A Boleia

Acendeu um fósforo. A ignição criou pequenas labaredas que rompiam a pele vermelha da cabeça e se juntaram até uma chama estável, queimando o palito de madeira. Deixou-o arder devagar até aos dedos.

- Vamos.

O outro atravessou a nuvem fina de poeira que ainda envolvia o carro e abriu a bagageira, sem o ajudar a arrumar a mochila desbotada de quilómetros, vazia do pouco que trouxe. Nada lá dentro tinha grande utilidade ou valor, era apenas a soma da sua vida. 
Ele também tinha perdido a cor. Estava há horas à espera naquela estação, que não era como a tinha imaginado: mais fria, mais silenciosa, menos acolhedora, mas não se pode esperar conforto em sítios de passagem. O motor corria, num tom grave e rouco.
Quando abriu a porta do lado do pendura, o condutor disse-lhe:

- Não podes fumar no carro.

Os estofos estavam gastos e manchados. Os tapetes já tinham visto melhores dias e estavam cobertos por uma areia fina. O tablier estava estalado junto aos encaixes e parecia quebradiço de anos ao sol. Apontou para o pinheirinho pendurado no espelho retrovisor — que já devia ter sido verde e libertado uma qualquer fragrância refrescante — e disse:

- Isso não resolve o problema?

O condutor arrancou o pinheiro fora de prazo e atirou-o pela janela.

- Não. Entra, estás atrasado.

Ele deu mais duas passas no cigarro, como se fossem as últimas durante muito tempo. Expirou todo o ar que tinha dentro de si, até as paredes do estômago se colarem uma à outra, e sentou-se. Antes de fechar a porta, já estavam em movimento.

Não esperava uma recepção calorosa, o que era natural tendo em conta as circunstâncias. Estava ali fora de tempo, inesperado. Era difícil explicar a sua presença e não tinha vontade nenhuma em fazê-lo. Já era uma sorte ter alguém que o fosse buscar, pelo que decidiu conformar-se à situação.

Seguiram por uma estrada de acesso à via rápida, pouco congestionada. Nos outros carros, os condutores iam sozinhos, ou seguiam também com apenas mais uma pessoa. De qualquer forma, pareciam todos ir em silêncio, como se a viagem servisse para calcular o peso do destino que os aguardava a todos. Para ele era um exercício fútil, a viagem serve para ser feita e quando for altura de chegar, chegamos. E nem o momento da partida ou o percurso estão nas nossas mãos.

Antes de chegarem às portagens, o condutor cortou para uma estrada estreita e irregular, que passaria despercebida a quem fosse mais rápido do que eles. Nem direito a um caminho directo tinha, era contrabando a ser passado por estradas secundárias. O condutor disse:

- Por aqui é mais rápido. A vista não é grande coisa, mas não acho que te faça diferença.

Ele não percebia como é que uma estrada de campo poderia ser mais veloz e menos pitoresca, mas não levantou nenhuma objecção. É condição de quem vai à boleia sujeitar-se às decisões de quem os conduz. Para o bem e para o mal.

A estrada era um pedaço de alcatrão sinuoso cheio de remendos, que separava campos de cultivo submissos à geometria do arado. Apesar das linhas rectas bem desenhadas paralelamente à estrada, as ervas não pareciam ter o vigor necessário para dar uma boa colheita. Os caules oscilavam até ao limiar da fractura, submissos à força invisível do vento.

O condutor não se desviava de um buraco que fosse. Não lhes ligava nenhuma, nem desacelerava quando se aproximava de um. Não percebia se era falta de respeito pela estrada, pelo veículo ou pela carga. O carro também já tinha visto melhores dias, fazendo um barulho de moedas soltas a cada impacto, e o motor chiava. O seu parco conhecimento de mecânica dizia-lhe que era correia a dar as últimas. 
Estava a levar uma sova interminável, cada irregularidade no piso traduzia-se num choque pela espinha acima, que se repetia consecutivamente, em graus sísmicos varáveis, a cada centímetro da viagem. As mãos do outro vibravam juntamente com o volante, mas ele parecia não ligar. Estava mais gordo e já não usava o cabelo curto. Tinha uma cicatriz recente, que perdia profundidade e largura à medida que descia do meio da bochecha ao queixo, até desaparecer nos pelos curtos da barba. Onde é que ele tinha feito aquilo? Num acidente? Numa luta? Era a única marca que tinha? As pequenas mudanças estavam lá, nas brancas que se multiplicavam pelo cabelo e pela barba, na textura irregular da pele. Não sabia se o olhar tinha mudado. Até agora, o condutor mal o tinha encarado, sem esconder a má vontade em estar ali. Tinha os olhos presos ao caminho, cada vez mais irregular e cheio de curvas por entre àrvores de ramos perigosamente baixos.

