A saudade de Chino

Nem tudo é diversão em um lugar onde muita gente vem pra relaxar

O dono do restaurante de comida chinesa onde almoço pelo menos uma vez por semana aqui em Tulum não é chinês. É um mexicano e, como dizem por aqui, um “puro corazón”. Por aqui dizem também que existe um novo verbo: fulano é advogado, trabalha muito, mas está “tuluming” há um mês. Tuluming, relaxando, curtindo sem preocupações, sem querer estar em nenhum outro lugar. O dono do restaurante não está tuluming.

A história dele começa em 1994 e não é nenhuma novidade no México: aos 19 anos, Chino viajou de Valladolid, sul do país, até a fronteira com os Estados Unidos, em Tijuana. Pagou um coiote que o levou, ele e mais uma dúzia, morro acima e morro abaixo durante uma noite inteira até chegar a San Diego, na Califórnia. De lá, foi enviado a Denver, no Colorado, conforme o combinado. Reencontrou familiares e conheceu o grande amor da sua vida, que seguia feliz e tranquila até que…

Vinte e um anos depois, Alberto Azcorra, o Chino, não vive mais em Denver. Ele está em Tulum, a alguns milhares de quilômetros da esposa taiwanesa que conheceu já no seu primeiro dia de trabalho em um restaurante de comida oriental. Ela era a dona.

Quando voltou para o México, em 2004, para passar as férias, achou que o retorno seria fácil como da primeira vez. “Não precisa levar água”, disse o Coiote. O percurso para regressar aos Estados Unidos levou cinco dias.

“Não sabia que ia ser tão difícil, da primeira vez foi fácil. Eu tava entediado nos EUA, vim pro México pra rever amigos e rir”, conta.

Chino não queria mais precisar passar por esse perrengue para ir ao México quando batesse a saudade da terra. Já não tinha a mesma disposição. Entrou com toda a papelada necessária para virar um residente, um imigrante legal.

“Me mandaram cruzar a fronteira para receber a documentação final”, me conta, enquanto termino meu almoço.

Em Ciudad Juárez, no lado mexicano da fronteira, Chino viu um agente da imigração carimbar uma, Duas, TRês, QUAtro, CINCo, SEISSSSSS PÁGINAS.

“Mas na sétima ele me deu o carimbo de “negado”. Ele descobriu que eu havia tido um problema com a imigração”, diz, resignado.

Faz oito anos que Chino foi obrigado a deixar a esposa para voltar de vez para o México. Aqui, botou em prática o que aprendeu com ela e montou seu restaurante.

“Faço a comida com o mesmo carinho que fazia lá, com o coração”, sorri.

Quando me deixa pagar o almoço, me cobra só a metade. Sempre assim, puro corazón. Na porta, antes de embora, me dou conta:

“E a sua esposa?”

“Seguimos apaixonados. A cada seis meses ela vem pra cá me ver.”

Chino ainda tenta a papelada para voltar. Nem todos que estão em Tulum estão Tuluming.

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