A tranquilidade de Seu Ítalo

A história de Ítalo Caversan, que passa as noites sentado no Aeroporto de Guarulhos, é a primeira de uma viagem de 12 meses pelo Caribe

A vida, essa velha professora que nunca se aposenta. Haviam-se passado quase 10 horas de espera no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando comecei a reclamar a mim mesmo da situação. Não aguentava mais ficar sentado, tampouco queria dar mais uma volta completa pelos três terminais. Irritado, ansioso com o que estava por vir e com medo de que desse tudo errado. O contrário do senhor que recém sentara na minha frente com uma dessas almofadinhas que se colocam ao redor do pescoço para se dormir em viagens. Se a tranquilidade existisse em pessoa, seria aquele velho.

Ítalo Caversan, 80, vai todas as noites, às 20h, a uma das lojas da cafeteria Starbucks do aeroporto para dormir sentado em uma das macias poltronas de couro marrom. São realmente bem mais confortáveis que os assentos regulares dos saguões e justamente por isso eu estava ali quando aquele senhor, que poderia figurar no núcleo italiano de qualquer novela de época, chegou.

As três funcionárias do café confirmam que há dois anos o velhinho chega às 20h e se vai às 5h30 da manhã seguinte. Enquanto ele cochila, elas contam o que especulam sobre a sua história. “Ele tem dinheiro”, “é formado em economia”, “é um amor de pessoa”, “não tem família”, “não é o primeiro jornalista que aparece aqui para falar com ele”. Em uníssono, respondem se Seu Ítalo costuma consumir na cafeteria:

“Frappuccino de morango com pouco gelo e bastante creme.”

Na mala sobre um carrinho do aeroporto, fotos de viagens a Nova York com uma Times Square quase sem outdoors. O velho com paletó e boina tenta manter a elegância da época em que viajava tanto que chegou a encher três passaportes de carimbos. Uma reportagem gravada pela TV Record dias antes confirma: é ele mesmo nas fotos, os passaportes existem. Assim como a BMW M3 vermelha, ano 1991, guardada em uma garagem no Tatuapé, e o diploma do curso de Economia na PUC-SP.

Mas por que gastar R$300 por mês, mais de um terço do que ganha de aposentaria, para bancar os custos da garagem para um carro que ele nem mesmo dirige? Por que não usar esse dinheiro para alugar um lugar para morar?

“O carro foi um presente da minha mãe, eu olho pra ele e não vejo dinheiro, vejo a minha mãe. E não venho dormir aqui porque eu quero. Estou aqui por necessidade, as coisas não são assim tão fáceis.”, me responde.

Penso um pouco mais sobre todas as vezes que precisei alugar um apartamento. Renda superior a X vezes o valor do aluguel comprovada, fiador, contratos. Realmente, não é fácil. O advogado do Seu Ítalo diz, na mesma reportagem da Record, que ele tem R$ 50 mil guardados, mas está com o nome sujo por dívidas.

O tempo livre é preenchido com visitas ao carro, almoços em uma churrascaria gaúcha e orações na Catedral da Sé. Quando encontrei com Ítalo, ele recém havia voltado de lá. Havia ido à missa em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog.

As viagens e o luxo teriam sido bancadas pelo rendimento de dois postos de gasolina que teve antes de perder tudo. A perda do que restou da fortuna foi o que o levou a ir dormir no aeroporto. Ítalo conta que o apartamento onde morava foi a leilão público por uma dívida de R$ 1000 de condomínio e que não teria recebido nenhuma notificação da dívida antes de ser despejado. Sem filhos nem esposa, só tem um parente próximo: um irmão em Osasco com quem deixa suas roupas e onde toma uma ducha dia sim, dia não. Preferi não perguntar o porquê dele não viver com o irmão.

Ítalo viajou o mundo, mas hoje vai ao aeroporto apenas para dormir e de vez em quando tomar um frappuccino. Enquanto ele recolhe os documentos e as fotos da mesinha da cafeteria, procuro a minha passagem para o México.

“Uma boa noite pro senhor, Seu Ítalo, já tá na hora do meu embarque.”, me despeço, tenho mais várias horas sentado pela frente, mas desta vez no avião.

“Rapaz, escreva que a minha vida é boa, só se perde tudo quando se vão as lembranças. Cuidei da minha mãe até seus 99 anos, tenho a consciência tranquila e dormir sentado não é tão ruim quanto parece.”

Ok, vida, lá vamos nós. Daqui pra frente sem reclamações.


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