E ele próprio? Até que ponto estava mudado, até que ponto os seus olhos estavam diferentes? Mais frios, mais distantes, mais vazios? Um olhar de tubarão, pupilas fixas e dilatadas? O que viu no espelho retrovisor não chegou para nenhuma conclusão. Mas viu que, atrás deles, a paisagem desfazia-se em poeira, como se tivesse existido apenas para a sua passagem e depois disso não tivesse mais utilidade, destruída finalmente pelo vento que os perseguia.

O condutor passou a mão pelo cabelo, um gesto novo de que não se lembrava, talvez porque estava agora mais comprido do que antes. De todos teve que ser ele a vir buscá-lo. Não era porque não gostasse dele, mas há anos que não o via e, mesmo quando partira, não houve nenhum tipo de despedida. Não estava à espera que a conversa fluísse como se estivessem estados juntos no café no dia anterior, mas também não previra que lhe tivesse calhado a ele esta tarefa. Eram os mesmos, mas eram outros. Só não sabia até que ponto. Perguntou-lhe:

- Como é que estás?

O condutor coçou a sobrancelha com a unha do polegar, outro gesto de que não se lembrava nele, mas que era de alguém. Era um movimento reflexo, de quem está preocupado com alguma coisa. Seria a pergunta ou a resposta que o incomodavam mais?

O condutor acelerou, cortando a curva. Se viesse alguém em sentido contrário o choque teria sido tremendo: imaginou o momento antes do embate, o reflexo das nuvens no párabrisas do outro veículo a transformarem-se na cara do condutor a passar da surpresa ao desespero, de olhos bem abertos até se estilhaçarem num abraço sonoro de chapa com chapa. Os seus corpos continuariam em frente, presos aos cintos de segurança que lhes comprimiriam costelas, pulmões e coração, os braços e as pernas desarticulados num gesto explosivo de fuga ao torso até lhes sairem os sapatos. Todos os objectos dentro do habitáculo, até então enganadoramente inertes, ganhariam trajectórias violentas, ricocheteando contra os bancos e o tablier, perfurando carne, estofos, vidro, os próprios olhos a querer sair das órbitas. Tecidos moles seriam reduzidos a polpa; ossos, a fragmentos. Quem visse de fora, acharia brusca a transição do movimento à colisão, mas eles, lá dentro, viveriam devagar todas as subtilezas das ondas de choque, despertando — se tivessem sorte — em gritos de agonia. Mas, até então, não se tinham cruzado com ninguém, e ele tinha a certeza que seria assim até ao fim da viagem.

- Como é que achas que estou? — disse o condutor. — Vens um bocado tarde para me perguntar isso.

Se há lógica imparável é a do tempo que, por mais que o curvemos na lente da memória, continua recto em direcção ao ponto de fuga. Era tarde demais. Pensou onde é que estava marcada essa linha de fronteira negociada entre o tempo e a distância entre as pessoas. Quando e onde se estabelece o ponto de não retorno na trajectória de cada um em relação ao outro? E o que acontece quando se reencontram: qual a magnitude do impacto e quem sofre mais com ele — o que chega ou o que espera? Neste momento sentia-se a arder na órbita do condutor, que continuava a ignorá-lo tal como ignorava o motor prestes a gripar, as peças à solta pelo chassis e os buracos na estrada, apenas interessado em levá-lo ao destino sem grandes complicações, demoras ou debate.

Sempre fora atraído para coisas maiores do que ele que, invariavelmente, o repeliam com mais violência para uma nova direcção, ou o consumiam até às cinzas: trabalho, amigos, mulheres. Especialmente mulheres. Nunca soube ser ele o centro das paixões mas o seu satélite, até perceber que elas próprias giravam à volta de algo maior do que ele, mais brilhante, mais quente, mais satisfatório. Não se lembrava de ninguém que lhe fosse sentir a falta e, desde que tinha entrado no carro, lembrava-se cada vez menos das pessoas que conhecera. Também não acreditava que essas pessoas se teriam dado ao trabalho de se despedir dele, se soubessem que tinha partido. Não era saudosista, mas gostava de ter deixado saudades. Agora que estava a caminho, temia a recepção. E, pela amostra que tinha tido até agora, não prometia ser boa.

- E os outros? alguma novidade?

Um sorriso nasceu na boca do condutor, o que fez destacar a pele branca e lisa da cicatriz por entre os pelos da barba. Ele disse:

- Estão como estavam da última vez que os viste. Talvez melhor. Não é muito diferente.

- Isso não é lá muito bom. 
O sorriso pronto deixara-o pouco à vontade.

- Tens medo? Sempre pensei que toda essa cagança te servia para alguma coisa.

