O que é tecnologia? — Resposta ao Smile Knup

Janos Biro Marques Leite
Nov 4 · 19 min read

A resposta a seguir se refere a este comentário, feito num post sobre a teoria crítica da tecnologia de Andrew Feenberg.

A nossa existência se encontra limitada pelo sistema capitalista, assim como se encontrava limitada pelo sistema escravista. Mas pode existir fora de todos esses sistemas de opressão massiva, porque antecede a criação desses sistemas. Todos eles foram criados não apenas por pessoas, mas por determinadas culturas que hoje são dominantes. Já a existência de basicamente tudo que chamamos hoje de “tecnologia avançada” não antecede o sistema capitalista, e tudo que chamamos usualmente de “tecnologia”, mesmo a mais “primitiva”, não antecede a criação do sistema escravista. E a questão sobre se ESSA tecnologia pode ou deveria poder existir fora desse sistema não tem nada a ver com a relação humana com a “tecnologia que sempre existiu”, compreende? Na verdade, se chamamos o conjunto total dessa ação humana de criar ferramentas (que é natural, sempre existiu) pelo nome de “tecnologia”, qual seria o sentido da expressão “avanço tecnológico”? De que modo podemos dizer que algo categorizado como uma “ação humana” no seu sentido mais primário, pode ser “mais avançado” numa determinada cultura do que em outras? Os modos de comer, transar e fazer rituais, por exemplo, avançaram extraordinariamente nos últimos séculos? Em que sentido essas coisas avançam? As DIFERENÇAS CULTURAIS entre culturas contemporâneas indicam avanço? Se tecnologia é algo natural, o que significa dizer que “a tecnologia humana avançou muito nos últimos séculos”? O tempo passou mais rápido nas culturas que se industrializaram primeiro, ou a evolução humana ocorreu de modo acelerado lá?

Quando usamos o termo “tecnologia” nesse sentido amplo, caímos numa série de contradições.

Não só o Capital e o Estado foram significativos para o “maior” desenvolvimento tecnológico, como o desenvolvimento tecnológico DA SOCIEDADE DE CLASSES (chamemos aqui de desenvolvimento tecnológico civilizado), considerado pelos próprios civilizados como “maior”, foi determinante para o surgimento do Estado e do sistema capitalista. Quando você diz que “já existia tecnologia, porém menos desenvolvida e mais simples”, O que você está chamando de desenvolvimento? Nesse ponto algumas incoerências começam a aparecer no conceito de tecnologia. Ou a tecnologia se desenvolveu de diversos modos em todas as culturas humanas, ou ela se desenvolveu MAIS na história da sociedade civilizada. Afirmar as duas coisas ao mesmo tempo é uma contradição. Ou a diferença é de grau, ou ela é de modo. Eu pretendo demonstrar que, de todo modo que se tente justificar essa afirmação, ou ela acaba implicando numa visão colonialista; ou não consegue contrapor de fato a crítica à tecnologia.

Toda tentativa de defender a necessidade do “desenvolvimento tecnológico acelerado” é uma tentativa de ignorar essa contradição lógica. Do mesmo modo que seria contraditório tentar afirmar uma postura contra a escravidão animal e a favor da indústria pecuarista ao mesmo tempo. Ou ainda, contra o machismo e a favor de uma lei que obriga as mulheres a se casarem com seus estupradores, por exemplo. É uma confusão tentar defender a “tecnologia avançada” e a decolonialidade ao mesmo tempo.

