Tão bonito o rosto…

por: Mayara Queiroz

foto: Mayara Queiroz

O relógio marcava quinze pras doze quando Olívia saiu da aula de Cibercultura, no Centro de Humanidades II em direção ao Centro de Humanidades I. Apressada, ela tentava pegar o intercampi de meio dia, visto que ainda precisava almoçar antes de ir pra aula de Fotografia Básica que começava às catorze horas, no ICA. Olhou para o elevador e, como de costume, estava com defeito. Desceu as escadas correndo. No térreo, em frente a torrinha, seu celular se conectava automaticamente ao Wi-Fi do Pet — História. As notificações pipocavam. Ignorou.

Olívia estava no terceiro semestre do curso de Jornalismo, depois de ter iniciado outras duas graduações e desistido na metade. Justificava sua inconstância e mudanças repentinas com astrologia: “deve ser o sol em sagitário, rs”. O ascendente em peixes lhe conferia muitos sonhos. Entre eles, o de ter uma coluna no Folha de São Paulo.

Atravessou a Avenida da Universidade.

Em frente à Casa de Cultura Britânica, viu o Vicente, um boy “bem bonzim” que ela conheceu no Tinder e conversou algumas vezes. Baixou a cabeça fingindo olhar pro celular e apressou o passo.

Espero que ele não tenha me visto, pensou.

Passou pela banquinha do Rui, pensou em comprar um café, mas não daria tempo, faltava só três minutos para meio dia. Apressou ainda mais o passo, quase correndo. O intercampi já tava pra sair, mas o guardinha que tava na guarita viu Olívia correndo e deu o toque pro motorista esperar.

Valeu! Disse ela pro guardinha enquanto corria.

O motorista deu partida. O ônibus tava tão lotado que nem precisava se segurar nas barras para não cair. Olívia se equilibrava entre os corpos, exaustos e apáticos, enquanto segurava em uma mão uma bolsa pequena e, na outra, dois livros: um sobre cibercultura, do Pierre Lévy e “Copacabana Dreams” da escritora cearense Natércia Pontes.

Quer que eu segure? — Perguntou uma moça

Oi? Desculpa, não ouvi, tava de fone

Quer que eu segure teus livros?

Ah sim, por favor!!!

Que sapona… — Pensou Olívia

Pôs os fones de volta, tocava Marília Mendonça “E agora de quem é a culpa? A culpa é sua por ter esse sorriso… ou a culpa é minha por me apaixonar por ele?”, tentou pescar na memória uma história do passado, mas ela não estava mais lá. Acompanhava o percurso com os olhos fixos na janela, era uma tarde tão bonita que o sol sequer incomodava, fechou os olhos enquanto um raio solar incidia sobre a pele do seu rosto, quando os abriu, já estava em frente ao açude do Campus do Pici.

– Será que vai virar? — Este pensamento sempre lhe ocorria ao passar por esse local

Desceu na biblioteca central, devolveu o livro do Pierri Lévy, pagou dois reais e quinze centavos de multa, seguiu em direção ao Restaurante Universitário, a fila fazia uma curva que fez Olívia se questionar se o Justin Bieber tava dando uma palhinha lá dentro. Imaginou ele tocando triângulo e cantando Luiz Gonzaga e, entre um música e outra, dando um gole no suco de “aguacaxi”. Riu sozinha. Era quarta-feira, dia de feijoada, a fila se assemelhava à da Caixa Econômica em começo de mês.

Optou pelo filé de frango.

