Nada é pra sempre
A chave do apartamento quebrou na fechadura. Entrou pela cozinha, incomodado. Ao abrir a geladeira, as dobradiças se soltaram e a porta desabou. “Sorte, não tem mais ovos”. Lembrou de longínquas aulas de química sobre oxidação. “Merda de maresia”. Pegou o telefone: mudo. Umidade nos cabos, talvez. Resolveu sair, mas a chave da cozinha também quebrou na fechadura. Voltou à geladeira, abriu uma lata de cerveja e cortou o dedo. Enquanto aplicava um curativo, refletiu sobre a improbabilidade matemática dessa sucessão de incidentes. Não era supersticioso, mas pelo sim, pelo não, achou melhor ficar em casa. Tirou camisa, sapatos, calça e meias, apagou a luz do quarto e deitou na cama. A bala perdida entrou pela janela, ricocheteou na luminária e acertou-lhe o peito, enquanto sonhava com uma cabana à beira-mar.
Floripa, agosto de 2004