Em que sentido a tecnologia das “sociedades tribais” é menos complexa do que a nossa? Se por “mais complexa” você quer dizer mais especializada, isso significa que as pessoas tem MENOS AUTONOMIA sobre o que é produzido e maior DEPENDÊNCIA TECNOLÓGICA. Por “sociedades tribais” você quer dizer sociedades com agricultura, propriedade sobre a terra e controle sobre a mulher, por exemplo, então talvez pudesse ter razão, porque essas sociedades já tinham o mesmo critério de acúmulo e expansão que a nossa, e seria, portanto, “estágios anteriores”, sociedades caminhando para um objetivo civilizado. As sociedades que já plantavam num regime expansivo veriam muita vantagem numa tecnologia que permite plantar mais rápido. Mas as sociedades forrageadoras, não. Usar o termo “sociedades tribais” sem distinguir entre horticultores e forrageadores cria um equívoco gigantesco. A tecnologia de um era mais simples, mas tendiam à complexidade. A de outro não pode ser avaliada na mesma escala de complexidade.

Se a colonização produziu “um desenvolvimento rápido de novas tecnologias”, é preciso notar que não se tratou de um simples aceleramento de um processo que já estava ocorrendo, mas de uma mudança qualitativa no processo, na relação entre humano, natureza e técnica. Chamar ambas as coisas pelo mesmo nome cria confusão. Tanto quanto a tentativa de chamar “trocas voluntárias” de economia de mercado.

Por isso não faz sentido falar de uma ação humana que existe desde sempre até as condições da sociedade capitalista atual usando apenas o termo “tecnologia”. Como há uma ruptura entre o modo de vida que antecede a sociedade de classes e o modo de vida civilizado, é vago e confuso chamar de “tecnologia” tanto aquilo que é pré e pós-ruptura. Tudo que pode ser entendido, no sentido mais amplo, como uma tecnologia pré-civilização NÃO PODE ser entendido do mesmo modo como se entender a tecnologia civilizada, e vice-versa. É impossível falar concretamente de desenvolvimento tecnológico se não especificamos de qual desenvolvimento estamos falando. É impossível falar de um conceito histórico e material de tecnologia que MISTURA o que veio antes e o que veio depois da civilização. Usar o termo “tecnologia” num sentido tão amplo assim nos impede de discutir o que a crítica à tecnologia realmente quer discutir, que é justamente essa ruptura. É um conceito que depende da “flintstonalização” de povos forrageadores, como se eles fossem nós, porém com ferramentas de pedra e madeira. A academia ainda não conseguiu sair desse tropel, dessa caracterização equivocada dos povos ancestrais.

Qualquer raciocínio que se tente fazer para relacionar o desenvolvimento tecnológico da cultura civilizada com a evolução humana vai incorrer num erro parecido com a naturalização da sociedade de classes. Quando você procura descrever o processo pelo qual ocorreu o desenvolvimento da “melhoria das condições de vida” como “arbitrário e violento”, sugerindo que este processo necessariamente produz o desenvolvimento tecnológico civilizado, você está sendo determinista. Está tentando colocar dois processos que não tem a mesma natureza numa mesma escala de grau. Quando você diz que eu, no final das contas, defendo o RETORNO ao passado, você confessa que defende que houve avanço na civilização, no final das contas. Mas pra que esse tipo de processo representasse um avanço DA HISTÓRIA HUMANA, necessariamente os povos que não desenvolveram nada parecido devem ser classificados, no final das contas, como atrasados e inferiores. No final dessas contas, seria uma perspectiva colonialista. Se você não defende a superioridade de uma cultura sobre as outras, então que retorno um primitivista poderia estar defendendo? Não faz sentido. Só poderia ser um retorno se ele defendesse o retrocesso a um estágio civilizado anterior. O único sentido em que pode entender o retorno que o anarcoprimitivismo defende é enquanto fim de uma condição que nem sempre existiu, do mesmo modo que superar o capitalismo seria um retorno a um estado em que não havia capitalismo.

O Estado, como você diz, “de qualquer forma, ocorreu”. Mas não há retorno de uma sociedade sem Estado? Estatistas acreditam que o Estado é um AVANÇO NECESSÁRIO para a vida humana. E o único modo de defender o sistema tecnológico civilizado é acreditar que ele é um AVANÇO NECESSÁRIO para a vida humana.