Enquanto comia, observava as pessoas. Na mesa ao lado, um grupo de estudantes de Engenharia Mecânica tiravam sarro dos estudantes de Engenharia Ambiental, desdenhosamente os chamando de “os verdinhos”. Olívia revirou os olhos em trezentos e sessenta graus. Satisfeita, saiu do refeitório e pôs na caixinha de avaliação uma fichinha de “bom”, comprou um dindin de ninho com óreo e caminhou para o ICA, o relógio ainda marcava 13:25, dava tempo descansar enquanto a aula não começava. Abriu o livro da Natércia no seu conto favorito que, de tanto ler, a brochura parecia ter naturalmente marcado, de modo que ela sempre acabava abrindo na mesma história: Cine Roxy. Leu metade, já sabia aquele conto de cor e salteado, folheou. Entre as páginas, um cartão com a dedicatória de Rômulo, escrita na mesa do Birosca em dezembro de 2016, mas que devido ao efeito do álcool ele datou como dezembro de 2017, folheou.

– Pisa menos, Natércia, eu te imploro! Pensou Olívia ao ler um microconto que pegava bem menos que um terço da página.

Ao passar das páginas, de repente, encontrou uma folha de guardanapo bem dobradinha, digno de um virginiano com ascendente em virgem e lua em… virgem. Com o mesmo suposto cuidado da pessoa que dobrou, Olívia abriu. No centro do papel, bem centralizado e em caneta azul, uma mensagem:

“Tu tem uma luz muito bonita! 🌞

Deu um sorriso que foi interrompido pela curiosidade de saber quem foi. Afora a menina que segurou os livros no intercampi, Olívia não cogitava mais ninguém. O segundo sorriso veio imediatamente. Guardou o bilhete no bolso da calça e foi pra sala, laboratório de fotografia IL 101. Abertura da lente, foco, tempo de captura, iluminação. ILUMINAÇÃO. Luz, luz muito bonita, bilhete, menina do intercampi. A história se desdobrava, na cabeça da aspirante à jornalista, em milhões de possibilidades. Queria chegar em casa pra fazer uma busca minuciosa no Facebook.

Olívia de Holanda > Fórum Campus do Pici

Oi gente,

Hoje eu peguei o intercampi sentido pici e uma menina segurou meus livros. Ela é branca, usava uma calça jeans azul escura e a camiseta dos encontros universitários. Tava com uma bolsa marrom que tinha um botton de um cara dançando no ar. Preciso muito encontrar ela, alguém tem ideia?

5 Comentários

Olívia de Holanda: Ah! Ela tinha a cabeça um pouco raspada na lateral, undercult eu acho

Jorge Queiroz: Não sei, mas acho que o botton é do Fred Asteire :p

Matheus Dimacêdo: Lesbianisses… ¬¬ Deus fez o homem para a mulher

Olívia de Holanda: Anotado, more

Clarisse Arrais: @Camila Veloso, amiga???? tu???? aaaaaaaaaaa

Antônio Prata: eeeeeeita, amiga

Clicou na @Camila Veloso. Era ela mesma.

– AAAAAAAAAAAAAAA tão bonito o rosto — Pensou

Foi rolando o feed, a menina do intercampi curtia Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Rubel etc. Clicou em “Adicionar aos Amigos” e foi assistir Gilmore Girls pra não ficar ansiosa. Torcia sempre pra Rory largar aqueles “boys lixo” e ficar com a Paris, mesmo ela sendo um porre.

“Camila Veloso acabou de aceitar sua solicitação de amizade”

Recebeu a notificação no celular e ficou tão eufórica que mal conseguia digitar a senha de desbloqueio da tela. Respirou fundo, pensou se puxava o assunto ou esperava ela puxar.

– Vou esperar um tempo — Pensou com receio de parecer muito desesperada

“Camila Veloso convidou você para o evento Fora Dilma, Fora Lula, Fora PT!!!”

Incrédula, Olívia visitou o perfil da crush mais uma vez. De cara, um post sobre o caso do cara que tentou furtar a bicicleta do rapaz e este tatuou “Eu sou ladrão e vacilão” na testa do rapaz como forma de punição. No post, a seguinte legenda: “Justiça com as próprias mãos!!! Tá com pena??? Leva pra casa!”.

Olívia respirou fundo mais uma vez. Pensou:

– Tão bonito o rosto. O rosto.

Abriu o Whatssap

– Oi Vicente, sumido rs tudo bem? rsss.