Hasta la victoria
O Che era pobre? Fidel por acaso é preto? Que história é essa que a revolução é feita só por preto e pobre?
I
Marcão chegou atrasado, pra variar. Fosse uma reunião, fosse uma assembleia, Marcão nunca conseguia chegar na hora. Sempre a mesma reclamação: A revolução não se faz sem disciplina, companheiro Marcos! Sempre as mesmas desculpas: Foi mal, companheiro. Você sabe que eu tenho batalhado para vencer minhas fraquezas pequeno-burguesas.
Mas, daquela vez, Marcão havia pisado mesmo na bola. Era o dia 28 de setembro de 1983. Dia nacional de luta da comunidade universitária, em que a UNE havia convocado manifestações em todo o país. O clima político estava tenso e os militares avisaram que não iam tolerar provocações. Durante toda a semana, os aviões da FAB tinham dado rasantes sobre a cidade. O governador assegurou que toda a polícia estaria de sobreaviso para impedir manifestações não autorizadas, mas o conjunto das entidades estudantis tinha decidido sair em passeata, mesmo sem autorização policial.
—A revolução exige entrega e sacrifício, companheiro. Você não tem a garra proletária, é só um branquelo pequeno-burguês movido por uma culpa judaico-cristã. —tinha lhe jogado na cara uma vez um moreninho de cabelo pixaim que trabalhava de noite como vigilante, mas que às sete da manhã estava na faculdade e nunca perdia uma reunião da Comissão Pró-Centro Acadêmico. Agora Marcão tava aí, atrasado no dia mais importante do ano. Tinha havido mobilização na universidade pela manhã e à tarde a concentração da passeata estava marcada para as 14 horas. Marcão não conseguira vencer uma fraqueza pequeno-burguesa e passara a noite na barraca 96, na praia de Ponta Negra, bebendo cerveja e comendo o pirão de peixe de dona Maria José. Acordara ao meio-dia, uma ressaca do caralho, e só conseguira sair de casa depois de muita água de coco, Chophytol e uma canjinha de carne que sua mãe mandou a empregada preparar.
Tinha descido do ônibus na Praça Cívica, às quatro da tarde, e andava apressado para a Faculdade de Farmácia, rezando para que a passeata ainda não tivesse saído. Nem tinha se preocupado de saber o percurso. Ao passar pela rua Dr. Manoel Dantas, viu o caminhão do pelotão de choque estacionado perto da esquina. Porra!, pensou, A repressão tá de tocaia! Ainda bem que eu me atrasei pra ver isso —e continuou, agora quase correndo—. Aquele neguinho babaca vai ver que eu valho tanto quanto qualquer operário. O Che era pobre? Fidel por acaso é preto? Que história é essa que a revolução é feita só por preto e pobre? Isso sim, é preconceito. Ia pensando, ofegante, até que chegou na esquina da maternidade e viu o que não esperava. A rua em frente à Faculdade de Farmácia estava lotada de polícia. Camburões, viaturas de todo tipo. Os estudantes estavam acuados no pátio da faculdade; de onde ele estava dava pra ouvir as palavras de ordem.
Era só o que faltava, pensou. Não sabia o que fazer. Deveria tentar entrar? E se fosse uma arapuca? Se aquele pelotão de choque que ele viu invadisse? Achou melhor aguardar um pouco e foi até uma banca perto da esquina, onde vendiam lanches. Pediu uma coxinha e uma Coca-Cola e ficou observando a movimentação de longe. Parecia estar rolando algum tipo de negociação. Um soldado chegou na banca e pediu duas carteiras de Continental sem filtro. Marcão puxou conversa: A coisa tá feia por ali, né? O soldado abriu uma das carteiras e puxou um cigarro: Esses filhinhos de papai comunistas. Estudam de graça, não trabalham e querem fazer arruaça. Pegou o isqueiro amarrado no balcão e acendeu o cigarro. Marcão insistiu: Vão invadir? O PM riu: Pra bater nesses frouxos? Só se eles quiserem apanhar. O comandante tá bonzinho hoje. Deu a chance de sair de um em um. Se sair de galera, a peia vai comer—Marcão sentiu um frio no espinhaço. O PM soprou um jato de fumaça e voltou para junto da tropa.
Marcão decidiu esperar. Se começassem a sair, ele iria acompanhar de longe e depois se juntaria ao grupo. A merda é que não sabia nem qual o destino da passeata. Pra não chamar a atenção da polícia, resolveu dar uma volta. Foi até a Ladeira do Sol e comprou uma salada de frutas com leite condensado. Comeu olhando o marzão azul lá embaixo e discutindo futebol com o vendedor. Já devia ser perto das cinco horas quando resolveu voltar pra ver como estava a situação.
