Combatendo o monstro que mora na minha pia




Num piscar de olhos, um novo mundo surge enquanto outro é destruído. Estrelas se formam, estátuas perseguem e enviam pessoas para o passado a fim de sugar os anos de vida de suas vítimas. Eu lavo a louça…

Ligo a torneira e a água corre, arroxeando a pele de minhas mãos. O detergente quebra as moléculas de gordura. Com a esponja, limpo panelas, pratos, copos e talheres. No escorredor, a louça aguarda para ser seca enquanto coloco os restos de comida e ossos na tigela da cachorra. Ela se deleita.

Procuro uma flanela no varal. Ouço uma batida na pia. Volto para a cozinha e voilá! Panelas, pratos, copos e talheres sujos, à espera da combinação água + detergente + esponja. Confesso que apenas cocei a cabeça da primeira vez, acreditando ter sonhado em limpar a cozinha.

Mas aconteceu de novo. E de novo. E de novo. De início, eu precisava sair da cozinha para que a transformação acontecesse. Desde a última semana, basta piscar. Eu pisco e um copo se enche com restinhos de açúcar ou achocolatado. Pisco novamente e um prato mergulha na pia, coberto de ossinhos de galinha.

Eu pensei em aceitar que essa situação é irreversível e, já que a casa seria tomada pela louça suja mesmo, sei lá, ir dormir na caminha da cachorra. Mas as vozes não me permitem. Elas riem de mim. A cada piscada, ouço um hahaha. E eu não posso me permitir ser feito de otário.

Já acendi velas, fiz jejum… e nada. Implorei pelo socorro do Google. Sério! Descobri que as esponjas de cozinhas são mais sujas que os sanitários e que, se você está me julgando, há 500 louças para você lavar antes de cuidar da minha vida. Mas nada sobre como eliminar o monstro demoníaco que mora na pia da cozinha.

Contudo, enquanto ouvia a última sinfonia de risadas durante a noite, uma luz veio à minha mente. Hoje, bem cedinho, comprei supercola e colírio (confesso que as pálpebras ainda doem um pouco). Se nenhum talher for utilizado daqui em diante, em uns três meses não teremos louça suja aqui em casa (digo isso com lágrimas nos olhos) e eu te chamo para um café (com copinhos descartáveis, claro).