Em defesa das mulheres escrotas

E por que “Crocodile” é um dos episódios mais importantes de Black Mirror, apesar de seus defeitos

Em seu excelente artigo “On Fear, Conflict, and The Frightening Women Who’ve Defined Horror”, Candice Frederick destaca o Terror como um dos gêneros mais importantes para a diversidade do papel da mulher no Cinema, uma vez que é o único gênero cinematográfico em que as mulheres são tão relevantes quanto os homens.

Isso se deve, em grande parte, às vilãs e anti-heroínas do Terror — mulheres indócis, inconformadas, imorais e violentas, cujas representações clássicas são destrinchadas por Frederick para revelar que, mais do que as mocinhas, elas é que são as responsáveis por abrir as portas para o avanço do feminismo na indústria.

Porque essas mulheres, ao contrário das heroínas, frequentemente têm a liberdade de estarem erradas.

Mais importante ainda, essas mulheres frequentemente estão erradas, seja aos olhos do espectador, da lei ou, tão somente, das demais personagens da história.

Em um ano “repleto” (para os padrões hollywoodianos) de mulheres heroicas — e necessárias — , e em um ano em que um dos filmes mais comentados foi “mãe!”, outra recontagem do arquétipo materno com alegorias bíblicas, obras como “Lady Bird” e “Crocodile” se destacam por incluírem protagonistas excepcionalmente defeituosas — esta mais do que aquela graças à estrutura da série que lhe dá suporte. Suas personalidades, escolhas e arcos perturbam as impressões que comumente temos das mulheres que aparecem em nossa tela, mesmo quando escorregam em tropos como “a filha rebelde” e “a mulher neurótica”.

Mas “Lady Bird” ainda tem a vantagem da leveza do roteiro de Greta Gerwig. É mais fácil “engolir” esse tipo de mulher em um contexto cômico. Por outro lado, “Crocodile” tampouco é uma história de Terror. Ele se aproxima muito mais do drama detetivesco, o que acrescenta alguns pontos na sua Tabelinha da Subversão, pois nesse gênero as mulheres ou são as vítimas — diretamente violentadas — , ou as heroínas — indiretamente violentadas, e buscando vingar as vítimas — ou, na pior das hipóteses, são coadjuvantes. É raríssimo encontrar uma mulher no papel antagônico sem que ela seja essencialmente uma vítima (particularmente, não lembro de nenhuma).

E se parece absurdo levantar uma bandeira do tipo “Queremos Mulheres Mais Violentas”, torno ao texto de Frederick e partilho de sua justificativa para a importância dessas representações:

Tais personagens devem existir simplesmente porque essas histórias também merecem ser vistas e contadas.

Além disso, não é como se a proposta de “Crocodile” fosse absurda — pelo contrário, as ações de Mia (Andrea Riseborough), sua “protagonista-antagonista”, são perfeitamente justificadas dentro da história. Seus motivos podem não ser bons o suficiente para nós, mas são coerentes sob seu ponto de vista.

É isso o que a torna uma personagem não só complexa e verossímil, mas capaz de provocar o mínimo de empatia — que é o que vai alicerçar sua importância dentro e fora da série.

ATENÇÃO: a partir de agora incluirei alguns spoilers do episódio Crocodile, de Black Mirror. Se você ainda não assistiu, é recomendável pausar a leitura, clicar aqui para assistir e depois voltar. ;)

Pois bem, uma recapitulação rápida: a história se passa na Islândia e começa com Mia e seu então namorado, Rob, atropelando e matando um ciclista. Em pânico, eles decidem despejar o corpo em um lago, [tentar] fingir que nada aconteceu e seguir com suas vidas.

Mas é fundamental destacar que Rob precisou convencer Mia a fazer isso, embora não tenha gastado lá muitos argumentos.

15 anos depois, Mia é uma arquiteta renomada, esposa-e-mãe-carinhosa e, aparentemente, imune a quaisquer consequências que o episódio pudesse ter gerado. Porém, quando é convidada a falar em uma conferência no que pode ser a capital do país, Reykjavik (isso não chega a ser comentado), é abordada por um Rob ex-alcoólatra e ainda chafurdado em culpa, que busca fazer as pazes consigo entrando em contato, através de uma carta anônima, com a esposa do ciclista assassinado.

