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por: João Everton

foto: Mayara Queiroz

Como exercício passado pela Dra. A.P., começo hoje a anotar os acontecimentos mais importantes do meu dia (na espera de um resultado positivo).

11h30. Na parada do ônibus interno do campus do Pici, espero quieto, ouvindo música feliz. Fones devidamente colocados. Demoro cerca de dez minutos até perceber os rostos que me observam. Dessa vez são poucos.

O ônibus não demora muito. Espero toda a massa de gente se derramar sobre a calçada e subo posicionando bem os cotovelos para não machucar quem vem atrás. Há poucos sinais de má educação nessa hora. Sento em um banco vazio, retiro um livro pesado da bolsa e tento me concentrar. Um estudante de pele escura, provavelmente de origem africana, senta ao meu lado. Sua pele fria e suada encosta na minha pele fria e suada. Penso em afastar para o lado mas tenho receio de interpretações alheias. Seguimos grudados.

Tento ler uma página (número 239) mas não consigo entender o que está escrito. Sinto o peso do olhar dos que estão a minha volta, como se duvidassem da minha leitura. O tempo passa e não viro a página. Eles se agitam. Com o canto dos olhos, percebo que o cara ao meu lado está lendo junto comigo. Tomara que não tenha nada sexual nessa página, penso. Continuo sem decifrar os códigos. Penso que estão me julgando por ser o único a ler numa distância tão curta. Estão certos.

Desço em frente ao novo R.U. (restaurante universitário) com alguma dificuldade. Não me esperaram descer para subir. Interpreto como má educação mas divido a culpa por ser naturalmente lento. Encontro rapidamente os amigos que me esperavam: Márcio, baixinho, óculos de lentes grossas, pele meio escura, e Yuri, forte, pele tipo a minha, com o celular nas mãos e um sorriso bonito (daqueles que dá gosto tirar fotos, diferente do meu).

- Olha só quem eu achei no Tinder, hoje — Yuri diz como se esperasse a minha cara de espanto.

Vejo a foto de um cara que estuda comigo e com Márcio (somos do mesmo curso), e que acreditávamos ser hétero. Sorrio com eles e compro o ticket do almoço enquanto Márcio se apressa para colocar uma ficha de “comida ruim” na caixinha da opção vegetariana. Para ele a comida do R.U. é sempre ruim, só um pouco melhor que os ovos mexidos da mãe (única coisa sem carne que ela sabe fazer.)

Sentamos na mesma mesa de sempre, no final da parte superior, canto esquerdo, e rimos de alguns memes que Yuri nos mostra. Primeiro um menino fazendo espacate em um programa de TV, depois umas meninas numa laje dançando ao som de música alternativa, claramente montagem, e por fim as tirinhas que andam fazendo da gangue dos cachorros do Pici. Os de “esquerda” os retratam como guerrilheiros que combatem a intolerância no campus e os de “direita”, como subversivos que atacam os estudantes e portanto merecem o exílio.

- Dizem que são os principais suspeitos dos crimes — comento num tom de ironia que disfarça a minha real empolgação.

O riso dura mais alguns segundos até que mudamos de assunto. Márcio fala sobre a semana infernal que está enfrentando ao tentar colocar as atividades de Programação II em dias. Observando seus olhos, um par de olheiras profundas acusando o martírio das últimas horas, tenho dois pensamentos repentinos, um triste e outro qualquer. O triste é que tenho medo de Márcio acabar tirando a própria vida em meio a tanto estresse da vida acadêmica. Essa já é a terceira ou quarta graduação que experimenta, ou melhor, que tenta suportar. O segundo é que a minha situação talvez não seja a pior de todas. E isso acaba me deixando mais triste ainda.

Márcio esvazia dois sachês de sal ao mesmo tempo em sua comida, tentando dar gosto à “torta de vegetais” que sempre me desperta interesse, mesmo que acabe indo no frango noventa e nove por cento das vezes. Enquanto Yuri ri da situação, penso que deveria tentar parar de comer carne, pelo menos até terminar a matéria sobre a morte dos cabritos (que chamo de crimes para soar mais sério.) Não me sinto bem em passar a tarde investigando o assunto e depois encher a barriga com risole de carne na cantina da Tia Jô (inclusive lá tem umas promoções muito boas de salgado + suco por três e cinquenta).

12h35. Antes de sairmos do restaurante, Márcio enche as mãos com fichas de “comida ruim” e coloca na caixinha da opção vegetariana (agora com mais propriedade). Não posso negar que o seu protesto silencioso me encanta. Vai que um dia os cozinheiros, ou seja lá quem prepara o cardápio do R.U., começam a se importar com a opinião dos estudantes sobre a qualidade das refeições.

Os carros nos esperam atravessar a faixa de pedestre, algo raro que só vejo aqui, e depois de uma sessão cansativa de abraços nos despedimos.

