Dirty, grumpy girl goes for a long, furious walk and dies in a ditch
Ou: a vida é uma vagabundagem

Ontem vi meu primeiro filme da Agnès Varda. Ontem vi “Sem eira nem beira” — e pensei — , sobre o nomadismo geográfico, ideológico, sexual, emocional. Pensei numa peça cujo ingresso pouco antes encontrara esquecido numa bolsa. “A alma imoral”, de Clarice Niskier. Pensei em uma passagem dessa peça.
Nenhum lugar é amplo pra sempre.
Pensei em quão difícil deve ser a vadiagem, mas quão difícil, também, é criar raízes. Pensei no que motiva um passo e pensei no que esse passo deixa pra trás, no que está adiante e no que condiciona o caminho. Pensei que só há uma coisa mais inspiradora que a revolta: o tédio — e o tédio revolta. Pensei no que quero escrever e no que não consigo escrever. Pensei naquilo de que posso fugir e naquilo de que não consigo. Pensei nos textos que larguei porque não consigo falar de coisas práticas porque estou apaixonada. Pensei nos que descartei porque não estavam suficientemente apaixonados. Pensei que talvez a vida seja isso — esperar que algo se torne trivial, para então seguir em frente. Pensei — é saber que não vou saber o que deixo para as pessoas que encontro e, pensei, todos nós terminaremos em uma vala. Pensei se deixar que passem é mais fácil do que passar. Pensei na transitoriedade e pensei no vermelho — que é intensidade em meio ao marasmo, que é o amor por quem compartilha da minha cama, que é o sangue do desvirginamento.
Tinha muito claro, comigo, que deveria ser esse o meu primeiro da Varda. Gostaria de falar mais dele do que mim, mas vi minha terapeuta no sábado.
Os outros existem para nos contar um pouco de nós.
Penso — perambulamos por aí atrás de histórias que nos pertençam, na expectativa de encontrar a resposta para uma pergunta que nunca fizemos, respondendo o que nunca nos perguntaram, tocando a vida como se em dívida com o mundo e como se o mundo nos devesse algo.
Morreu uma morte natural, sem deixar vestígios.
Penso que se mover é cansativo, mas estagnar é desesperador. Se nada fica para sempre, que eu vá, primeiro.
Mas e se nada ficar porque sempre me vou?

