O reencontro com Tulum e a tristeza de Johannes

Amigos, histórias e mezcal

Pessoas de sabe-se lá quantas nacionalidades cambaleavam pela noite em uma das ruas transversais do pequeno pueblito de Tulum, por onde começo a minha viagem pelo Caribe. Uma asiática a poucos metros de mim tropeça e deixa cair uma garrafa de cerveja, e o barulho que me chama a atenção também me revela, mais uma vez, um dos motivos de eu ter vindo para cá: volta e meia, é preciso reencontrar os amigos. Ao lado da japa estava Johannes, que não só é meu amigo, mas amigo do amigo que me trouxe aqui pela primeira vez.

Aos 26, Johannes Rustige, filho de uma alemã com um Mexicano, tem uma sabedoria incomum, mas não difícil de se encontrar por aqui. Um conhecimento que não é fruto apenas de educação formal, me parece que o contato intenso com a natureza que deixa as pessoas mais reflexivas.

Caminhávamos para o bar e depois de saludar-nos, já a beira do balcão, veio a pergunta: “Y como está el pinche Emilio?”

Emílio é o amigo com quem vim a Tulum pela primeira vez, em 2012, para um projeto de oito meses que incluia uma viagem, de Kombi, daqui até o Brasil. Os dois se conheciam há anos, Johannes conta que era uma criança quando já observava como Emilio conquistava as mulheres na beira da praia. Não por acaso, assim como Emilio, ele virou mergulhador.

Johannes tem uma característica marcante: ele costuma sorrir o tempo todo enquanto fala. Por isso, a tarefa de contar-lhe o que aconteceu com Emilio foi bem mais difícil que nos vários outros reencontros com amigos aqui de Tulum. As garrafas de cerveja já estavam abertas sobre o balcão e, sem brindar, tomo um gole antes de falar:

“Pinche Emilio teve um derrame. Perdeu parte dos movimentos e se esforça muito para falar, o que o deixa triste, às vezes, já que gosta muito de conversar.”

Johannes fecha o sorriso, leva as mãos a cabeça e os cotovelos sobre o balcão, em silêncio. Fica imóvel por alguns segundos até que balança a cabeça e, quando a levanta, pede duas doses de mezcal.

“Pois então diga a Emilio que ele não precisa ficar triste. A vida segue diferente, pero de certa forma igual. Vamos beber para celebrar sua vida. Que venha a Tulum que aí vou levá-lo a mergulhar, e ahí abajo del água não se precisa falar”, diz, sorrindo.

Mais uma garrafa se quebra na rua, Tulum segue seu ritmo: diferente, mas de certa forma igual.


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