Lana, Camilo e Eu. Foto: O Quinto Andar.

LANA E CAMILO

Li em algum lugar uma vez que era mais fácil perdoar um inimigo do que um amigo. É uma frase verdadeira. Mas se é mais difícil perdoar um amigo, também é muito mais fácil que o perdão seja de coração, pleno. Descobri isso na prática com Lana e Camilo.

Camilo era um amigo de fé desde a infância. Destas amizades inabaláveis que só tempo, percalços e confissões são capazes de lapidar. Nossa turma é a mesma e fazemos reuniões com muita frequência, então era inevitável ele também não se tornar muito amigo de Lana, minha esposa. Resumidamente, um dia precisei voltar de manhã em casa pra pegar uns documentos que precisaria. E estranhei o carro de Lana ainda estar lá. Ela não havia ido trabalhar? Mais estranho ainda: o carro de Camilo também estava. Na minha vaga. Não entendendo ou fazendo de conta que não entendia, entrei em casa e subi as escadas. Me deparei com a cara de Camilo enfiada nas ancas de Lana. Fiquei pasmo, não consegui expressar reação. Por trinta longos segundos, que se pareceram eras, vi Camilo se lambuzar de Lana.

A descoberta não poderia ter sido mais clichê quando notaram minha presença: houve uma patética procura pelas roupas espalhadas e frases como não é nada disso que você está pensando e eu posso explicar.

Às vezes acho que a infidelidade quando descoberta seria mais poética se fosse silenciosa. Apenas desse a cara a tapa, vai, eu mereço ou nada dissesse, escutasse e aceitasse que tudo aquilo só aconteceu por uma escolha própria.

A traição é nada mais, nada menos do que não aceitar a vida adulta, que é feita de escolhas: conquistas e renúncias. Você acha que pode ter tudo e todos, que pode sempre vencer infringindo as regras combinadas entre os jogadores, mas vira uma criança de colo quando te descobrem trapacear e te tiram o troféu. Uma faceta muito infantil. E teatralizar qualquer drama que seja, torna o desprezível ainda mais desprezível. Dei as costas enquanto eles me chamavam pra conversar e ainda tentavam se vestir. Saí de lá cantando pneu. No caminho liguei pra firma, matei um parente distante, desliguei o celular e fiquei o resto do dia de folga. Aluguei um quarto em um bom hotel e fiquei o resto do dia na varanda, apreciando o horizonte da capital, bebendo minhas Heinekens, fumando meu Marlboro e refletindo sobre o que aconteceu. Saber que Lana me traía afetou meu machismo, como se os papeis tivessem trocados na relação: ela o homenzinho, eu a mulherzinha. Também era dolorido lembrar da minha esposa e do meu melhor amigo em minha cama. Mas havia uma sensação esquisita e desconhecida aplacando esse todo ruim: sempre que me lembrava da cena de Lana e Camilo fodendo, ficava com tesão.

Voltei pra casa só no fim do outro dia, mais ameno, menos atordoado. Mal abri a porta e Lana se agarrou em mim. Meu celular tinha 37 chamadas não atendidas dela. Lana estava com olheiras grandes, descabelada, chorava copiosamente. Perdão, perdão, eu te amo. Não me deixe, foi só uma transa, a gente vai superar…

Porra que saco de texto batido. A gente vai superar? Eu sou o corno e a gente vai superar? Na hora de assumir erros as pessoas sempre usam os plurais, mas pros acertos são sempre os singulares.

Falei que estava tudo tranquilo, pra ela baixar a tensão, não ia deixá-la. Transamos naquela noite. Lana gozou três vezes, dizia que me amava, que me amava. Mas não consegui ter um mísero orgasmo, virei e dormi com o saco doendo de semên encalacrado.

Eu e minha esposa Lana retomamos nossas vidas e Camilo, como todo homem, não deu as caras. Devia estar com medo, vergonha ou remorso. Ou tudo junto, afinal, como justificar o inexplicável? Nas semanas seguintes, o sexo entre eu e Lana voltou à burocracia de sempre. Eu continuava sem gozar e Lana parou de ter orgasmos frenéticos. Também voltávamos à falta de intensidade na relação. “Quem perdoa com facilidade incita a ofender novamente”, disse Pierre Corneille, um dramaturgo francês. Ele estava certo. Era clarividente que Lana e Camilo tornariam a se encontrar. Isso me excitava. Eu teria virado um voyeur? Enfim.

Eu tinha certeza que dessa vez não se encontrariam em nossa casa, seria muita presunção. Animado e instigado com a ideia, passei a sondar Lana, a ficar atento às chamadas e mensagens no celular dela e descobri que planejavam se encontrar naquela semana. Comprei algumas informações e o silêncio do porteiro do Camilo. Pobre coitado, recebe um salário mínimo de fome e nem hesitou quando mostrei os seis mil dentro de um saco de pão. Além de me informar que minha esposa e meu melhor amigo se encontravam na casa dele há mais tempo do que eu pensava, também pôs na jogada uma faxineira que tinha uma chave extra do apartamento. Foi assim que os surpreendi novamente. Fiquei escondido em um canto do banheiro da suíte que tinha visão periférica da cama. Quando meu amigo começou a mandar ver na minha esposa, saí do banheiro. Eles pareciam ter visto um fantasma. Falei com calma que estava tudo bem, só queria continuar assistindo. Mas eles fizeram menção de se vestirem, devem ter achado que eu não estava batendo bem. Um bom sujeito que não bate bem pode ser mais perigoso um milhão de vezes do que um bandido. Tirei o oitão que trazia por baixo da jaqueta, apontei pra eles e disse pra foderem. Lana se mijou no meio do quarto, Camilo broxou por completo. Claro, que burrice a minha: quem sentiria tesão com uma arma apontada? Mandei os dois pra dentro do box do banheiro e ordenei que se lavassem. Ainda apontando o oitão a ambos, disse pra Lana chupar Camilo. Ela punha o pau mole dele na boca chorando e com uma espécie de nojo que eu ainda não tinha visto. Ele, por sua vez, não ficava ereto. Perdi a paciência e comecei a berrar dizendo que gostaria imensamente de ver os dois trepando. Camilo, mais calmo até então, começou a tremer igual vara verde, se cagou embaixo do chuveiro. Lana chorava como uma criança pedindo pra eu guardar a arma, pedia perdão.

Ou seja: pra se encontrarem às escondidas, conseguem fazer de tudo, mas na minha frente, não? Quer dizer que só tem graça se tiver alguém sendo feito de otário? A traição pela infidelidade, a traição do melhor amigo com a esposa e a traição de só funcionar se tinha um sacaneado no meio — a traição da traição da traição.

Me senti um imbecil que não me senti antes. Isso e aquela cena dos dois nus, com cheiro de merda e barulho de choro me tirou o tesão. Dei um tiro na cabeça de Lana e outro no saco do Camilo. Só quando o urro dele ficou mais agudo e começou a me irritar, dei dois tiros em seu peito. Olhei a cena ensanguentada dos dois caídos no box; isso me encheu de uma paz interior muito serena, muito plena. Sorri. Eu os havia perdoado.