Não era medo, porque o medo agora era inútil, e já não havia cagança que lhe sobrasse.

- Não estou à espera que me recebam de braços abertos, mas qual é a pior coisa que me podem fazer? Chamarem-me nomes? Linchar-me? Pegar-me fogo? Cortar-me as mãos e os pés para que não fuja?

- Podiam cortar-te a língua. Falas demais.

A cicatriz sorria-lhe. 
 
Qualquer viagem tem a sua dose de entusiasmo, nem que seja pela imposição do movimento, ou pela noção de escala que nos dá, e revela a nossa insignificância perante a dimensão do mundo. A noção dessa pequenez aumentava a cada quilómetro que desaparecia entre eles e o destino, e nada sobrava do entusiasmo inicial. Queria fumar, mas tinha aceite as regras, e limitou-se a passar repetidamente com o polegar sobre os fósforos guardados no bolso das calças.

Entraram numa zona de nevoeiro. A partir da berma da estrada não se viam mais os campos, se é que ainda existiam. Era uma câmara cinzenta, volúvel, opressora. Quis voltar para trás, mas não saberia como o fazer. Esta viagem atroz era mais um evento numa longa sequência de causas aparentemente inócuas e consequências surpreendentemente graves, numa mecânica imprevisível que nos move sem que consigamos perceber como chegámos ao ponto onde estamos, e que raramente é o nosso objectivo. Passamos mais tempo a olhar para o nevoeiro, a fazer de conta que é a paisagem, do que para a estrada. Não há mal nenhum nisso, mas é natural que não nos lembremos como é que chegámos ali. É essa a natureza do destino — interpretamo-lo como inevitável, mesmo que nada esteja pré-estabelecido. É o resultado do nosso caminho, com todos os desvios que somos obrigados a fazer.

Ajeitou-se no assento à procura de uma melhor posição. Tinha as pernas dormentes. As peças de metal continuavam a chocalhar ao longo do chassis que já era uma extensão de si mesmo. Soltavam-se das partes a que pertenciam, criavam folgas nas juntas, fazendo com que o conjunto cedesse, pouco a pouco. Estavam a colapsar. O condutor continuava a guiar de forma maníaca mesmo sem visibilidade, sabendo como negociar as curvas, sem estar preocupado com qualquer obstáculo no caminho.

Os dedos brincavam com o manípulo da porta, levantando-o e deixando-o escapar sob o efeito da mola. Nem sempre isso acontecia e ele tinha que colocá-lo na posição original. Estar sentado direito no lugar do pendura ou ir de porta aberta com a cara a cinco centímetros da estrada àquela velocidade era igual. Fora assim a vida toda, no limiar de se desfazer no asfalto. Quebrar ou vergar, é a única escolha que temos, quebrar ou vergar.

- Leva-me de volta.

O carro derrapou ligeiramente. Pela primeira vez, a máquina fugiu ao controlo das mãos bem assentes no volante.

Repetiu:
- Leva-me de volta.

- O quê?

- Vira esta merda, não quero ir mais longe do que isto. Quero voltar para trás.

- Mas és estúpido? Está toda a gente à tua espera. Sabes perfeitamente…

- Leva-me. De. Volta.

- Não.

Agarrou-se ao volante, obrigando o carro curvar. O condutor assentou o pé no travão e resvalaram ao longo da estrada. Tudo em volta era de um cinzento claro que se mantinha imóvel apesar da força centrífuga que os atirava para o lado direito do veículo. As rodas giravam sem conseguirem agarrar a estrada muito perto da berma. Não sabia se para lá do limiar era ainda um campo ou o abismo, mas não lhe interessava. O condutor empurrou-o e tentou recuperar o controlo, guinando para o lado oposto, o que fez o carro derrapar de traseira e bater contra uma árvore debruçada sobre a estrada. A pancada não tinha sido forte, mas foi o suficiente para fazer morrer o motor — uma morte mais digna do que a pieira e a esclerose que lhe atacavam o fraco coração.

Estava combalido mas inteiro. Tinha batido com a cabeça no vidro da porta do seu lado, sem grandes consequências. Não tinha cortes nem deveria ficar com um alto. O despiste não foi em câmara lenta como tinha imaginado antes. Os sapatos ainda lhe estavam nos pés.

O condutor passava a mão pelas narinas, à espera de sangue que não vinha. Fez isto duas ou três vezes e saiu do carro, em silêncio.

As chaves estavam na ignição, podia assumir o controlo e dar meia volta. Era fácil, era contra o combinado, era egoísta. Quebrar ou vergar. Ficou um bocado a olhar para elas, a tilintar num balanço suave, como um espanta-espíritos abandonado ao vento.
 