Por mais erros que o anarcoprimitivismo cometa na sua prática e teoria, eu não vejo como contornar esse argumento. Dizer que “sociedades tribais são exceção da regra” e que “as pessoas provavelmente sentiriam uma necessidade de se organizar de uma forma ou de outra em grupos cada vez maiores, pois foi justamente isto que ocorreu na história” é inverter a realidade. Que regra? O QUE tornou uns regra e outros exceção? Foi um processo “natural” que não pode ser problematizado, ou um processo político comparável ao que tornou determinadas espécies de plantas e animais, antes abundantes no mundo, em “exceção”, e gado em “regra”? Como naturalizar esse processo? Não vejo como. Na história material, esses povos não são exceção, assim como viver sem Estado não é exceção. Por que mulheres e negros são minoria no topo da sociedade? O que aconteceu foi GENOCÍDIO, não uma simples expansão populacional bem-sucedida. Seria correto afirmar que “as pessoas provavelmente sentiriam uma necessidade de se organizar de uma forma ou de outra em sociedades capitalistas, pois foi justamente isto que ocorreu na história”? Na história de QUEM? Na história da humanidade isso NÃO ACONTECEU. As pessoas não sentiram essa necessidade, por centenas de milhares de anos. Essa necessidade não é natural, ela é produto da sociedade de classes, ela é uma necessidade CRIADA pela civilização.

Então, “o que a gente pode intervir” não se limita de modo algum a como isso vai acontecer. Nós podemos viver sem essa “necessidade de se organizar em grupos cada vez maiores”, como vivemos por 95% do tempo em que existimos. Sua conclusão ignora o escopo maior da história, e considera a história civilizada como A História Humana. Esse erro tem sido desbancado cada vez mais. E é com base nessa distinção que todos os argumentos da crítica à civilização são possíveis. Eu me concentrei em demonstrar a sustentabilidade dessa argumentação nos meus textos. E, infelizmente, parece que você não leu… Você tá pressupondo coisas que eu considero já superadas na discussão. Nas ciências humanas como um todo, não existe nada que sustente a afirmação de que temos que manter “intacta” essa estrutura de massas, essa “organização a nível macro”, como você chamou.

Do mesmo modo, pra dizer que a crítica à tecnociência civilizatória “limita as possibilidades da ciência”, é preciso acreditar que a civilização de fato as expande. Quer dizer, é preciso acreditar que a sociedade de classes, na sua história de dominação, movida pelo conflito de classes, ainda assim conseguiu EXPADIR o conhecimento do SER HUMANO sobre o mundo que o cerca. Novamente, não tem como defender esse ponto de vista e criticar o epistemicídio e o colonialismo epistêmico ao mesmo tempo. Não se trata de “prever o futuro”. O pensamento marxista não faz futurologia. Não é um otimismo sobre as possibilidades da ciência e tecnologia que distingue o marxismo e o anarquismo. Marx não defendeu que o Estado é uma necessidade humana, e sim que ele foi uma consequência lógica de um processo de desenvolvimento das forças produtivas NUM DETERMINADO CONTEXTO. Embora Marx possa não ter feito a distinção entre história da humanidade e história da civilização, e a maioria dos marxistas com certeza não faz, os anarquistas tão pouco fizeram. Ninguém fez, porque isso não era possível com o conhecimento que tínhamos antes.

Os povos sem Estado não tem possibilidade de defesa contra povos com Estado? Tem certeza disso? Esses povos não RESISTEM? Não foram sempre CONTRA o Estado? Você pode ver o mundo como uma guerra, mas que tipo de guerra? Qual o sentido de VENCER uma guerra, se você tem que se tornar COMO O INIMIGO para SOBREVIVER? Entender quem está “vencendo” também depende do ponto de vista. Se você valoriza a expansão, a civilização está vencendo. Se valoriza a participação na comunidade da vida, a civilização está perdendo. A civilização é uma guerra contra a vida. Não se pode vencer essa guerra sem causar a si mesmo um estrago pior que a morte.

