Escrevendo em máquinas de banho
Ou: sobre escrever para não escrever

Em “Teatro”, David Mamet faz um levantamento interessante sobre a indisciplina e a motivação dos escritores.
A saber:
“Muitos, talvez a maioria, que sonham com uma carreira nas artes vão desistir não por causa dos obstáculos previstos e bastante enaltecidos — a crítica, a incerteza de trabalho, os rigores do ofício, a inconstância do público, a possível falta de talento — , mas porque não se adaptam a uma vida de autodirecionamento.
A pergunta aterrorizante para eles não é ‘Como posso servir ao meu ofício?’, nem mesmo ‘Como posso ganhar a vida?’, mas sim ‘O que deveria fazer hoje?’.
Um bom primeiro passo talvez seja a eliminação racional de tudo o que seja supérfluo: para ir nadar não é necessário um cavalo.”
Esse trecho advém de uma comparação que ele fez na abertura do capítulo 14, a respeito das máquinas de banho da era vitoriana:
“A máquina de banho era remanescente de uma atitude cultural. […] uma pequena cabana montada sobre grandes rodas e puxada por cavalos de tração até o mar, transportando um ou mais banhistas. Ao final do trajeto, os cavalos eram mandados de volta para a praia e as portas dos fundos da cabana se abriam para permitir que os banhistas descessem com certa privacidade na arrebentação.
[…] Os vitorianos lançavam-se a seus prazeres vestidos (ou só admitiam que faziam assim). Então, andar até o mar com uma roupa (por mais modesta que fosse) que cobrisse menos corpo humano ou sugerisse mais a sua forma parecia impensável, e a máquina de banho era uma forma de praticar essa decência por outros meios.”

Tudo isso para dizer que desenvolvemos meios — que parecem pertinentes, mas depois se revelam imbecis — de nos iludirmos.
Trazendo para a escrita, per se, ele usa esse exemplo para mostrar que, aferrados ao desejo de produzir alguma coisa, à expectativa de que o que produzimos terá algum sentido, à possível mensagem da obra e ao nosso suposto “dever” como supostos artistas, não produzimos nada.
O Mamet é um crítico ferrenho tanto da atribuição prematura de sentido quanto da busca pela elevação do espírito e do intelecto em detrimento da espontaneidade, porque:
1. Como é que você vai saber o que sua obra significa se você não a criou ainda?
2. Tentar forçar alguma mensagem, pseudofilosofar ou enfeitar o pavão pra parecer que sua obra é mais significativa do que ela realmente é, é corromper algo que, fosse honesto quanto à falta de determinadas qualidades, seria infinitamente melhor.
(Ou seja: faça o que você quer fazer, e não o que acha que esperam que você faça, ou não faça nada.)
Obviamente, porém, ele está falando de teatro. Sua crítica é motivada pelo seguinte:
“Novos dramaturgos, atores e diretores, que anteriormente e ao longo da história se preocuparam apenas com a forma (onde se posicionar? Quando falar? O que dizer?), agora rapidamente se tornavam preocupados acima de tudo com a motivação.
Vemos isso nos dias de hoje, quando camaradas esclarecidos do teatro, crentes de que estão ali para investigar seus personagens, espojam-se semanas a fio tentando não ensaiar a peça, mas inventar ou descobrir a maneira correta de conduzir um ensaio.”
Ele não critica, contudo, que se cavouque uma história atrás dos porquês que a conduzem DENTRO da história. Esses são necessários, e são respondidos pela própria obra.
Porém, ele passa o livro inteiro esbravejando contra a busca por motivações externas para se fazer teatro ou qualquer outra arte:
“Apelar para tais interações numa peça em que avançaríamos rumo à espontaneidade em detrimento da mente consciente e analítica é, similarmente, uma estupidez desnecessária. É a máquina de banho.
A água, contudo, continua aí, e é possível entrar direto nela. Não é preciso nenhum equipamento a não ser o insight e a coragem de perceber que não é preciso nenhum equipamento.”
Os porquês de se escrever determinada história devem ser respondidos, portanto, de forma bem simples: porque você QUER escrever determinada história e porque você PODE escrever determinada história.
Tudo o mais que buscamos para motivar a nossa escrita, além da mera vontade de escrever, é supérfluo e deve ser descartado, ao que se conclui:
→ o impacto da sua obra é supérfluo, porque você não tem como prevê-lo;
→ o retorno em relação à sua obra é supérfluo, porque você não tem controle sobre ele;
→ o possível e edificante significado da sua obra é supérfluo, porque ele não será interpretado da forma que você quer;
→ a moral da sua história é supérflua, porque é relativa.
Em suma, ̶f̶u̶c̶k̶ ̶D̶a̶v̶i̶d̶ ̶M̶a̶m̶e̶t̶ basta ao autor se preocupar com os seus personagens e em contar a jornada deles da melhor forma possível. O resto é megalomania, ou desculpa para não escrever.

