O coelho

por: Leslie Possidonio

foto: banco de imagens

Certo dia, em minhas andanças, ouvi falar da história de um coelho. Se passou algum tempo atrás, mas poderia ter sido hoje ou mesmo ser uma história futura. Pode também nunca nem ter acontecido. O fato é que havia um coelho. Vivia em algumas gaiolas com alguns outros de sua espécie, ali, numa estrada de terra separada dele por algumas cercas e bastante verde. Muitos contavam do que havia lá fora, algo sobre haverem outros tipos de animais mais abaixo e algum tipo de plantação amarela e seca mais acima. O que o coelho sabia era o que podia ver e ouvir dali: alguns objetos barulhentos e aparentemente pesados, que passavam em alta velocidade e alguns bichos de uma espécie diferente que volta e meia apareciam. Com aspectos longilíneos, umas várias vezes mais altos que os coelhos, falavam em língua diferente e se comportavam de forma estranha. Eram os humanos, lhe contaram. Alguns vinham retirar a sujeira, outros jogavam alguns alimentos e faziam anotações. Mas o coelho tinha toda a sua atenção voltada a um humano especial. Nunca entrava. Não chegava perto dali. Mas o via passar todas as vezes, ali de lado das gaiolas, indo e voltando, e esperava ansiosamente a próxima passagem. O coelho aprendera algumas coisas sobre os humanos, e descobriu que era uma mulher. Os cabelos negros caíam pelos ombros, a face redonda quase sempre estava protegida por um objeto que fazia sombra e a protegia. O corpo sempre coberto, para não sofrer ao sol. Os movimentos graciosos, rápidos e certeiros, atraíram o coelho de forma peculiar. Sonhava com o dia de poder vê-la mais de perto, quiça tocá-la. Foi num desses pensamentos, então, que decidiu fugir para encontrá-la. Sabia que a estrada era perigosa, ouvia berros e histórias de bichos que atacam outros bichos. Pediu conselhos a alguns dos mais sábios de seu povo. Alguns discordaram totalmente de suas ideias, outros, já conhecendo o feito ou não, pareciam encorajá-lo.

Alguns dias depois, com tudo planejado, o coelho dispôs da ajuda do coelho mais esperto dali, que ajudou-o a abrir sua gaiola e chegar à cerca. Era noite, ou o momento em que não haviam humanos ali. Não vira nada diferente dali, e sabia, mas não com certeza, que a partir daquela estrada, só havia riscos e desconhecido. Entretanto, destemido pelo amor, o coelho desceu às sombras para descobrir de onde vinha aquela mulher que o encantava. Seu destino era incerto, e as informações que almejava conseguir no caminho não deram muito certo: os bichos dali falavam outro idioma. Tentou comunicação com um, mas lhe responderam apenas “có”. Outro dizia “bé” e não soube muito bem para onde ir. Esperou o amanhecer vizinho aos bichos que falavam em bé, e acabou cochilando.

Ao despertar, pelo barulho ainda mais estrondoso daquele objeto barulhento que ouvia de sua gaiola, viu que já haviam muitos humanos por ali. Decidiu descer mais um pouco a estrada, e logo seu coração pode se acelerar: os cabelos negros estavam ali. Ele seguiu em sua direção, apaixonado, esperando ansioso pelo momento de chegar em sua frente e esperar que lhe tocasse. Como seria maravilhoso sentir seu cheiro, pensava enquanto se aproximava. O coelho, sem entender porque ela estava perto do chão, mudou um pouco seu caminho para enxergar o que acontecia ali. Todo o seu mundo, no entanto, desabou. Seu coração doía fortemente, de forma diferente de tudo que sentira antes. A mulher encontrava-se com um animal da língua bé em seus braços, visivelmente adorando-o, enquanto um homem conversava com ela e tocava seus cabelos. Duplamente traído e magoado, o coelho se afastou, decidido a não voltar à casa. Não viu quando um objeto dos grandes quase o tocou, quando um humano tentou pegá-lo. Não viu quando passou por um barco enorme, ou quando esbarrou em uma outra menina, também de cabelos negros, deitada na grama.

O que o coelho não sabia, porém, era que a mulher era pesquisadora dali, e tentava salvar um de seus cabritos que houvera sido atacado por um cachorro. O homem era seu parceiro de trabalho e a consolava, tirando seus cabelos dos olhos lacrimejados, decepcionados por perder aquela cria.