Quando se diz “historicamente quem não teve tecnologia ou uma que não fosse tão efetiva foi massacrado”, isso é como dizer que historicamente quem não era de descendência europeia foi massacrado. O critério da efetividade tecnológica seria sua efetividade bélica? E qual o escopo desse recorte histórico? Pois do fato que, na história da civilização, aqueles que não tiveram efetividade bélica para se defender do imperialismo foram massacrados, não se conclui nada sobre a história da humanidade. Você está pressupondo a guerra imperialista como parte da natureza humana.

Vou expandir uma possibilidade que você parece ter desconsiderado no seu raciocínio: A tecnologia serve basicamente para atacar e se defender de inimigos? Quem criou esse tipo de guerra de conquista? O que teria a se ganhar numa guerra antes da possibilidade de acúmulo de excedentes, por exemplo? Guerra também é uma coisa antes e outra depois da ruptura. Não tem equivalência. Se o ser humano viveu em “estado de guerra” desde o começo, voltamos à velha pergunta: porque a tal “tecnologia efetiva” não se desenvolveu então? A razão: não havia necessidade, porque o empreendimento guerreiro que você tem em mente é relativamente recente. Ele exige uma estrutura do tipo estatal. Comparar o genocídio de povos forrageadores provocado pela colonização com “competição populacional”, por exemplo, é determinismo. É ignorar o elemento cultural, histórico e político disso que chamamos de guerra. NOSSO tipo de guerra talvez exija desenvolvimento tecnológico constante, afinal ele serve a um ideal de acúmulo e conquista de território. Mas o nosso objetivo político enquanto anarquistas é permanecer nesse jogo até quando? Se a necessidade da tecnologia se resume à efetividade bélica para atacar e se defender de Estados, ela vai acabar junto com o Estado. Portanto dizer que precisamos de tecnologia para vencer o Estado não é um bom argumento contra a crítica à tecnologia, porque não a contradiz, até anarcoprimitivistas concordam com isso.

Acreditar no fim da guerra de conquista é acreditar no fim do imperialismo. Não tem nada a ver com vencer a classe dominante “na conversa”. Se o objetivo é eliminar a própria existência de uma sociedade de classes, então mesmo a guerra de classes terá um fim. A não ser que você acredite na teoria da guerra perpétua.

Não é, logicamente, uma questão de que “armas” você prefere usar agora. Aliás, veja como a gente usa a palavra “arma” como sinônimo de “ferramenta”. Atualmente, eu prefiro internet que sinais de fumaça. Mas isso é relativo a um contexto restrito. Se a possibilidade de viver em outro modo de vida é real, a necessidade do sistema produtivo que possibilita a internet hoje pode desaparecer. Como o dinheiro, ela não é nosso destino, mas a crítica da economia monetária não exige que você “boicote” o dinheiro. Precisamos de dinheiro AGORA. Mas nada implica que precisaremos para sempre. A questão ainda depende dos valores que queremos defender POLITICAMENTE, ou seja, como um objetivo a ser alcançado pela SOCIEDADE.

