Incendiando os próprios cupins
“Escrevo o que não entendo na esperança de que me expliquem foi o primeiro contato que tive com ele antes de partir.”
Partir como, eu perguntei. Partir partido, ela respondeu.
“Havia muita confusão, você sabe? André não era uma pessoa muito conveniente de se ter por perto porque era muito perdido, e perdição nos torna longínquos, você entende?”
Não.
“Te explico. Quero dizer que não saber sobre si afasta você dos outros. Temos medo daquilo que iremos representar. André era um cara medroso pra mim — a partida física, espiritual ou seja lá a forma que você acha melhor empregar, me deixou mais sossegada. Antes era uma constância de dúvida, um eterno ‘e como devo me portar’ ou ‘como será que ele estará hoje quando o encontrar?’”.
A moça com vestido médio e pontuado por florzinhas suaves pouco contrastantes com o tecido enfeitado continuou respondendo as minhas indagações intercaladas com o floreio das sobrancelhas. Ao arquear individualmente a penugem esquerda, como se não fosse uma irmã quase gêmea daquela da direita, a moça partia para o desenrolar social de quem era André. No entanto, se falasse com a sobrancelha direita, a mulher do vestido falava à mim sobre as coisas do coração.
“Não sei dizer se me apaixonei por André”, ela evitou contatar meus olhos e fitou a cutícula do indicador direito enquanto removia sem muita habilidade com os dedos da outra mão. “Nunca nem nos beijamos, nunca nem desejei isso. Mas teve mesmo um acontecimento estranho recentemente”.
Que tipo de acontecimento estranho?
“Do tipo que se estranha quando ocorre. Bom, perdão por ser tão vaga, me preocupo se você não gostaria de mais um pouco de café”.
Estou bem.
“É que você segura essa xícara com mãos firmes, está me deixando agoniada.”
Apoiei a xícara na mesa de centro à minha frente. A moça cruzou as pernas e recostou no sofá.
“Bem, talvez você saiba o que dizem sobre André. Ele já cometeu atos de violência. André maltratava insetos porque temia eles, e quando sentimos medo de algo queremos destruir aquilo, é o que acontece. Não sei se ele temia virar um inseto — talvez ele não tenha nem mesmo morrido. E se virou um inseto de fato? Como uma punição por tanto destrato às pragas inofensivas? Enfim, André estava tendo um problema com traças e cupins. Seus livros foram devorados pelos vermes e seus móveis estavam arqueados após tanta mastigação das pestes. Ele começou a generalizar a raiva em todos os demais insetos do mundo. E o medo que embrulhou aquele coração tão bom que ele tinha, como gordura hidrogenada acumulada, acabou o matando”.
Você está me dizendo que ele morreu de infarto?
“Vou buscar um café porque você só pode estar muito sonolento para não compreender os rumos dessa história”. Ela se levantou e foi até a cozinha, voltou com a xícara transbordando e os dedos queimando. Deu passos ligeiros enquanto resmungou da queimação nos dedos. Agarrei a xícara pelo braço encurvado e levei diretamente à tábua mais uma vez. Não queria mesmo o café mas rejeitar não é do meu feitio. De qualquer modo, continue.
“Sim, claro. Ele não morreu de infarto. A raiva matou ele, mas não no sentido químico. Não sei se ele morreu na verdade. Como disse, ele pode ter se transformado em um inseto e agora detesta a si mesmo. Sabe? Como uma punição. Se o medo é uma proteção para evitarmos virar aquilo que tememos — e, assim, um combustível apropriado para nutrir raiva descomunal — a punição divina pode ter transformado mesmo aquela boca humana em presas para roubar grãos gigantes de açúcar na cozinha”.
Você acha que é possível um homem se transformar em um inseto? Me soa absurdo.
