A erva

por: Milena Taveira

foto: Mayara Queiroz

A beleza das plantas encantava. Tudo verde, tudo tão lindo. Era apaixonado por isso. E estar ali, naquele orquidário, o fez se sentir tão bem. Sorriu, um sorriso de ponta a ponta. Quem o olhasse naquele tal momento, extasiado, perceberia a felicidade de longe daquele garoto e soltaria um sorriso também. Era contagiante! Mas em segundos a sua expressão mudou. Respirando fundo, partiu em busca do que o levara ali. Estava em uma missão, precisava encontrar.

Chegou aliviado em casa. Tinha sido um dia longo, mas finalmente tinha conseguido obter o que tanto quisera. Olhou dentro do bolso: havia furtado, sim, aquilo era totalmente contra os seus princípios. Mas se tivesse pedido o teriam dado? Sabia que era totalmente contra a convenção, estava ainda em fase de estudo. Ninguém sabia muito o que fazer com a descoberta, mas ele sabia. Ah, tinha estudado, tinha pesquisado tanto! Nem acreditava que finalmente tinha encontrado. Com todo o cuidado, retirou de lá e pôs em cima da mesa. Apoiando suas mãos encobertas por luvas na madeira, contemplou a pequena planta. Que mistérios se escondiam ali? Quantas possibilidades se abriam para ele?

Segunda-feira, 23 de outubro. Era o segundo animal morto que ela encontrava na beira da estrada. Tinha parado rapidamente o carro no acostamento assim que viu o gato. Não tinha marcas de mordida, mas ele estava meio verde. “Que coisa esquisita!” pensou ela. “Tenho que tirar o pobre bichano daqui”. Correu de volta ao seu carro e pegou a caixa do sapato recém comprado: com o nariz tampado e usando suas luvas, acomodou o corpo. A prática de quem lidava com isso constantemente facilitou o processo, e em pouco tempo, ela já partia pro laboratório.

Mil pensamentos passavam por sua cabeça, dos mais óbvios aos mais devaneantes: teria aquele gato sido picado por uma cobra? Teria ele comido algum animal nocivo? Seria aquilo algum tipo de veneno? Será que alguém por ali estava querendo se livrar da população de gatos? Seria algum sacrifício? “Que horror!” pensou ela, quase batendo no carro da frente. Ouviu uma buzina, respirou fundo: não podia brigar hoje. Continuou seu caminho, seguindo em direção ao Departamento de Biologia.

Trancou o carro e entrou no prédio, segurando a caixa. Tinha que ser rápida: não podia encontrar ninguém conhecido, que a desviasse do caminho e perguntasse o que tanto tinha naquela caixa que ela segurava. Além disso, o mau cheiro já começava a se dissipar. Passando pela porta, trancou-se no laboratório. Felizmente não tinha ninguém naquela hora ali. Imaginou se tivesse uma pessoa ali, qual seria a desculpa que ela iria ter que inventar. Riu sozinha, “Com certeza diriam que sou louca”. E não seria ela louca? Quem teria parado para recolher uma amostra à beira do caminho? Quem teria trocado sapatos novos por aquilo? Que quase havia batido o carro pensando nas causas da morte do pequeno animal?

A passos largos, ele se encaminhou para a biblioteca. Iria visitar a seção de botânica, mais uma vez. Ali, se não fosse o ar condicionado que quebrava de quando em quando, seria um dos seus lugares favoritos. Tinha tudo ao alcance das mãos. Sorriu, pensando em tudo que ele tinha aprendido com aqueles livros. Os livros sim, eram os melhores amigos do homem. Te ensinavam, te acompanhavam em qualquer momento. Te faziam sentir em outro tempo, outra vida, quiçá. Te davam conselhos melhores que ninguém.

Melhor até que aquele professor maldito. Ele tinha ido procurar com tanta vontade, com tanto interesse. Quem tivesse ali no momento em que ele falava com o professor teria visto a paixão, o brilho nos olhos. Ele era um entusiasta, mas para o “educador” era apenas alguém que perdia tempo com plantas pequenas demais. “Temos que mirar alto, garoto. Pensar em como otimizar plantações, criadouro de animais. Talvez até juntar os dois. Plantas desse tipo realmente merecem nossa atenção?” Sua expressão mudava quando relembrava isso. Era como por o dedo na ferida. Raiva e rancor dominavam seu corpo magro, tinha vontade de bater em algo ou alguém. Mas claro, não iria fazer isso. Ele tinha outros meios para lidar com aquilo.

