_Nóia

por: Matheus Silva

foto: Mayara Queiroz

Saiu do ICA já bem tarde após uma calourada interessante. A garrafa de vidro em sua mão continha uma mistura de líquidos que daria inveja a qualquer alquimista de nível grão mestre, uma fórmula poderosa o suficiente para apagar da memória os problemas do semestre. Estava acompanhada de outras duas amigas que prometeram que a levaria em segurança para a residência, em vão, pois todas ali já estavam mergulhadas em seus respectivos universos de imaginações. Seus sentidos já haviam ido embora a tempos: luz, som e álcool.

Riam alto de histórias antigas que nunca foram vividas, lembrando-se de detalhes que jamais aconteceram. Até que uma voz em sua mente a chamou. Em um pequeno segundo de lucidez se perguntou se aquilo seria culpa de sua “poção mágica”, o que de imediato se esqueceu, seguiu o sussurro que a chamava pelo nome, andando assim sem destino (suas amigas nem notaram). Como flashes que cegavam, foi despertando em várias etapas de sua jornada procurando a fonte da graciosa voz. Passando pelo RU novo, olhou um prédio grande ao fundo. Parecia uma caixa gigante fincada no meio de um monte de lama e nada, isso fez com que ela solta-se uma boa gargalhada de deboche acordando assim um grupo de cães que dormiam no frio chão de areia daquele local.

Sentiu como um toque em seu rosto, algo que agitava seu curto cabelo castanho e que mais uma vez lhe dizia para seguir em frente. Indo em direção ao orquidário, antes de chegar ao paraíso das plantas, fez uma pausa, pôs a mão na cabeça em um estado de desequilíbrio, vomitou naquele grande embarcação que fica parada naquela região, talvez seu corpo estivesse tentando reagir ao chamado, um sistema natural de autodefesa. Não se importou com a reclamação que seu corpo fizera, ela já não era material, só respondia aos comandos da voz em sua mente, seus sentidos já haviam saltado fora há muito tempo, como já dito em outrora. Continuou, chegando a um local que nunca tinha ido, parecia um interior distante da capital, com cabras e outros bichos. Ao passar pelos animais eles pareciam de certa forma falar com ela, estava chamando por algum nome, ignorou, já não fazia ideia de qual era o seu.

Chegou ao açude e esperou. Olhou as luzes dos prédios distantes que iluminavam as águas cinza daquele local, mato, árvores e lodo acompanhava ela nessa aventura. Seus pés já pediam por piedade ou um descanso merecido, ela já se entregara. Sentada a beira da famosa lagoa via seu reflexo na água, algo a chamava para dentro. Levantou-se e começou mais uma vez o processo que repetirá durante toda aquela noite, caminhar. Com a água na altura de seus quadris, ela vislumbrou um sentimento de solidão, o vento e a água eram impiedosamente frios. Já na altura de seus seios a falta de ar já lhe tirava mais um dos sentidos, mas não a incomodava. Afundou. Dizem que quando você está à beira da morte sua vida passa diante de seus olhos. Isso eu não sei dizer.