O colecionador de abelhas

por: Kathleen Porto

foto: Mayara Queiroz

Eu amo abelhinhas. A primeira vez que me lembro de ter tanto interesse nelas foi aos 17 anos, salvo engano. Estava chateado por causa de alguns problemas pessoais e decidi espairecer a cabeça indo passar um tempo numa praça perto de casa. Parecia que nada mais na vida faria sentido para mim quando comecei a notá-las. Foi impressionante observar a alegria que elas possuíam, uma delicadeza que deixava o ambiente muito mais belo. Elas me contagiaram de uma forma que eu não soube como explicar.

A partir daquele dia eu não parei mais de observá-las. A euforia que me causavam era tamanha que um dia sem vê-las deixava meu humor alterado. Além da praça, em que eu as notei pela primeira vez, comecei a procurar em outros lugares. Foi assim que percebi que os ambientes abertos eram os melhores, a felicidade que minhas abelhinhas demonstravam nesses espaços era sempre maior e mais contagiante.

Porém, quando fui aprovado em um curso de engenharia na universidade federal, meu tempo começou a ser consumido por trabalhos e provas, dia após dia, mês após mês. Já não era mais possível passar horas sorrindo com minhas abelhinhas. A vida voltou a não fazer mais sentido e eu, que sempre fui um estudante exemplar, aquele que os pais sentem orgulho, os professores elogiam e oferecem bolsas e os outros alunos não compreendem ou sentem inveja, comecei a tirar várias notas péssimas e meu índice de rendimento acadêmico foi caindo.

Mas a vida tem seus momentos altos e baixos e, em um momento de profunda tristeza, decidi caminhar pelo campus onde estudava, espairecendo a mente por caminhos que não conhecia, na tentativa de achar algum local que pudesse ficar sozinho. Até que comecei a escutar o barulho. Não um barulho qualquer mas aquele que eu ouvia na praça e em outros lugares abertos. O som da alegria. Aquele que indicava que eu estava perto das minhas adoráveis abelhinhas. Andei até encontrar a fonte do barulho e meu frenesi estava de volta. Que lugar mais adorável eu havia encontrado. O vento corria solto, a paisagem era linda (principalmente naquele horário de 16h30), e a felicidade delas era mais que perceptível. Agora era possível conciliar os estudos com a observação das minhas criaturas, já que o ambiente era relativamente perto do Centro de Tecnologia, local onde eu estudava. Tudo havia voltado ao normal.

Infelizmente, não havia. Vê-las em ambiente tão próximo fez com que a vontade de apenas observá-las não fosse suficiente para mim. Eu precisava tê-las. Guardá-las junto a mim. Cuidar de cada uma delas de uma maneira que ninguém mais conseguiria.

Comecei, então, a elaborar vários planos até conseguir coragem suficiente para executar aquele que pareceu mais promissor. Em primeiro lugar, eu não poderia levar comigo as que encontrei no campus. Não nesse primeiro momento. Não sem saber se o plano realmente daria certo. As que encontrei na praça seriam mais fáceis. As pessoas que fazem caminhada ou outros exercícios e até os pedintes ajudariam a disfarçar uma movimentação “diferente”.

Outro ponto a ser pensado era onde eu as guardaria. Na minha casa seria impossível. Muitas pessoas para reclamar da situação. Não daria certo e o próprio ambiente não seria agradável para as abelhinhas. Tinha que ser um local aberto. Foi nesse momento que comecei a pensar em abrigá-las no próprio campus. Um local em que eu estaria pelos próximos anos, arborizado e agradável, além de ter seus espaços silenciosos e com pouco movimento. Seria perfeito.

Chegando o tão aguardado dia, tudo foi muito simples e fácil. Levei a minha abelhinha da praça até o espaço que havia escolhido dentro do campus sem qualquer problema. Como esperado, certos trechos da universidade não possuem tanto movimento, principalmente durante alguns períodos do dia, e as árvores e matos ajudam a despistar. Mesmo assim, se algum curioso aparecesse, já havia pensado nas histórias que iria inventar para me livrar da pessoa. Porém, um problema que não havia pensado surgiu: minha abelhinha começou a fazer um barulho diferente daquele que tanto me deixava feliz. Parecia que ela não queria estar comigo, parecia que eu a deixava infeliz de alguma maneira que eu não conseguia compreender. E esse novo barulho começou a me deixar atordoado, confuso e, por fim, chateado. Eu havia planejado tudo tão bem, havia feito tudo isso por ela, para que fosse feliz comigo, iria tratá-la como ela merecia e era isso que eu recebia em troca? Foi então que perdi a paciência, peguei o primeiro objeto que vi e a atingi com força. Ela ficou inerte. Fique bastante assustado e a única coisa que fiz foi esconder a abelhinha embaixo de alguns galhos e folhas secas, além de fugir dali o mais depressa possível.

Os dias se passaram e fiquei bastante abalado. Um sentimento dúbio. Uma mistura de raiva, pelo meu objeto de maior apreço não ter gostado de estar comigo, e tristeza, pelo que eu tive que fazer com ela. Mas isso não poderia ficar dessa forma. Meu desejo em ter as abelhinhas perto de mim foi maior. Eu precisava tentar novamente. Talvez tivesse sido algum problema no plano, eu não havia convencido minha criatura de que a amava verdadeiramente. Algum problema havia acontecido e resolvi fazer tudo novamente mudando algumas pequenas partes do plano. O resultado foi o mesmo.

Mas eu não desisti. E percebi que não desistiria jamais. Iria convencer meus amores de que o lugar delas era junto a mim. Mesmo se fosse necessário perder algumas durante o processo. A questão agora era saber o que eu faria com os corpos. E o caminho mais fácil seria deixá-las expostas, pois abelhinhas só duram quatro semanas, aproximadamente.

EXCLUSIVO: Mais uma criança foi encontrada no campus do Pici, da Universidade Federal do Ceará. O 24° corpo foi encontrado no mesmo centro que os anteriores, Ciências Agrárias — Setor de Apicultura, e teve a mesma causa de morte…