Ela examinava calmamente o resultado dos exames. “Tem alguma coisa errada aqui”, pensou. Os níveis toxicológicos não tinham dado altos, mas ela podia jurar que tinha sido algo a ver com veneno. Tinha enterrado o pequeno animal no dia anterior, então já não podia fazer mais exames. Suspirando, pensou que talvez tivesse se enganado e tudo não tinha passado de sua imaginação fértil demais. Talvez o gato (e o cachorro antes dele) tenham morrido por algum outro motivo, muito mais comum e sem tanto alarde.

Sem muito o que fazer aquela terça-feira a tarde, decidiu jogar as palavras-chaves num site de buscas da internet. Sem perceber, já estava na seção de ervas, e do poder delas. Teria sido bruxaria? Riu sozinha, pensando na sua ideia estúpida. Foi quando lembrou do orquidário, pertinho dali. A tempos devia um mini cacto a sua irmã, não custava nada ir lá dar um pulo (quem sabe até encontrava alguém e perguntava mais sobre como cuidar). Num movimento, levantou-se da cadeira e partiu rumo à agronomia.

Era fim de tarde e uma turma estava tendo aula, mas pelo pouca luz, percebia-se que eles não ficariam ali por muito tempo. Mesmo meio na penumbra, o lugar ainda era lindo. Ela sempre gostara dali, mesmo tendo visitado tão poucas vezes, para uma aluna da Biologia. Tentando se esquivar dos alunos, se dirigiu para o outro lado da estufa. Tinha algumas pessoas rodeando uma planta. Curiosa, tentou ver o que era. “Não sei o que aconteceu, no começo da semana ela tava linda, florida. Tinha várias flores, não era só essa não. Daí quando cheguei ontem, já tava assim, murchando” disse um dos meninos, preocupado. “Será que algum inseto entrou aqui? Ou alguém quebrou um galho, talvez” perguntou uma das bolsistas. “Muito estranho, temos que levar isso pro professor” falou um dos garotos. “Nãooo, a gente tem que lidar com isso sozinhos! Quer perder a bolsa?” falou o último da roda.

Tentando ouvir mais a conversa, ela chegava mais e mais perto daquele grupo, despretensiosamente. Fingia olhar pros pequenos​ cactos, as plantas de jardim e sem querer pôs a mão em uma flor de cor rosa, quando ouviu um grito: “Cuidado! Essa é perigosa! Ela causa uma coceira infernal, e outros coisas piores” falou um menino franzino, bem menor que ela. Engraçado, não lembrava de tê-lo visto ali. “Vá lavar as mãos, lá fora tem uma pia” disse o menino, em tom autoritário. “Não pensei que houvesse plantas perigosas por aqui — falou ela — tem tantos alunos que não sabem, podia causar um acidente, tipo o meu agora”. O menino olhou friamente para ela e falou “A culpa não é das plantas se você estava mexendo onde não devia”. Surpresa com a resposta, decidiu se retirar dali para lavar suas mãos. Que comentário grosso era aquele, sem nenhuma empatia. Enxugando as mãos na calça, voltou rapidamente pro mesmo lugar de antes, não iria deixar um comentário brusco daquele sem resposta. Olhou os quatro cantos do Orquidário, mas ele não estava mais lá. Foi perguntar ao pequeno grupo, mas ninguém o tinha visto. Já na saída, perguntou aos alunos da aula de Botânica se tinha visto um menino magro, ali pertinho deles, mas ninguém pareceu notar. O menino parecia ter evaporado.

Garota burra. As pessoas são muito burras, mal aguentava ficar perto delas. Tinha asco da sua estupidez. Achava incrível como, mesmo em uma universidade, ainda podia encontrar gente do tipo. Mas ele não queria perder tempo pensando nisso, tinha uma missão para realizar. Para que perder tempo com alguém que ele não veria mais?

“Isso tá ficando cada vez mais esquisito” pensou ela. Passando pelas mesas, chegou aonde eles tinham se encontrado. A planta de flor rosa não estava mais lá, nem havia rastro dela. Será que? Parando para pensar, ele talvez não tenha falado aquilo para proteger ela, e sim a planta. “Que babaca!” soltou ela em alta e bom som, o grupinho que cuidava dali até soltou umas risadinhas.

Já chegando em casa, recebe notificações no celular: “amiga, olha isso, tu que é da biologia deve saber haha”. Era no Fórum do Campus do Pici, terreno em que era quase persona-non-grata. Já tinha brigado tantas vezes por ali, mal conseguia entrar hoje em dia. Uma foto da comida de hoje: Frango com salada (e uma larvinha de bônus). “Eca! Todo dia um post nesse fórum de alguma coisa que encontram nessa comida”, pensou ela. O que chamou atenção foram as as pequenas coisas rosas que se encontravam ali naquele prato. Aonde tinha visto aquilo? Lhe era familiar, mas não lembrava de onde.