- Agora eu vou ter que ir andando até o bloco — diz Márcio antes de dar as costas — nessa lama toda, com um monte de carro passando do meu lado, tanto aluno quanto professor, fingindo que não me conhece pra não oferecer carona. Aí vou chegar atrasado na aula, soltar os cachorros em todo mundo e receber aplausos como se não estivesse falando com eles.

Yuri e eu rimos, mesmo sabendo que não tem graça nenhuma nisso. Quando Márcio volta a atravessar a rua (nem sei porque ele foi com a gente até o outro lado), Yuri reclama dos colegas de classe que terá de encontrar, todos héteros (a pior parte de ser gay na Computação, segundo ele) e some de vista. Sigo no caminho da Biblioteca Central para continuar a pesquisa sobre os cabritos. É para uma cadeira que estou fazendo no jornalismo.

12h50. Durante o trajeto até o setor de caprinos, encontro um menino que fiquei (só beijei, na verdade) no ano retrasado (um dos últimos que encostou em mim) e desviamos o olhar ao mesmo tempo. A gente deveria ter continuado amigo mas meu mecanismo de defesa sempre me obriga a desviar o olhar de todo mundo, como se a possibilidade de ficar no vácuo depois de um “oi” fosse me mandar direto para o inferno (quando o meu coração acelera, é como se o fogo começasse a me consumir de dentro pra fora).

Passo diante de um grupo de estudantes que sorriem enquanto um deles tira a foto de um carro estacionado indevidamente na vaga para pessoas com deficiência física. Me pergunto se eles sabem que agora o certo é chamar “pessoas com deficiência física” ao invés de “deficientes físicos” (pelo menos era assim da última vez que chequei), mas acredito que estejam mais interessados na postagem que farão logo mais no Fórum do Campus do Pici, um grupo no facebook para tratar de temas pertinentes ao campus (nem sempre… Quase nunca, na verdade).

13h20. Lamento ter chegado mais cedo, digo para o homem com quem marquei no Apiário. Comia na mesa junto de um servidor, ambos em silêncio, com alguns mosquitos (talvez abelhas pequenas) fazendo espirais por cima de suas cabeças. O servidor me olha por meio segundo, como se esperasse um cumprimento de minha parte, e volta a encarar o prato com uma leve expressão de abandono. É o primeiro que espera algo de mim. Acho estranho.

O que me esperava sorri usando a boca e os olhos ao mesmo tempo (dá para notar que é sociável) mas imagino se tratar de uma máscara que esconde uma camada de constrangimento ou mesmo de reprovação. Decido esperá-lo lá fora (eu sempre sei quando estou incomodando.) Aproveito para verificar as anotações que fiz nos dias anteriores.

Ontem, o rapaz do setor de caprinos me deu detalhes sobre as marcas encontradas nos cadáveres. Quase sempre a mesma, o que me deixa altamente tentado a descartar a hipótese da gangue dos cachorros. Como estudante ausente, nunca tive que fugir deles (ainda) mas conheço pessoas que até hoje tomam vacinas depois de terem sido mordidos por um de seus membros. Inclusive, acho lamentável que a gente tenha que conviver com medo desses animais mas não tenho coragem de comentar sobre isso abertamente, já que sofrer represálias é outra coisa capaz de me matar por dentro.

Leonardo, o cara do apiário, sai apressado da copa, ainda com as mãos molhadas, com vestígios de higienização recente, e me acompanha até o “quintal” onde são criadas as abelhas solitárias (me interesso por elas quase que instantaneamente). Ele me explica que o nome se deve ao fato de não viverem em comunidade, como as outras, e também por perderem a mãe antes mesmo do nascimento. Fico um pouco triste mas supero fácil com a vista ao redor. De repente me sinto fora do campus, mais precisamente no interior onde meu pai me levava na infância, antes de sentir vergonha de mim (conclusão simples e possivelmente equivocada. Talvez apague ou deixe para causar comoção — olha eu quebrando o clima de propósito!)

Leonardo me conta sobre os barulhos que ouve à noite, por volta das dez, quando está fechando as portas do departamento. Comenta sobre a possibilidade de haver uma espécie de chupa-cabra escondido nos matos e isso me faz soltar um riso educado, que serve de disfarce para a gargalhada que consigo reprimir a tempo, cravando a unha do polegar na ponta do indicador (a mesma tática que uso para não espirrar em público.)

15h30. Saio do Apiário às pressas para sentar em algum canto e organizar as ideias. Passo direto pela cantina da Pesca, ouvi dizer que as pessoas são assaltadas por aquelas bandas, e ando exaustivamente até a Tia Jô. Outro dia, em um muro pichado na faculdade de Educação, vi uma frase que dizia “Professora sim, tia não”. Fico me perguntando se dona de cantina pode ser chamada de “tia” e até quando.