E então o conflito — tanto da personagem quanto da história — se estabelece: Mia não quer correr o risco de sacrificar a vida que construiu para si e, sobretudo, não quer que os outros a forcem a correr esse risco. Ela tenta fazer Rob mudar de ideia, mas ele está convicto. Se deixá-lo ir, ela não terá controle sobre as ações dele e muito menos sobre as da polícia; só lhe resta, portanto, matá-lo.

Essa lógica se repete quando a investigadora de uma companhia de seguros, que usa um dispositivo para acessar a memória das testemunhas de um possível acidente que se desenrolava durante o encontro de Mia e Rob, aparece e torna a ameaçar sua segurança solicitando acesso às lembranças que Mia possa ter daquela noite (não, qualquer semelhança com “The Entire History of You” — terceiro episódio da primeira temporada da série — não é mera coincidência). No entanto, após se livrar dela, Mia também precisa se livrar de sua família, isto é, seu marido e seu filho pequeno. E se você está disposta a matar um bebê, bom… Sua moral é, no mínimo, duvidosa.

Eis o que me fez gostar tanto dessa personagem e desse episódio.

O histórico de Black Mirror, até “Crocodile”, é majoritariamente conivente à homotonia da moralidade feminina. Ao longo de seus 19 episódios, vemos os homens enfrentando jornadas morais muito mais complexas do que as mulheres, que inovam, nesse sentido, apenas outras duas vezes — em “White Bear” e “Nosedive”.

Mas, diferentemente de “White Bear”, que já parte de um olhar punitivo, e de “Nosedive”, que oferece, de certa forma, uma redenção, “Crocodile” deixa Mia livre para fazer suas escolhas e os espectadores, para ponderar sobre elas. Sim, ao que tudo indica Mia será presa, mas isso não chega a acontecer, de fato. Ela não chega a ser punida e em momento algum o episódio questiona suas decisões. São as pessoas envolvidas nele que questionam. Ainda assim, nós conhecemos os motivos de Mia, elas não.

Tudo isso pesa consideravelmente na hora de estabelecermos um julgamento.

Em Empathy for the Antihero, Michael Tucker, autor do canal Lessons From The Screenplay, faz um comentário interessante sobre o que é necessário para compor um personagem empático: ele não tem que ser moralmente impecável — ou “bonzinho” — , mas ser caracterizado de tal forma que, mesmo quando cometer atos que confrontem a nossa moral, nós possamos justificá-los e, por que não?, até concordar com eles.

Geralmente, isso é ok. O que não falta é história aclamada com anti-heróis.

Mas e anti-heroínas? E anti-heroínas especialmente violentas? E anti-heroínas especialmente violentas cujas razões são apenas minimamente sustentáveis, isto é, não partem de violências anteriores ou desejos de vingança, mas de algo mais “genuíno” e egoísta — ou da psicopatia, pura e simples?

E quantas dessas fora do Terror?

Amy, de “Garota Exemplar”, é um exemplo que se aproxima bastante do último caso, e também no gênero policial/detetivesco. Só que, embora seja, merecidamente, uma das personagens contemporâneas mais marcantes, Amy não é a protagonista de sua história, não totalmente. Ela é o plot twist.

Mia, porém, traz consigo um frescor inesperado: ela é uma mulher que pensa exclusivamente em si, que age pensando exclusivamente em si e que está disposta a ultrapassar seus limites morais para preservar o controle sobre a própria vida — tudo sob os holofotes do arco principal de uma história. É uma personagem que não pede permissão ao espectador para fazer o que quer, pelo contrário: qualquer que seja a opinião que formemos dela, não importa. Os motivos que formula para si bastam.

Mais do que uma personagem complexa, é uma personagem autossuficiente. Seus conflitos estão arquitetados na audácia dos outros de questionarem essa autossuficiência.

Quando, por exemplo, no começo do episódio, ela tenta dissuadir Rob de despejar o defunto no lago, emana o mínimo de humanidade necessária para simpatizarmos com sua situação. Esse gesto é importante para que nos importemos com ela como protagonista, mas também introduz a possibilidade de que Mia estivesse pensando em si, já então, e ao decidir pensar também em Rob, cometeu um erro.

Erro este que não volta a cometer quando confrontada pelas súplicas da investigadora de seguros.