“Ah, é? Você descarta aquilo que é absurdo? Porque todos os dias os noticiários provam a mim de que o absurdo é só uma semente que ainda não se transformou em realidade. Nunca beijei ou me deitei com André, mas já fizemos alguns programas juntos. Do tipo de ir para livrarias ou reclamar da vida. Compartilhamos angústias envolvendo outras pessoas. Não lembro quando ele se tornou famoso, querido ou socialmente relevante. Não me parece que ele tinha esse feitio, mas conforme me afastei dele o ódio aos insetos começou a crescer. Certa vez fui à casa dele e percebi uma variedade tremenda de produtos inflamáveis. Ele estava se especializando em provocar fogo. Disse que nada mata melhor do que um incêndio bem feito. Que se as pessoas soubessem controlar o fogo, elas não precisariam de spray de veneno. Que isso era uma coisa de perdedores, empresas, capitalismo. Perguntei se ele não temia colocar tudo em chamas, transformar em cinzas o próprio lar. Ele disse que não via diferença entre cinzas e ruínas, mas que queimar algo tira o poder daquilo se tornar um souvenir de memórias dolorosas. Disse que não gostaria de ser lembrado na morte e por isso seu acordo mencionava cremação. Nesse mesmo dia ele me revelou, com olhos vidrados, que morrer e ser enterrado seria como ser vencido pelos vermes que combatia. Depois de engolirem os livros e os móveis, comeriam-no embaixo da terra. Não queria nenhum verme vivendo às custas do seu próprio cadáver porque sua missão no mundo era combater traças e cupins. Que tipo de hipócrita ele seria?”
Esse era o temor dele, a hipocrisia?
“É melhor você dar um gole nesse café, pois fui buscar e você continua aéreo, só pode, para não entender o que estou te dizendo. André não queria deixar lembranças, e percebeu que tinha se tornado o verme que temia. Vermes não deixam lembranças.”
Você fala de vermes mas quer dizer insetos?
“Pouco importa o que eu falo, importa sim o que você entende. Estou te dizendo o que ele me falava, e ele era sempre cuidadoso de dizer “vermes”, se você quer que eu fale sobre ele e o que ele me dizia, é bom respeitar a forma que ele denominava o que denominava, e como denominava. Não existe tradução perfeita, e se eu não o parafraseasse ou usasse exatamente os mesmos termos que ele usava, estaria apenas falando o que eu ouvia do que ele falava. E isso prejudicaria a sua pesquisa, investigação ou invasão de privacidade. Seja lá o que você esteja buscando aqui me fazendo essas perguntas, fazendo com que eu perca o meu tempo, dormindo enquanto eu falo e deixando o café que te ofereço esfriar. Se eu dissesse “insetos” e não “vermes”, desrespeitaria o que ele exatamente me falava e tornaria tudo aquilo que fora dito por ele como algo inútil. Não se pode recorrer a um mensageiro para saber o que a fonte originária tem a dizer porque o mensageiro nunca conseguirá reproduzir a mesma expressão daquele que manda a mensagem. Entende o que quero te dizer? A forma que você me olha enquanto diz algo é tão ou mais relevante que a entonação da voz e as sílabas que cospe pela boca. Essas faltas de comunicação frente à frente é que criam os rompimentos diplomáticos e amorosos, isso se acumula como os cupins se acumulavam nas madeiras da casa do André.”
Entendi sim. Bom, eu acho que isso aqui já é algum material…
“É, eu devo ter esquecido de mencionar coisas. Também me atropelei em outras. É o que acontece quando se fala olhando para alguém que não aquieta as sobrancelhas. Se você quer uma dica de como não perturbar o meio do depoimento de alguém, aí vai: pare de mexer essas malditas penugens. Olhe firme para mim, beba alguns goles do café, use seus lábios para expressar emoção. Pare de mexer as malditas sobrancelhas e me deixar com a sensação de que estou sendo julgada a todo o momento.”
Me levantei com as juntas se expressando em estalo. Matei o café da xícara e agradeci. Muito obrigado mesmo pelo seu tempo.
“De nada. Bata a porta com força ao sair, pode puxar a maçaneta. Mas puxe com cuidado para ela não escapulir na sua mão. Essa fechadura está uma porcaria e precisa ser tratada com firmeza, mas evite a violência.”
Obrigado, o farei sim como você pediu.
Agora era sublinhar o que havia de importante e tentar chegar ao próximo contato. Sinto que quanto mais se pesquisa sobre alguém, mais dúbio e confuso tudo se torna. André parecia ser tantas versões de si mesmo que eu já me perguntava se não haveria uma delas ainda andando por aí, alguma outra morta, e ainda outra mastigando livros e vivendo junto a uma sociedade de traças.
Conto parte dos “contos abandonados”. Mais sobre, aqui: