Vênus em Escorpião — diário de escrita #24

Já tinha ouvido falar sobre — esse puxadinho de Afrodite e Baco, um antro de libertinos para libertinos, a sacristia para os sacrilégios. Foi um conhecido que mencionou num texto, bem Gay Talese. Lembro claramente da menção, mas não há memória suficiente para resgatar o texto, em si. Provavelmente não era especificamente sobre isso; isso é apenas o que guardei. Diz muito sobre quão místico o local me pareceu. Cue the music: Eyes Wide Shut Music From The Motion Picture— Jocelyn Pook, Migrations; Tom Cruise adentra a festa orgástica. Todo mundo nu e mascarado. Ménades à porta, tocando harpa. Senha, por favor. Só filme francês, sem legenda. Pornografia da mais baixa. Registrei, fantasiei, esqueci. Segui a vida, anos e anos. Anteontem: ei-lo, em toda a sua glória, o Cine República. Preto de cima a baixo e do avesso. Um aviso corroído pelo tempo, pela urbanidade, por chuva e sol e chuva: apenas maiores de 18 anos. Então existe mesmo. Eu quero entrar aqui. Quase um impulso. Não, pera, eu sou mulher, não posso sair entrando sozinha. Minha psicanalista ainda vai me expulsar do consultório por pura preguiça de lidar comigo. Eu quero entrar aqui com alguém. Repassei mentalmente todas as pessoas que conheço e todas as pessoas que eu convidaria para um cinema 24 horas. Poucas. Duas. Qual aceitaria? Virou critério, de repente. Tem que gostar de cachorro, respeitar minha mãe, se dar bem com os meus amigos e entrar num cinema 24 horas comigo. Não precisa ver o filme todo. Mas eu vou querer conversar sobre depois. E segurar a mão. E dividir a pipoca. Essa é toda minha ideia de romance, atualmente, para minha própria infelicidade.
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