Tinha muita confusão ali.

Nos sentamos em qualquer banco. 
Silêncio
Apesar do som alto. Ali era apenas o nosso espaço.
Nosso momento. 
Queria saber o que ela queria de mim.
Daquele momento.
Minhas mãos tremiam ao pensar em tudo o que passava em sua mente. Não conseguia imaginar o que seu silêncio poderia significar. 
Tinha muita gente ao nosso redor. 
Muito barulho, dentro e fora de nós, porém, seu silêncio dizia tudo. 
Toquei em suas mãos. Seus olhos encontraram os meus.

Que sensação!

Podia ver o tempo neles. 
A inercia do tempo. 
Falei a primeira coisa que veio a minha cabeça.
Não queria me arrepender de mais essa droga em minha vida.
Não ela.

- Você está onde gostaria de estar!?Olhe toda essa gente, elas não se perguntam sobre nada disso. Apenas estão aqui, vivendo. Respirando. Suando. Beijando. Uns até devem estar transando. Mas, não queria nada disso, só queria conversar com alguém, me sentir intimamente ligado a essa pessoa. Queria diálogos sobre física quântica e sobre moda da década de 30. E queria que isso tudo fosse real, duradouro. Que pudêssemos nos entender sem vozes elevadas, mesmo que nossos pontos de vista não fossem iguais. Entende?

Ela continuou a me olhar com aqueles lindos olhos. Meu estômago parecia querer voar. 
A resposta dela mostrava exatamente tudo sobre seu caráter.

Ela é absurdamente maravilhosa.

- Mas, seria real? Sabe, será que alguém realmente está interessado no que temos para dizer!? Será que apenas ouvem e falam de forma a nos fazer admirar aquele pensamento? Não sei. Quero apenas que seja real. Que não seja nada programado. Decorado. Que seja real. Que quando eu dizer sobre meu medo de palhaço, a pessoa ria, me ache idiota, sei que é idiota, não preciso que me digam que não é. Quero apenas que a pessoa me ouça falar sobre literatura francesa, ou sobre minhas bandas escocesas favoritas. Que se importe.

- Que ouçam até mesmo o nosso silencio. Completei rapidamente.

Ela concordou balançando a cabeça e sorrindo, deixando a mostra seus lindos dentes. Seu batom forte. 
Tudo nela é forte. 
Ela é como café.
Me calei e deixei ela continuar.

- Quero apenas que as horas não sejam interrompidas por qualquer outra besteira, que não tentem ser cavalheiros, que me vejam como sou. Mulher. Independente. Dona de mim. Não preciso de ninguém para ser feliz, preciso de alguém para ver e admirar o quão posso ser nesse mundo.

Confesso que minha vontade era de abraça-la. Beija-la. 
Não o fiz, claro. 
Ainda não sabia o que ela queria de mim. 
Daquele momento.

Continuei tocando suas mãos. Trouxe-as ao meu rosto e as beijei. O cheiro da pele dela parecia duas carreiras de cocaína, com 4 gramas cada, de tão viciante que era.

- Se eu pudesse ler sua mente, o que estaria pensando agora?
Falei aquilo ainda com meus lábios em suas mãos.

- Descobriria que o que quero agora, não poderia fazer aqui. Descobriria que meus pensamentos não são tão ingênuos quanto acha. Descobriria que o lugar em que quero estar, poderia fazer tudo o que quero.

- Vá, você é pura liberdade. Soltei aquela frase com uma voz meio falha.

- Então, venha comigo.

Ela sabia que eu iria. 
Eu iria. 
Talvez, e só se ela quiser, eu descubra o que ela quer de mim. 
Daquele momento.
Do resto da noite.

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