Saiu também para o ar frio e silencioso, de mãos nos bolsos. Apreciou as texturas do piso, à procura de padrões onde a ordem não existia. Pouco se via da estrada, atrás e para a frente deles. Da maneira como o carro estava, havia o risco de serem abalroados. Mas depois lembrou-se que aquele caminho não era de mais ninguém senão deles. Estavam numa pequena ilha de claridade, no meio de uma camada espessa de cinzento que não só escondia o mundo para além das suas margens, como também o redefinia. Aproximou-se do condutor, que estava encostado ao carro a fumar, uma última novidade, e disse:

- Desculpa.

O outro produziu mais ar cinzento com a boca, numa exalação comprida.

- Não te preocupes. É normal.

Sentou-se no chão junto à berma e acendeu um cigarro também. Podia fazer como os mergulhadores, e deixar-se cair de costas para o abismo, mas tinha as mesmas hipóteses de só fazer figura de parvo por rebolar para o meio das ervas. Desistiu da ideia.

A mossa que a árvore fez na carroceria não era grande, e não se destacava das outras, mais antigas. Era um carro batido, como eles, um com a sua cicatriz, o outro com as suas queimaduras de tantas órbitas demasiado próximas.
Queria falar, mas não sabia o que lhe dizer. Tinha sido tudo um erro, um engano, mas também, o que não o é? O seu maior defeito sempre fora ter demasiadas certezas. Não valia a pena espernear.

-Tens que aceitar.

Talvez tivesse estado a pensar em voz alta este tempo todo. Mas tinha quase a certeza que não. O condutor continuou:

- Eu não estou feliz por te ter aqui. Se pudesse, tinha-te deixado pendurado na plataforma, mas ninguém merece ficar à espera indefinidamente. Nada custa tanto como esperar. E tu virias na mesma, comigo ou não.

- Eu não queria vir.

- Ninguém quer.

Não insistiu. Estava a ser um queixinhas, outro dos seus piores defeitos. Por outro lado, era assim que se lembrava do outro: pragmático, de poucas palavras que só aplicava para dizer o que pensava. Não se lembrava porque é que tinham perdido o contacto, como é que os anos se tinham metido entre eles. Não se lembrava onde tinha tudo começado também.

Olhou para os dois lados da estrada: a sua ilha de claridade começava a ficar cada vez mais pequena.

- Temos de ir. Estão à tua espera.

Levantou-se da superfície quase lunar da estrada, e caminhou para o carro. Passou com a mão pelo capot, que estava frio como se nunca tivesse tido um motor por debaixo.

O condutor ligou a ignição, e a chiadeira recomeçou. Ele disse:

- Tens que ver da correia.

- Eu sei. — respondeu o outro, como se realmente fosse algo de importante a resolver.

E arrancaram. O nevoeiro parecia ainda mais espesso, mas isso não impediu de seguirem a alta velocidade pelo caminho invisível, que pareciam já saber de cor. Não há outra maneira de viver, pensou. Mesmo que nos dêem um mapa não sabemos o que vamos encontrar pela frente. Só podemos acelerar e virar para o lado certo o maior número de vezes. A experiência ensina-nos quando.

Sentiu os pêlos nas costas das mãos eriçarem-se. Até agora não tinha sentido frio. Na realidade, até agora não tinha sentido quase nada. Talvez estivesse um pouco agoniado, mas achou que era normal. Era um momento importante para ele, e ficava sempre nervoso antes das grandes ocasiões. Ao lado, o condutor guiava com uma mão, a cabeça apoiada na outra, como se estivesse a pensar nas restantes tarefas programadas para esse dia. Reparou como ele estava velho, mais do que no início da viagem que, por ele, podia estar a durar há anos. A ausência de visibilidade sobre o que ficou para trás tinha-lhe retirado toda a capacidade de avaliar quanto caminho tinha sido percorrido.

- Estamos a chegar.

Uma mancha luminosa rasgava o túnel cinzento que os envolvia e ele reconheceu a paisagem que, progressivamente, ganhava contornos e movimento: primeiro viu a ponte, depois o recorte das casas sobre o mar, as chaminés das fábricas a dissolverem-se em nuvens — a fabricar nevoeiro, certamente.

Colocou a mão no ombro do condutor e disse:

- Obrigado.

O outro assentiu com a cabeça.

Respirou fundo. Estavam à sua espera. À superfície do corpo nasciam sulcos e veios de pele lisa. O sangue estagnava nos capilares, desenhando linhas escuras — o mapa do que tinha sido até esse dia, e que mais ninguém conseguiria ler. Era um artefacto de quem fora. E as palavras que sempre lhe sobraram ao longo da vida apodreciam agora à superfície da língua. Talvez o outro tivesse razão, e lha cortassem.