Dentro da estrutura lógica do seu próprio raciocínio, que poderia ser descrita como “se ocorreu assim, então historicamente é assim que ocorre”, seria possível também afirmar que todo avanço tecnológico implica em escravidão, “tanto é que foi assim que aconteceu HISTORICAMENTE”. Se você defende que podemos viver sem escravidão, então você sabe que o seu raciocínio é falho. A discussão sobre a possibilidade de manter um sistema tecnológico “avançado” numa sociedade anarquista não está superada ainda. Muitos anarquistas acreditam que basta emancipar a tecnologia das mãos do Estado e do Capital e usá-la para o bem comum. Não é tão simples. Nós estamos apenas agora descobrindo os métodos de análise de custos ocultos e pressupostos do “desenvolvimento” tecnológico. É algo muito recente. Argumentos sobre o impacto da extração ativa e passiva de energia, por exemplo, são tão atuais e complexos quanto a questão do aquecimento global. E a possibilidade de que talvez não tenhamos meios para manter uma rede de computadores, por mais ecológicos que sejam, não é tão absurda quanto parece. Basta conhecer esses dados. Há uma série de implicações que não foram devidamente consideradas até agora, seja por “empolgação”, seja porque o método era limitado mesmo. Existem alguns fatos sobre o sistema tecnológico atual que não dá pra contornar com uma crença de que “vamos dar um jeito”. Não se trata de futurologia, puro pessimismo, ou de uma suposta indisposição de “sequer experimentar pra ver se dá”. Se trata de que temos DADOS cada vez mais fundamentados que nos dão uma noção, cada vez mais precisa, de que NÃO DÁ pra manter a estrutura básica dessa rede. É a ciência que está dizendo. E me parece que o discurso mais ideológico presente aqui ainda é aquele a favor da narrativa de progresso tecnológico perpétuo.

Sua ideia de que temos que “pensar como um militar” me parece que vem de uma falsa bifurcação. Há outras formas de pensar fora da lógica “presa ou predador” que você está sugerindo. O erro histórico do anarquismo foi que ele foi fraco militarmente? Que discurso é esse? Está sugerindo que o que determina o sucesso de uma perspectiva política é simplesmente sua estratégia “militar” de conquista? Isso é extremamente reducionista.

Quem está realmente iludido com a humanidade é quem defende que ela se define pela guerra de conquista. Do fato de que “temos que nos defender”, não se conclui que “sempre foi assim, sempre será”. A narrativa hobbesiana está xeque. Eu não vejo nenhum argumento capaz de defender essa narrativa hoje.

Eu não defendo uma mudança social pacífica no contexto da sociedade de classes. Mas só porque a sociedade de classes se globalizou e definiu a si mesma como “humanidade”, não quer dizer que ela realmente seja a base para se falar da humanidade como um todo. A vida humana fora da sociedade de classes permanece existindo. Permanece sendo aquela para qual nosso corpo está adaptado. Tudo que você considera como “condição atual” vem pelo aprendizado e é mantido por um processo de reprodução social. Depende TAMBÉM de manutenção de crenças e valores. As condições de possibilidade de um modo de vida não podem ser mantidas na bala simplesmente.

Para manter a “tecnologia avançada”, precisamos convencer todo mundo de que a relação sujeito-objeto com a natureza é normal. No final das contas, temos que acreditar na superioridade da cultura colonizadora. Se a mudança de pensamento é inofensiva, porque tanto esforço simplesmente para manter o pensamento das pessoas sobre controle? Existe uma diferença muito grande entre a afirmação individualista de que “basta mudar seu pensamento” e a afirmação que estou fazendo. Não estou colocando todas as classes como membros de uma mesma categoria em termos absolutos, o que seria ignorar o conflito de classes. Mas do fato de que há guerra de classes, não há nenhum caminho solidamente coerente para defender que precisamos manter nosso sistema “tecnologicamente avançado” para sempre. Não há nada na afirmação de que “precisamos de armas para lutar” que implique que precisemos de fábricas de armas para sempre. Mesmo usando armas, podemos nos direcionar politicamente para uma sociedade sem armas de fogo, por exemplo. E se isso é verdade para armas, é verdade para o resto da tecnologia industrial também. Podemos nos direcionar politicamente para uma sociedade com o mínimo de dependência tecnológica possível.

