Possessividade e obsessão: coisas do amor. Foto: BM

CECÍLIA

Ela é linda. De uma boniteza tamanha que não adiantaria tentar explicar, pareceria descrição clichê de filme água com açúcar. Uma fotografia do seu rosto seria capaz de causar uma ponta de dor a qualquer um. Em mim, sua beleza enquadrada doía, me trespassava a alma. E minha paixão por ela sangraria até me esvair.

A última vez que conheci uma mulher tão exuberante e feminina e que me causava a mesma sensação assim foi Lola, que partiu meu coração quando eu descobrira que ela era uma dama de companhia, uma meretriz. E isso, pra mim, fez sua beleza fenecer. Lola morreu pra mim.

A moça que Antônio Carlos me apresentou há cerca de três meses, não. Cecília é o sol. Eu sei, é brega falar que ela é o sol. É uma conotação tão infantil, lugar comum. Toda dançarina de programa de humor adora falar para revistas de fofoca que sicrano é seu sol. E eu odeio ser piegas, até porque, a lua tem muito mais brilho do que o sol. Já viu alguém contar seus segredos ao sol? Chorar à espera de um amor olhando o sol? Se inspirar no sol pra fazer uma carta de despedida? Mas Cecília é o sol, pois me enche de calor, de vida. Sei, sou incoerente, mas é que no fim das contas, não existe fonte de inspiração mais iluminada do que aquelas tocadas pelo amor. Mas isso também é brega demais. Acho que preciso parar de escutar música sertaneja.

Cecília não andava bem com Antônio Carlos. E isso desde nos conhecermos e nos apaixonarmos. Me sinto mal, Antônio é um grandessíssimo amigo. Deveria ouvir da minha boca que amo Cecília, que estamos apaixonados, que se foda o mundo, que viveríamos juntos e adotaríamos o filho que ela sempre quis. Mas ela achou melhor não e foi ter uma conversa derradeira com ele.

Chegando ao apartamento dele, Cecília notara a feição de Antônio Carlos, o semblante de quem chorara uma noite inteira. Sempre pressentimos quando seremos rejeitados.

Quando ela chegou, ele havia comprado flores do campo pra ela, pôs uma música do Chico Buarque e a tirou, consternada e constrangida, pra dançar no meio da sala. Cecília me disse ter chorado quando ele cantou baixinho um trecho em seu ouvido, um sempre cantado por ela pra ele após fazerem amor:

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece

Cecília parou a dança e começou a Via Crucis de contar a um amor que precisava partir. E insistia no clichê; o problema não era com ele, obviamente pra não arrasá-lo com a notícia de que havia encontrado outro amor. Mas Antônio surtou, não ouvia o que ela dizia, não aceitava, afirmava que ela estava confusa. Enquanto Cecília detia o choro a todo custo, Antônio Carlos parecia esquizofrênico, andando em círculos na sala, perguntando a si como iria embora da vida de Cecília, agora que seu corpo estava tatuado no dela e desfiou todas as afinidades de ambos, como fazer amor ao som de bossa nova, ler juntos os romances comprados em boas livrarias ou gargalhar de programas de humor que mais ninguém via graça.

Minha raiva crescia escutando essa história. Tinha inveja e ciúmes dele por ter vivido todo esse tempo com Cecília enquanto eu ainda a procurava. Admito: ela ainda o ama. Mas está apaixonada por mim! Loucamente apaixonada por mim!

Cecília, com os olhos vermelhos, continuou a me contar. Antônio Carlos dizia a ela o quanto a amava — o último recursos do apaixonado em desespero — repetindo “Eu te amo. Cecília, eu te amo!”, e ela confusa, ele a acuando física e psicologicamente no apartamento, ela pedindo pra ele se afastar, ele se declarando, caminhando em sua direção que, transtornada, o empurrou. Antônio Carlos tropeçou e caiu em cima da mesinha de vidro, morto. Quando ouvi isso, minha raiva cessou, fiquei feliz por dentro.

Foi quando Cecília me ligou aos berros, soluçando, chorando, sem conseguir se expressar direito, contando que ele estava morto, que o matara. Fui lá voando. Pusemos o corpo do Antônio Carlos no meu porta-malas. Cecília não parou de chorar um segundo. No caminho pra casa, disse a ela que estava tudo bem, eu a amava, tinha economias e fugiríamos pra uma fazenda, um lugar em que vivêssemos só pra nós, onde ninguém saberia que ela assassinou o ex-amor e foi viver uma vida com outra mulher, seu novo amor, eu. Ao chegarmos em casa, dei um calmante pra Cecília. Fizemos amor e ela me contou toda a história. Mas tornou a chorar, dizia que enterraria Antônio Carlos em nossa fazenda, que ela o queria por perto, que eu não podia lhe negar isso… Isso foi me exasperando, irritando, irritando. Não queria o Antônio Carlos por perto onde quer que fôssemos! Com o travesseiro, asfixiei Cecília. Pronto, agora ela é só minha e de mais ninguém. Iremos pra nossa fazenda.

Conto inspirado livremente na música Eu te amo, de Chico Buarque e Tom Jobim.