Há pelo duas semanas que não durmo direito. O meu sono, que já tem o hábito de ser demasiado leve, se rompe cada vez mais rápido, como uma bexiga mal fabricada. Tem vezes que me assusto, tem vezes que não ligo e há outra vezes que só desisto da minha tarefa noturna.

Eu poderia associar isso a imensidão de pensamentos, excesso de ansiedade ou alguma faceta contemporânea. É bem capaz de estar tudo isso conectado a mim e ao mesmo tempo não ter nada a ver com o que sinto. É provável que seja exercício ou melhor, a faltará dele. Há outras tantas possibilidades, sejam de ordem do corpo, do cognitivo ou do espírito. Tudo isso pode estar acontecendo. Ou pior: nenhuma delas estarem.

O que me faz repensar o descanso, repensar a fadiga que me sujeito e pensar mais uma vez sobre o tempo que passou. Será que ele passou mesmo? Essa noite vai acabar? O que se está fazendo por aí? O que poderia fazer agora?

Acorda. Mas já? Não se passaram 2 horas? Vira pro lado, mexe pro outro. É um travesseiro faltando. É posição que não tá ideal. Esse colchão está mais fundo? Bocejo. Tá vindo! Fecha os olhos que vem. Mas só 15 minutos se passaram? Teto cinza, quarto com luar prateado. Será que tem alguém on-line? Rola, rola mais um pouco. Tá ardendo os olhos. Olha pro teto. Que música é essa que ela falou? Olha o celular novamente. Vou escutar um trechinho. Faixa 1, 2, 3, …, 15. Talvez uma água. Talvez um cházinho. Deita. Mas esse compositor me é familiar. Celular. Vou tentar de novo. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada.

E aí descamba um paradoxo: o descanso é da ordem da ação ou da inação? Como eu vou alcançá-lo? Será que há algo que eu deixei de fazer ou é sobre algo que ainda estou fazendo?

A última noite que passou, talvez não seja a última em claro. Se pede tanto que tomemos os rumos da nossa lida diária, entretanto, há um momento que não há rumos a serem tomados, o instante do timão a ser deixado livre e que se possa navegar tranquilo. Esse pequeno intervalo de vida não vivida é tão inerente e desavisado, que nos acostumamos a deixar ele entrar sem muita cerimônia e, quando ele não vem, não sabemos como chamar. E assim segue uma eterna noite sem fim.

Contra Argumento

The beer wants to be free

A P O L O is natanael freitas

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Refresco de groselha, com sabor de limão, mas parece tamarindo.

Contra Argumento

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