Para tornar ainda mais evidente o problema do raciocínio hobbesiano, do fato de que não se sobrevive sem vender sua força de trabalho ao mercado capitalista não se segue que o mercado capitalista sempre existiu, ou sempre existirá. O que somos obrigados a fazer nas condições da atual estrutura civilizada, incluindo fazer uso da tecnologia, não é uma necessidade universal, eterna e absoluta de sobrevivência humana. É uma necessidade relativa a um determinado contexto social. Nada implica que não possamos mudar essa condição COLETIVAMENTE, ainda que pouco possa ser feito individualmente. Meu argumento é: mesmo sem condições de viver estritamente sem dinheiro, ou sem nenhuma dependência do Estado, ou sem dependência de um sistema tecnológico civilizado, ainda é importante questionar e se posicionar contra essas coisas em termos POLÍTICOS. Evidente que a sociedade agora é tecnológica, mas ela DEVE NECESSARIAMENTE SER ASSIM para sempre? Essa é a questão, e depende de que valores se quer defender.

Sua argumentação ainda está pressupondo que o anarcoprimitivista está pregando uma ordem moral contra todo e qualquer uso de dispositivos tecnológicos, como que por uma questão de pureza, e sem considerar sequer a própria sobrevivência. Isso continua sendo espantalho. Nenhum anarcoprimitivista está defendendo que a classe trabalhadora boicote a civilização enquanto permite que a classe dominante mantenha seu domínio técnico por quanto tempo ela quiser, ou até ela se “conscientizar” por conta própria. Não faria o menor sentido.

E lógico que quem desperdiça recursos é a burguesia. Não estou negando isso. Mas perceba a diferença entre um “primitivismo” de boicote individual e um ANARCOprimitivismo: quem não toca nos privilégios da classe dominantes não pode ser anarquista, oras. Não há dúvida de que teremos que usar tecnologia contra a classe dominante. Eu posso estar soando repetitivo, mas infelizmente parece que não importa quantas vezes eu diga isso, nunca é suficiente: do fato que precisamos de tecnologia AGORA, não se pode concluir que a crítica à tecnologia está errada, porque ela não se trata de boicote, simplesmente do questionamento da ideia de que “tecnologia” é algo natural do ser humano. A ideia de que o conceito de “tecnologia” precisa ser melhor definido como algo inerente ao processo civilizatório não é totalmente sem sentido. Você pode argumentar contra essa ideia, mas não com essa linha de argumentação que foi apresentada aqui, porque isso seria já pressupor a conclusão a que se quer chegar: que a tecnologia DEVE, por algum motivo, sempre ser considerada como um atributo universal da humanidade. Nenhum argumento nesse sentido foi de fato dado na sua argumentação.

Continua patente a contradição de afirmar que “o conhecimento HUMANO” (grifo meu) foi impedido de se desenvolver pelo simples fato de que foi empregado, nas condições do capitalismo, “pra vencer a concorrência ao invés de somarem para melhoria da vida humana”. Se passamos 200 mil anos sem essa limitação, porque nenhum grupo humano desenvolveu nada parecido com o que desenvolvemos? Veja, sua afirmação sugere que o conhecimento humano foi mal aplicado, porém não apenas CONTINUOU CRESCENDO na história civilização, como também CRESCEU MUITO MAIS RÁPIDO, implicação necessária da crença de que o desenvolvimento tecnológico se deu de modo muito mais rápido, ou estou errado? Se teve desenvolvimento tecnológico acelerado, teve acúmulo de conhecimento acelerado também, certo? E nas sociedades nativas, o conhecimento ficou estagnado, cresceu mais lento, como foi? Também houve acúmulo de conhecimento RÁPIDO, lá onde nem sequer se fundiu metal, ou ali o processo foi mais LENTO? Também houve avanço EXTRAORDINÁRIO no CONHECIMENTO HUMANO sobre a realidade física, biológica e sociológica entre os Sentineleses, ou só na Europa se encontrou, até certo ponto da história, “um desenvolvimento rápido” de novos conhecimentos científicos? Percebe as implicações desse posicionamento?

