Beija-flor
Quando era pequeno, Roberto pensava que os beija-flores eram seres encantados. Pequenas aves de cores cintilantes que batiam asas impossíveis de serem vistas com clareza a olho nu. Beija-flores eram, para ele, os mais puros semeadores da vida. Beijavam lindas plantas e quando partiam levavam com eles os pequenos grãos daquele breve amor. Cresceu acreditando que esses pequenos pássaros eram eternos.
André já em seus 13 anos, andava muito de bicicleta e cresceu ouvindo as histórias que seu avô contava sobre o dom de um beija-flor. Seres que espalhavam vida e que nunca eram vistos sem bater as asas. Adorava as histórias do avô e ficava alegre ao ver pequenas aves semeando vida. Ia meio ao mato com amigos a procura de bichos que pudessem impressionar os olhos dos jovens. Encontravam besouros que brilhavam no escuro e vagalumes que faziam um barulho estranho, mas só os beija-flores faziam com que André suspirasse.
André cresceu e viu seu avô cada vez mais velho, permanecer de pé — dizia o velho que devia sua força à eternidade dos pássaros. Mas André já havia deixado a bicicleta de lado e enfrentado cidades maiores — amadureceu e deixou a magia das histórias esvair-se do seu âmago. Já quase não encontrava beija-flores na cidade onde vivia, pois quase não havia flores entre os grandes prédios de concreto. Só quando visitava o avô em sua pequena cidade natal que podia apreciar o ar do campo, o cheiro de capim molhado e os mosquitos que o devoravam ao anoitecer.
Voltava do trabalho, em direção ao metrô quando virou em uma rua que tinha uma pequena árvore com pequenas flores, foi em direção a árvore como que de repente em um surto nostálgico, recordou das histórias que o avô contava. Chegou em frente à arvore e olhou em volta procurando a ave da vida e surpreendeu-se ao ver um beija-flor caído no canteiro, com as asas encolhidas que já não mais batiam e pequenas formigas que transitavam sobre o pequeno corpo.
Mais tarde naquele dia, recebeu uma ligação os pais avisando que seu avô morrera.