Outro ponto que vale destaque é como Mia, ao contrário de Rob, não busca o perdão — seja da esposa do ciclista, seja de Deus, seja de si mesma. A ideia de escrever uma carta anônima e se confessar, para ele, ofereceria um conforto espiritual que ela, em contrapartida, dispensa. Ela sabe lidar com sua consciência, é confiante o bastante para não precisar desse perdão; mas nem por isso suas reações às manifestações de religiosidade, da necessidade de amparo, são “menos humanas”. Mia entende e apregoa que cada um faz o que pode, e acredita no que lhe convém, para sobreviver.

O outro lado da moeda é personificado por Shazia (Kiran Sonia Sawar), a investigadora e, no imaginário maniqueísta usual, a heroína da história. É ela que vai confrontar Mia, então é nela que depositamos alguma esperança de catarse.

Mais do que isso, porém, Shazia serve ao contraste que nos fará tentar encaixar Mia na assunção que esteja mais de acordo com nossa índole — se uma é “boa”, então a outra é “má”.

Por isso, é importante que ambas tenham as mesmas disposições: são mulheres obstinadas, trabalhadoras, casadas, com filhos ainda pequenos e envolvidas em atos — para nós — imorais.

Acessar nossas memórias, afinal, é invadir o que temos de mais exclusivo, de mais privado; que isso seja mandatório, mesmo nas circunstâncias apresentadas pela história, só não é absurdo porque, em maior ou menor escala, o consenso social existe dentro daquele universo.

A proposta do episódio, portanto, ainda que fuja um pouco da estrutura habitual de Black Mirror, faz jus à intenção da série: revelar como a tecnologia, e as promessas de progresso atreladas a ela, interferem na nossa concepção de moralidade e imoralidade. O incômodo não é despertado pelos recursos, em si, mas pela forma como as pessoas reagem a eles e como, dentro de um contexto específico, essas mesmas pessoas tornam tais recursos não só possíveis, mas necessários.

Aqui, fica evidente que imoral é tão somente aquilo com o que ainda não consentimos — ou, numa perspectiva ainda mais assustadora, que ainda não nos forçaram a consentir.

Remetendo a “The National Anthem”, o episódio mais humano — ou menos tecnológico — até agora, “Crocodile” triunfa por sua capacidade de se apoiar mais na escrotidão humana do que nos aparatos “inovadores”. Que haja uma mulher do naipe de Mia liderando sua narrativa só ajuda a consagrá-lo como uma das melhores histórias geradas pela antologia, porque, além de atender à sua premissa consagradora, contribui para difundir a ideia de que as mulheres também podem ser, e são, escrotas.

Para não fugir das comparações com “Fargo”, o que testemunhamos em Mia é parecido com o que testemunhamos em Gloria Burgle, da terceira temporada: uma ternura que, se houver, é construída pelas falhas mais do que pelos acertos. Se, porém, Gloria distinguia-se como um projeto de heroína que não se consolidou por interferência dos outros (como Shazia), Mia distingue-se por formular a si mesma.

Ela não é primeiro uma mãe, como a protagonista de “Arkangel”, ou uma esposa, ou uma mulher de negócios. Quando a conhecemos, Mia é um rascunho, que vai ganhando formas mais nítidas em função própria.

Mais de uma vez, Mia teve a chance de escolher “um caminho melhor”. Não ser cúmplice de Rob. Deixá-lo escrever a carta, já que ele prometeu não mencioná-la. Confiar em Shazia. Não matar o bebê. Embarcar em um arco que a redimisse ou fizesse dela a heroína.

Só que ter liberdade para escolher não ser a heroína é tão ou mais importante do que ter a liberdade de ser a heroína.

Isso posto, “Crocodile” não é um episódio impecável. É preciso perdoar uma(s) e outra(s) forçação(ões) de barra e furo(s) de roteiro. Ainda assim, é um episódio importantíssimo na trajetória de Black Mirror e na trajetória da representatividade feminina, porque num mundo que nos dá pouco espaço para errar, e nos pune com especial severidade quando erramos, encontrar uma mulher que fracassa na expressão mais primária de humanidade acaba sendo reconfortante.

Se não puder nos trazer nada de bom, que ao menos esse futuro distópico seja populado por mulheres cada vez mais livres para escolher.