Não tem como dizer que o conhecimento “avançou de modo excepcional” na civilização, tendo sido apenas foi mal usado, e ao mesmo tempo que os povos nativos que estavam aqui quando os europeus chegaram NÃO eram ATRASADOS, e assim por diante… Uma coisa necessariamente contradiz a outra. Falta coerência, não apenas no seu discurso, mas no discurso que tem sido aceito como verdadeiro por grande parte das pessoas, incluindo acadêmicos e teóricos de humanas. Assim como a pecuária nunca tinha sido uma grande questão para a maioria dos teóricos de ética até pouco tempo atrás, e ainda não é de fato, anarcoprimitivistas, não por alguma superioridade intelectual, mas por uma mistura inusitada entre a perspectiva crítica do progresso e a perspectiva anarquista, ligaram os pontos entre a decolonialidade e crítica à tecnologia. Se o conhecimento humano que se acumulou em sociedades com e sem Estado é DIFERENTE, então essa diferença de complexidade não é uma diferença de grau, é uma diferença CULTURAL. Sendo cultural, não há nada que justifique que ela se mantenha como NECESSIDADE HUMANA. O desenvolvimento do conhecimento humano permanece ocorrendo mesmo sem o conhecimento civilizado. Assim como o desenvolvimento do conhecimento humano permanece ocorrendo quando uma cultura da polinésia desaparece. Porque, se nossa cultura é um elemento da vida humana como todos os outros, nossa tecnologia se trata de uma mais uma cultura como todas as outras, e como todas as outras atende especificidades do CONTEXTO no qual se insere, e não necessariamente da SOBREVIVÊNCIA DA HUMANIDADE. Em outras palavras, se a civilização pode ser criticada, a tecnologia que ela desenvolveu também pode, não é algo simplesmente HUMANO sendo mal utilizado, é algo CIVILIZADO que às vezes é bem usado. Sendo que o contexto é opcional, manter este sistema técnico, bem usado ou não, pode ser em si um desperdício. Se podemos viver fora das condições que nos OBRIGAM a depender das soluções tecnológicas, por que o esforço de manter tais tecnologias, com todos os seus possíveis “mal usos”, seria mais interessante do que a perspectiva de depender de cada vez menos tecnologia?

Você ainda insiste em falar da “redução drástica dos impactos ambientais”, mas evita entrar na questão da ecologia profunda. O discurso de que o problema está na “ineficiência” de tecnologias “ultrapassadas” ainda pressupõe a superioridade de Europeus sobre outros povos, porque ainda naturaliza o critério de eficiência que pressupõe a crença no progresso da civilização. Você se nega a reconhecer que a tecnologia, em si, é um desenvolvimento tão “falível” e criticável quanto a sociedade de classes. “Precisamos de mais, e não menos tecnologia” é uma afirmação ideológica, é um dogma. E tem um fundo colonialista, por mais que se tente negar.

E o que na “questão econômica” está sendo ignorado nessa perspectiva, você pode dizer diretamente? O que eu disse não tem nada a ver com “colocar no mesmo barco” o consumo dos pobres com o desperdício das classes abastadas. O “enorme desperdício sem sentido que existe” não muda em nada o que foi dito sobre a natureza do sistema tecnológico civilizado. O fato de que você pode reduzir o desperdício a níveis “sustentáveis” não significa que este sistema é, em si, justificável. Isso é outra afirmação que eu repeti diversas vezes, mas parece que você não me ouve. Você continua insistindo nos mesmos pontos.

Você fala como se a proposta fosse convencer pessoas a se abster da tecnologia, mas não percebe que, para que nossa tecnologia seja possível, é preciso que as pessoas se abstenham de muitas outras coisas. É preciso que elas se alienem, em última instância, de uma relação que foi, em termos “históricos” mais precisos, muito mais definidora do caráter humano, porque existiu por muito, muito, mas muito mais tempo. E nisso eu não estou usando um apelo à natureza para justificar, mas simplesmente usando O SEU PRÓPRIO RACIOCÍNIO, de que “se foi assim por tanto tempo, então é uma parte de quem nós somos”. Aplicando o escopo completo da história humana (uns 200 mil anos), e não somente da história da civilização (cerca de 6 mil anos), as conclusões sobre o que é humano mudam drasticamente.