A rua estava vazia. A polícia tinha sumido e não havia mais ninguém no pátio da faculdade, exceto uma menina magricela debruçada sobre um livro de medicina. Ela disse que a polícia tinha deixado eles saírem aos poucos, mas que eles tinha decidido se encontrar mais na frente pra fazer a passeata.
II
Enquanto Marcão saboreava a sua saladinha de frutas olhando o mar, a polícia havia feito um acordo com os estudantes. Eles poderiam sair em pequenos grupos, mas evitando juntar-se. Se a passeata se formasse, haveria repressão. Os estudantes debateram o assunto e votaram por aceitar as condições oferecidas, mas ficou combinado que os grupos se dirigiriam para a Assembleia Legislativa, onde fariam um ato público pela democracia e pelo ensino público e gratuito. Foram saindo aos poucos, alguns pela Nilo Peçanha, outros pela ruazinha ao lado do bar do Russo, outros pela Primeiro de Maio. A orientação era não provocar a polícia. A concentração só seria feita na Assembleia, onde o carro de som estaria esperando. O que a magricela não falou é que se Marcão olhasse para a direita naquele instante, talvez visse o último grupo virando a esquina na Primeiro de Maio.
Marcão escolheu a esquerda e pegou a Nilo Peçanha, na esperança de encontrar alguns companheiros a que pudesse se juntar, mas chegou até a Praça Cívica sem encontrar nenhum militante. Tentou imaginar por onde teriam ido.
Caminhou até o colégio Anísio Teixeira e então avistou do outro lado da praça um grupo de estudantes saindo da rua Ana Neri e pegando a Potengi. Correu até lá, mas, quase em frente à residência universitária feminina, havia uma Veraneio da PM estacionada. Os soldados tinham descido e conversavam na calçada. Ao vê-lo, um deles gritou: Ei, rapaz! Marcão gelou: Puta merda! A repressão me pegou! O sargento esperou ele se aproximar e sacou uma carteira de Hollywood, dando batidinhas no topo para fazer saltar um cigarro: Você tem fogo?
—Não-Não, senhor. Não, eu não fumo.
O sargento estranhou o nervosismo de Marcão: Tá se sentindo bem, rapaz?
—Sim-Sim, senhor. Só estou atrasado para um compromisso.
O policial observou Marcão com curiosidade, mas aquele filhinho de papai gordinho não parecia oferecer nenhum risco.
—Ok. Valeu.
Marcão saiu andando rápido mas, em vez de seguir o grupo, resolveu subir pela Ana Neri, pra não chamar a atenção dos PMs. Ao virar na rua Seridó voltou a correr, pensando em arrodear pela Floriano Peixoto e alcançar o grupo ainda na Potengi.
Ao virar a esquina da Seridó com a Floriano, ele avista os últimos integrantes do grupo atravessando a rua lá na frente, em direção à avenida Deodoro da Fonseca. Percebe que não vai alcançá-los antes da Deodoro e resolve fazer a maior besteira: cortar caminho por entre os quintais das antigas casas do bairro de Petrópolis.
Pulou o murinho baixo da frente de uma casa vazia e depois o muro alto do quintal e se viu em um ambiente estreito, cheio de roupas penduradas num varal. Pulou o segundo muro e caiu em um beco estreito, por onde correu até outro minúsculo quintal. Quando pulou o terceiro muro, deu de cara com dois cachorros que avançaram rosnando com as presas arreganhadas. Conseguiu pular o muro de volta, mas ainda foi arranhado nas pernas pelas garras ou dentes do cachorro maior. Desesperado, voltou correndo pelo beco, enquanto alguém dentro da casa gritava alguma coisa sobre “um ladrão”. Acabou de novo na Floriano —braços, peito e pernas arranhados—, correndo o mais que podia até a Potengi e de lá para a Deodoro, onde parou resfolegando para descansar, curvado e com as mãos apoiadas nas pernas feridas pelo cachorro.
Respirou fundo tentando recuperar o fôlego, enquanto se perguntava se tinha sido talhado mesmo para a vida de “guerrilheiro”. No aperreio, resolveu apelar para a solução pequeno-burguesa: ligou de um orelhão para seu irmão vir buscá-lo no carro da família. Do outro lado da linha, soou uma risada sarcástica: Vá pedir aos seus amigos comunistas, Marcos! Eu sou um “porco capitalista”, lembra? Um “vendido ao sistema”. Te vira, Marcão!
