



A chegada de Abraão
Os estrangeiros mudaram Tulum e foram mudados por ela
O etíope Abraham entrou descalço e sem camisa, olhando para os lados, no The Weary Traveler Hostel. Vestia só uma bermuda puída e um chapéu, e parecia procurar alguma indicação de que ali se vendia cerveja. O mexicano David Trejo lembra com detalhes da chegada de Abraham, 12 anos antes da nossa conversa no mesmo hostel. Foi David que serviu a cerveja. O que ele não lembra ao certo é como e quando, de uma hora pra outra, vários outros chegaram pra ficar pra sempre em Tulum.
Naquela época, o hostel era, além da única hospedagem para mochileiros da cidade, a principal fonte de informação. Os jornais não chegavam até ali, então os computadores com acesso a internet e a tela com televisão via satélite reuniam muita gente. O dono do lugar, o estadunidense John Cavanaugh, diz que os estrangeiros da cidade inteira estavam dentro do “Weary” nas horas seguintes à queda das torres gêmeas.
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Dividimos a mesa onde conversamos, David e eu, com o francês Stephanne, a inglesa Emma, a alemã Helen, o tcheco Lukas, o belga Kenneth e o mexicano Eduardo. As diferenças culturais, que pra mim são tão marcantes, para eles parece não importar nem um pouco. Os amigos, que se conheceram ali mesmo, já não são mais turistas. Eles não só fazem parte de uma galera que mudou a cidade, mas que também foi mudada por ela.
Stephanne Turrene, 32, conta que ao se formar em Línguas, então com 23 anos, decidiu que deixaria Paris. Abriu um mapa mundi, fechou os olhos, sacudiu a mão, apontou e tac, bateu com a unha no mapa esticado sobre a mesa. Abriu os olhos para ver onde iria morar: no meio do oceano Atlântico? Repetiu o gesto, e, como você deve imaginar, tac, o indicador parou sobre o México. Como se desenhasse um mapa no ar, ele me mostra o percurso da viagem que fez de ônibus, do Norte do México até aqui, no extremo sul do país.
“Por que Tulum?”
“Não sei, alguma coisa me trouxe pra cá e eu fiquei.”
Emma Rubens, 31, a inglesa da mesa, tinha 22 quando se formou em Artes e colocou a mochila nas costas para entrar em um ônibus, na Cidade do México, e começar uma viagem por toda a América Latina. O plano era parar em uma cidade, trabalhar, ir para outra cidade, trabalhar, e assim chegar, quem sabe, até o Brasil. Não contava que se apaixonaria e, mesmo depois de se separar, não voltaria mais para a Inglaterra.
Naquele dia, há 12 anos, algumas garrafas de Corona depois, Abraham foi embora. Voltaria no dia seguinte, e no outro, e no próximo, até que virar gerente do lugar. Ele contratou Stephanne para recepcionista quando o francês chegou na cidade. O mesmo aconteceu com Emma, com quem viveria junto por cinco anos.
Hoje, Stephanne é dono da única escola de idiomas de Tulum e Emma consegue viver apenas dos quadros que pinta, fazem o que sempre quiseram fazer, mas em um lugar onde nunca imaginaram que estariam.
“Nós somos uma família diferente, cada um de um país”, me diz Stephanne.
A noite passa e as garrafas se empilham sobre a mesa. Nada de Corona. É cerveja de turistas e eles não são mais. Abraham chega à mesa e brindamos. Ele segue de bermuda e chinelos, como todos os outros.


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