A mesma estrutura argumentativa que você usa para justificar a tecnologia, com base na necessidade de um “povo forte e armado combatendo seus dominadores”, poderia justificar praticamente qualquer coisa. É uma lógica seletiva, ela pressupõe um excepcionalismo da técnica civilizada. O seu argumento não se sustenta sem o pressuposto do progresso. Justamente o pressuposto que está sendo questionado pela ciência agora. Dizer que precisamos de “organização em grande escala” para vencer o Estado e o Capital, como eu espero ter demonstrado, não é um bom argumento, pois não responde ao que foi realmente proposto.

A observação “quem não quiser matar ok, mas se não quiser provavelmente vai morrer” pode ser verdadeira, mas não justifica a manutenção de um mito grego da proeza guerreira como OBJETIVO POLÍTICO, ou como parte necessária da natureza humana.

Você ainda está procurando apenas por limitações materiais para o suposto “desenvolvimento tecnológico” da civilização. Está pressupondo que, se podemos fazer X sem destruir muito o ambiente, por que não? Mas não está considerando uma pergunta igualmente válida: se podemos fazer o equivalente a X sem tecnologia, por que não? Você diz “PODEMOS fazer”, mas não diz “por que DEVERÍAMOS fazer”. Você toma como óbvio. Você ergueu seu caso com base na afirmação de que PRECISAMOS disso no atual contexto, e eu na afirmação de que esse contexto pode ser mudado de modo que isso não será mais necessário.

Por que deveríamos usar a tecnologia civilizada para o bem estar social se podemos viver numa sociedade não civilizada, onde a “tecnologia” não civilizada é suficiente para o bem estar social? Por que não poderíamos deveríamos desenvolver técnicas e ferramentas para possibilitar o fim de nossa dependência da tecnologia civilizada, e o fim desse sistema técnico totalitário como um todo? Não vejo nenhum motivo para manter este sistema técnico em si, e vários para nos livrar dele. E não estou falando de como ele é USADO, mas de como ele se encontra, por definição, ESTRUTURADO na sociedade. Essa é a questão.

Minha hipótese é que defender o sistema tecnológico civilizado como algo natural é uma ideologia política, que se foca em manter o fundamento dessa estrutura sociotécnica e desenvolvê-la, para o bem ou para o mal, mas nunca parar de desenvolvê-la. É uma crença religiosa, tal qual a crença no crescimento econômico indefinido, seja capitalista ou não. Se baseia no mito de que a tecnologia salva o ser humano da hostilidade do meio, dá a ele as condições de sobrevivência que, por uma excepcionalidade, não foram dadas por “natureza”, o homem teve que conquistá-las pela aplicação de uma racionalidade técnica. Tal crença na tecnologia deriva da crença grega na separação mente-corpo, a superioridade do desenvolvimento da “razão”, que é na verdade uma produção cultural, sobre as demais culturas. No final das contas, é uma crença que considera que a vida não vale a pena sem esse sistema tecnológico. É a crença cultural de que a vida humana avançou excepcionalmente com invenções como a lâmpada, por exemplo, o que seria completamente absurdo se levássemos a sério o que a antropologia está dizendo. Enfim, não há possibilidade lógica de manter essa ideia e concordar com a crítica ao colonialismo ao mesmo tempo. Se você insiste nessa ideia, você comete uma contradição parecida com a de defender a libertação animal e acreditar que a agropecuária industrial é natural e deve ser mantida indefinidamente, porque alimenta bilhões de pessoas.

Contra a civilização

Crítica à tecnocultura civilizatória

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Estudando filosofia, sociologia, educação, jogos e civilização.

Crítica à tecnocultura civilizatória

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