Maldito canalha!, pensou. Não dá mesmo pra confiar nessa burguesia. Quando a revolução vier, tem que botar tudo no paredão.
Como que revigorado pelo sarcasmo do irmão, Marcão retomou sua corrida em busca de juntar-se aos companheiros, sem saber que desde as 17 horas os primeiros grupos que haviam saído da Faculdade de Farmácia já chegavam à Assembleia Legislativa. Por lá, mais de 300 policiais os aguardavam, espalhados pelos arredores, onde ficavam também a Prefeitura Municipal e o Palácio do Governo.
Com ânimo redobrado, Marcão corre pela Juvino Barreto, atravessa a Felipe Camarão, pega à esquerda na avenida Princesa Isabel e segue direto pela Correia Teles. Sem saber, ele está fazendo o mesmo percurso do último grupo de estudantes e, se tivesse virado à esquerda de novo na avenida Rio Branco, teria avistado os companheiros cerca de 200 metros à sua frente. Em vez disso, ele continua pela Correia Teles e, ao virar a esquina da São Tomé, pisa em alguma coisa macia e cai no meio da calçada suja, enquanto alguém grita: Ai! Caralho! Esse galado pisou na minha perna! Marcão se levanta assustado, limpando o sangue com areia dos joelhos, enquanto um grupo de jovens raivosos avança pra cima dele.
—Que que esse fi de rapariga tá querendo?
—Ele pisou na perna de Beto!
—Vamo dar um pau nesse fresco!
III
Nos anos 1980, Natal estava cheia de bandos de jovens da periferia que começavam a tomar consciência de sua identidade —os chamados “pintas”. Tinha a turma da Guarita, a turma das Quintas, a dos Coqueiros, a do Beco da Vaca. A imprensa os chamava de “vândalos”, mas em geral eram apenas gangues juvenis que se divertiam brigando nos bailes da Assen, da Camana, do Aero —ainda assim, eram temidos pela classe média, sempre assustada, como se fossem perigosos bandos de marginais.
Marcão havia topado com um grupo de “guariteiros” que havia descido pra resolver uma parada com a turma de Brasília Teimosa e, na volta, parara naquela ruela pra fumar um baseado. Não adiantou pedir desculpas, fazer cara de submisso. Os guariteiros lhe empurraram contra a parede e, com o jogo típico da polícia (guarda bom/guarda mau), fizeram com que ele sacasse a carteira para pagar em dinheiro pela “agressão”. Marcão era prevenido e quando saía de casa sempre espalhava o dinheiro pelos bolsos e até nos tênis, deixando apenas uma laminha na carteira, para uma eventualidade daquelas. O líder do grupo achou apenas quatrocentos cruzeiros, quatro notinhas vermelhas de cem, e ficou indignado: Que porra é essa? Um filhinho de barão com quatrocentos conto só? Que porra é essa, doido?
Marcão tentou gaguejar uma desculpa, apavorado que eles revistassem seus bolsos e encontrassem o dinheiro escondido. Era surra na certa. Foi salvo por outro jovem, que achou sua carteirinha de sócio da boate Royal Salute: Úia! Dá pra tu trocar a foto e entrar na boate dos barão, Beto. O líder da gangue examinou a carteira e, avaliando que aquele gordinho branquelo e frouxo não valia nem o trabalho de bater nele, ordenou: Dispare, boy! Antes que eu pegue raiva de você!
Marcão saiu correndo, mas um dos guariteiros apanhou uma pedra no chão e, com pontaria inacreditável, acertou sua cabeça. A pedrada doeu incrivelmente na hora, mas depois virou só uma coceira e um pequeno calombo acima da nuca. Marcão ficou se perguntando se o Che alguma vez levara uma pedrada na cabeça —não das forças da repressão, mas do próprio proletariado que ele dava sua vida para livrar do imperialismo. A lembrança de Guevara martirizado e assassinado covardemente na Bolívia consolou seu sofrimento: o que era uma pedrada perto do que o Che sofrera?
Com esses pensamentos, ele avança pela São Tomé e continua pela Vigário Bartolomeu mas, ao se aproximar da Ulisses Caldas, sente uma fisgada no pé da barriga. Depois outra e mais outra. Ah, meu Deus, agora não!, pensa, A porcaria da coxinha me fez mal. Foi, na verdade, um caldo de ostra que ele consumiu na noite anterior, mas isso não tem nenhuma importância diante da urgência da dor de barriga. Está a pouco mais de cinquenta metros da Assembleia Legislativa, ouve gritos, explosões; uma mãe de família com duas crianças passa assustada e diz que a polícia jogou gás e está batendo nos estudantes. Marcão sabe que não vai ter como se aliviar no meio do tumulto e resolve seguir em frente e pegar a Coronel Cascudo, ziguezagueando pelas ruelas da Cidade Alta até a praça André de Albuquerque. Lá haveria muitos canteiros e árvores onde se esconder pra fazer o serviço.
