No banheiro com Hitchcock

Dois homens, sentados em uma mesa, conversam sobre futilidades. Pode ser sobre o possível casamento de um deles ou sobre o garçom que cuspia nos lanches, em um café no Oregon. É apenas uma típica conversa entre amigos que pode durar alguns minutos… ou duas horas.

Abaixo daquela mesa, apenas alguns instantes antes de os dois amigos se sentarem, um terceiro homem, desconhecido, posicionou uma bomba caseira.

Você sabe disso. Eles não.

Você sabe disso, e também sabe que a conversa pode demorar horas. Principalmente quando o primeiro homem cruza as pernas e acende um cigarro. Você quer atravessar a quarta parede, entrar em cena e salvar aqueles dois dos quais você nunca ouviu falar.

Isso é suspense. E assim definiu Hitchcock, em uma de suas entrevistas a Truffaut.

Quando criança, meu pai dizia que era o maior barato assistir a qualquer filme daquele gordinho inglês simpático (ok. Sabemos que ele não foi tão simpático assim). A cada filme, ele fazia uma aparição e o cerne da diversão estava em encontrá-lo perdendo o ônibus ou servindo ponche. Até então, para mim, Hitchcock se resumia a isso.

Na adolescência, comecei a me interessar por cinema e parar para assistir Psicose (1960), Os Pássaros (1963) e todos os filmes mais conhecidos dele. Eu sabia que aqueles filmes eram bons. Havia algo mais ali. Só não entendia o que era. Anos depois, já na faculdade, assisti Janela Indiscreta e algumas coisas ficaram claras, como:

1. Nem tudo precisa ser dito

Para contar um bom suspense, é preciso saber esconder alguns detalhes. Assim como uma porta que se abre e fecha enquanto você esconde a arma de um crime. Ou como os pássaros que observam, cada vez mais de perto, a mocinha fumar um cigarro.

2. Ritmo é fundamental

Algumas histórias não confirmadas (nas quais eu acredito) creditam a Hitchcock a frase: “um bom filme dura enquanto as bexigas dos espectadores estiverem confortáveis”. Sua construção narrativa é orgânica. A interação entre cortes e movimentos de câmera intrigam o espectador. E o principal: ele não precisa de três horas para contar uma boa história.

3. Voyeurismo

As câmeras subjetivas colocam-nos como observadores de toda a trama, das xícaras de café envenenado aos olhos azuis de Grace Kelly. Hitchcock compartilha conosco todas as suas taras e desejos sexuais. A direção para ele é uma manifestação da sua volúpia. Afinal, em que outra situação sentiríamos tamanha excitação ao bisbilhotar, com James Stewart, a rotina sem graça de um bloco de apartamentos?

4. Show. Don’t tell

O real valor de sua direção, no entanto, está nos detalhes. Mostrar, em poucos planos, que um fotógrafo gosta de adrenalina, mora em um bloco repleto de pessoas comuns, havia quebrado a perna e ainda mantinha um relacionamento com uma mulher famosa e elegante não é algo simples de ser feito e dirigido.

Grandes suspenses se passam na nossa sala de estar. Hitchcock sabe usar isso com ações concatenadas, reviravoltas simples, com pessoas comuns e motivadas por detalhes quase banais. É uma história que poderia se passar aqui na minha casa. Por exemplo: eu posso estar escrevendo um texto, abrir a gaveta da escrivaninha para pegar uma caneta e…

… peraí! O quê que é aquilo ali no fun…