa Baleia branca

Após centenas de anos sendo explorada, a natureza começa a mostrar sinais de fraqueza. Contudo, o mar continua forte, soberano do mundo e impenetrável pela ganância dos homens. Em suas profundezas, ele esconde mistérios que jamais conheceremos e outros que mexem com nossas cabeças; este último é o caso de Moby Dick.
A história da Baleia Branca vem há mais de 150 anos incentivando leitores a procurar pelo seu significado. Porém, essa busca não começou lá em 1851 (data da publicação de Moby Dick); mas desde o início da humanidade.
O que temos no livro é uma interpretação homérica sobre a nossa condição humana. A jornada que Ahab trilhou para encontrar Moby Dick nós também estamos trilhando, só que para encontrar outra baleia. Qual? Somente você para saber, leitor.
Moby Dick, o livro
Sendo uma das obras literárias mais importantes da história, “Moby Dick, ou A Baleia” dispensa apresentações. Inspiradora da música, da arte e da literatura, a obra prima de Herman Melville encanta desde os mais jovens até os leitores mais profundos.Isso porque a história de Ishmael, Ahab e toda a tripulação do baleeiro Pequod pode ser interpretada como uma simples aventura de caça às baleias até uma contenda de proporções bíblicas entre o bem e o mal.
Um mesmo livro nunca se lê duas vezes. E se tratando de Moby Dick, essa frase não poderia estar mais correta: você pode ler o livro mais de dez vezes e sempre encontrará um novo significado.
Por isso não vou ter a audácia de escrever sobre o significado do livro ou da própria Moby Dick, pois a beleza desse clássico é que você mesmo encontre o seu significado.
As próximas linhas serão sobre o que aprendi com essa obra maravilhosa e como ela me marcou profundamente.
Ahab e nós
Apesar de ser aparentemente um louco, Ahab nada mais é do que um humano como nós. Ele é um ser no caminho do seu destino, um destino que o coloca de frente consigo mesmo no reflexo das águas do oceano, onde ele vê sua verdade surgir das profundezas.
A busca pela Baleia branca é uma longa jornada, que vai revelando quem somos. Ahab, por exemplo, se tornou um ser irracional e manipulador — o que também podemos vir a ser — , porém, não podemos esquecer de sua coragem e determinação em enfrentar o seu destino.
“Eis aqui o homem. Desviar-me? O caminho de minha resolução é feito com trilhos de ferro, onde minha alma está encarrilhada. Sobre desfiladeiros insondáveis, através dos interiores áridos das montanhas, sob o leito das torrentes, avanço infalivelmente! Nada é obstáculo, nada me detém nessa estrada de ferro!”
Com a obsessão que cega completamente sua razão, Ahab ignora todos os alertas sobre os horrores causados por Moby Dick vindos dos baleeiros que retornam para casa, assim como também ignora o apelo feito pelo seu primeiro imediato Starbuck, personagem de enorme sobriedade e racionalidade na história:
“Oh, meu capitão! Meu capitão! Nobre alma! Grande e velho coração, afinal! Por que deveria alguém dar caça a esse peixe maldito? Vem comigo! Fujamos destas águas mortíferas! Voltemos para casa!”
Com a noção clara de que Moby Dick é a causa de seu sofrimento, de todo o mal de sua vida, Ahab não pode permitir que a baleia saia impune, ele precisa lutar.
Mesmo que a batalha seja impossível de ser vencida pela grandiosidade da baleia, ele não pode virar às costas para o seu destino, pois ele é o capitão da sua vida.
Portanto, leitor, seja qual for sua baleia ou o tamanho dela, você não pode deixar de lutar. Mesmo que isso o leve para uma jornada perigosa em mares misteriosos, você não pode virar o barco e voltar, porque o vento empurra as velas para o seu destino, e você deve enfrentá-lo mais cedo ou mais tarde.
Dentro da noite que me rodeia,
Negra como um poço de lado a lado,
Agradeço aos deuses que existem,
por minha alma indomável.
Sob as garras cruéis das circunstâncias
eu não tremo e nem me desespero.
Sob os duros golpes do acaso,
Minha cabeça sangra, mas continua erguida.
Mais além deste lugar de lágrimas e ira,
Jazem os horrores da sombra.
Mas a ameaça dos anos,
Me encontra e me encontrará, sem medo.
Não importa quão estreito o portão,
Quão repleta de castigo a sentença,
Eu sou o senhor de meu destino,
Eu sou o capitão de minha alma.
Poema “Invictus”, do contemporâneo de Melville, William Ernest Henley.