Ao chegar na praça, a urgência tinha se tornado emergência. Procurou desesperado um lugar, mas já era tarde, a merda escorreu pelas pernas: Ah, não! Isso não!
Sentou-se na beira de um canteiro, enfiou a cara nas mãos e chorou convulsivamente. Estava cansado, suado, culpado e, agora, cagado como um menino novo. Pensou no Che, na disciplina revolucionária, e procurou se acalmar para pensar no que fazer. Havia pouca gente na praça, todo mundo se dirigindo apressadamente para os pontos de ônibus da Parada Metropolitana. Pensou em tirar a bermuda, limpar a porcaria com ela e usar a camiseta como saiote, enquanto buscasse um orelhão —o puto do seu irmão não podia se negar numa hora dessas—, mas mudou de ideia quando viu ali perto um pastorador de carros (na época não se dizia “flanelinha”), com um latão d’água. Após uma breve negociação financeira, o garoto providenciou quatro galões de água com que Marcão lavou a sujeira e tomou um banho de corpo inteiro pra disfarçar. Agora estava pronto pra se juntar aos companheiros que deviam estar enfrentando a polícia nesse instante. Quantos já teriam sido presos? Ora, isso não importa!, pensa. Um revolucionário não pode temer os cassetetes da repressão. Hasta la victoria!
IV
Quando chegou na Praça Sete de Setembro, não havia mais gás lacrimogênio, nem pancadaria alguma. A polícia observava de longe enquanto políticos e lideranças estudantis se revezavam ao microfone do carro da Ajosom, uma velha Veraneio coberta de bocas de ferro, condenando a repressão e pedindo o fim da ditadura. Num canto, ele avistou Costinha e o pessoal do DCE. A turma do Pró-CA estava do outro lado e Marcão preferiu arrodear por trás da multidão de estudantes, repórteres e curiosos. Lá atrás encontrou um casal de colegas da faculdade que lhe contaram meio decepcionados como a polícia tinha começado a ameaçar os estudantes batendo com os cassetetes nos escudos, depois tinha jogado umas ampolas de gás lacrimogênio e simulado uma carga sobre os manifestantes. Isso tinha bastado para que a multidão saísse em disparada. Alguns conseguiram se refugiar no prédio da Assembleia Legislativa, antes que a segurança conseguisse fechar a porta. Outros se espalharam pela vizinhança. Poucos apanharam da PM. Nada de confronto, contaram. A polícia tomou umas faixas, apreendeu o carro de som e foi só. Parlamentares mediaram uma negociação entre os estudantes e o vice-governador e um ato público pacífico foi permitido no local. O casal, que não era militante —“estudantes de massa”, como eram chamados— parecia ter se preparado para assistir uma daquelas batalhas campais de 1968 no Rio Janeiro, e tinha visto a PM dar só um susto na meninada.
Ao encontrar a comissão Pró-CA, foi recebido com irritação: Porra, Marcão! Não era você que ia abrir a faixa com Juju, porra?
—Foi mal, companheiro. Você nem imagina os sacrifícios que eu fiz pra chegar até aqui —disse, exibindo os braços lacerados.
Alguém tentou puxar um coro de “O povo unido” e Marcão embarcou empolgado, tentando mudar de assunto, mas o coro morreu por falta de quórum. Nessa hora, o orador da vez citava Honestino Guimarães: Podem nos prender, podem nos matar! Mas um dia voltaremos, companheiros! E seremos milhões! A multidão aplaudiu e Marcão tentou puxar um coro de “Abaixo a repressão!”, mas aqui também as palavras de ordem logo murcharam.
Meia hora depois o ato estava acabado. Algumas entidades realizavam reuniões para marcar a próxima reunião. Era preciso avaliar o ato público e extrair as lições para a próxima manifestação. A turma do Pró-CA estava cansada e resolveu ir embora, frustrando o ímpeto participativo de Marcão.
Na volta, passam em frente à Prefeitura. Uma fila de uns oito PMs defendem simbolicamente a sede municipal. Marcão ergue o punho esquerdo pra eles e grita: Hasta la victoria siempre! Um soldado responde mostrando o dedo médio estirado. Marcão sorri, exultante. Comenta com os colegas: A luta é grande, companheiros! Ante o silêncio de todos, ele emenda: E aí? Quem topa uma brahminha gelada agora, lá no Russo?
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