Sento em uma mesa periférica e, ao fazer menção de pegar o caderno de anotações, percebo que a minha bolsa está completamente suja de algo que parece cal virgem, talvez das paredes mal pintadas do meu quarto ou das paradas de ônibus que frequento. Decido deixá-la embaixo da mesa para que ninguém note o meu desleixo.

Confiro se não está faltando nenhuma informação importante. Volto a rir da hipótese do chupa-cabra (enquanto torço secretamente para que essa seja a resposta do mistério) e grifo as partes que mais me interessam. Aparentemente já tenho tudo que preciso para fazer um bom trabalho e impressionar o professor da cadeira, um homem de meia idade que se veste com roupas elegantes e possui uma aliança no dedo de casar (o que não me impede de achar que ele me nota secretamente e morre de vontade de perguntar o título do livro que ando lendo desde o começo do mês. Se chama 2666, a propósito.)

15h55. Acabei comprando mais uma vez o salgado da promoção + suco (de manga). Adoro manga e isso me faz pensar em algo que acabei de aprender com Leonardo: sãos as moscas que polinizam as mangueiras. Acho irônico que um inseto tão odiado e asqueroso seja responsável por uma das coisas que mais gosto no mundo.

Ao dar o primeiro gole, me vem à cabeça o momento do almoço onde Yuri se recusou a pegar um segundo copo de suco no R.U. por achar antiético. Depois explicou que na verdade estava morrendo de medo de acabar parando no Fórum do Campus do Pici em uma dessas postagens-denúncias que vivem acontecendo (que eu sou de acordo mas fiz cara feia na hora como se achasse um exagero.)

Comi preocupado de estar sujando a barba e acabei gastando uma meia dúzia de guardanapos. Depois ouvi uma conversa na mesa ao lado, duas meninas muito parecidas (não consigo chamar as meninas de “minas” mas consigo usar o termo “cara” naturalmente) falando sobre o machismo nas turmas da Computação. Lembro do Yuri ter comentado alguma coisa sobre um professor ter discutido com uma aluna esses dias, por ter afirmado que mulher não sabe programar. Uma vez, uma colega de curso confrontou um professor que compartilha desse mesmo raciocínio, dizendo que se você não tem estatísticas que provem o que está dizendo, é melhor guardar a opinião para si mesmo. Achei fantástico mas fiquei na minha.

16h30. Termino de esboçar um pequeno roteiro que dará vida a minha primeira reportagem. Em um dos últimos tópicos digo que é bom manter distância afetiva do assunto, mesmo se tratando da morte de cabritos bebês, estirados no chão como que esmagados por um mundo cruel e opressor. Quanto menos drama, mais cara de texto de jornal.

Na verdade, enquanto definia a estrutura, pensei em mudar totalmente a vertente da investigação e falar da minha própria hipocrisia. De como me deixa bem saber que me importo com a morte dos cabritos enquanto encho a boca de carne de bicho que é criado única e exclusivamente para virar refeição. De como tenho disposição para escrever sobre as pobres criaturas atacadas na calada da noite enquanto todos estão em suas casas criando memes e rindo sem parar. Porque entretenimento é o que nos faz querer levantar no dia seguinte, não é mesmo?

Fico triste outra vez. Perco a vontade de tudo e penso seriamente em desistir da cadeira. Adoro dar passos para trás e ficar sentindo pena de mim mesmo depois.

16h37. Não sei no que esse diário vai dar. Na verdade, já estou começando a achar tudo isso um saco. Penso em desistir de tudo. E quando digo “tudo”, deixo aí uma brecha de mistério, para que talvez a Dra. (a única que vai ler isso daqui) se preocupe com o que se passa dentro da minha cabeça. Com a música cubana que eu escuto e ninguém mais sabe, mesmo que não faça a menor diferença. No fundo, nada faz.

Talvez eu devesse mencionar o chupa-cabra como algo plausível. Posso entrar no mato, com ajuda de Leonardo, e verificar se há pegadas no chão ou marcas nas árvores. Seria uma bela forma de chamar a atenção do professor ou até mesmo dos colegas de turma. Mas será que vale mesmo a pena? Fica o questionamento.

19h00. Estou decidido a fazer um poster “Cuidado! Chupa-cabra no Pici!” Já imagino até a fonte e a forma como vou desenhar a boca do animal, ameaçadora, como se estivesse prestes a devorar qualquer um que ouse cruzar seu caminho, enquanto seus olhos fervem em meio ao desejo (quase infantil) por sangue humano. Daria um bom conto, mas lembro que preciso escrever uma reportagem jornalística. Uma das poucas atividades que faço com gosto esse semestre. Seja como for, preciso parar de escrever bobagens e descobrir como se faz esse troço. Por hoje chega.