“Eu cheguei no bar e me sentei na mesa mais visível em relação a quem vinha da rua. Era habitual eu chegar antes de todos. Isso sempre foi regra, mesmo morando mais distante dos pontos de encontros. As saídas eram habituais, hoje menos que no passado (para mim), entretanto os locais, os bairros e/ou os estilos eram quase sempre os mesmos. A vida de todos havia mudado das mais drásticas formas possíveis. As emoções e os desgastes envolvidos foram tantos, que hoje evitávamos voltar a esse passado recente, pois era um luxo de sanidade que não queríamos nos dar.

Sempre era eu, o primeiro. Algumas vezes, eu e mais um. Ficávamos às voltas nos assuntos e nas timelines, como se estivéssemos fazendo sala um ao outro. Mas, na maioria das vezes, era apenas eu.

Eu odeio escolher mesa. Simplesmente, odeio. É forte assim, mesmo. Quando se trata de um grupo é que fico puto, pois tem apenas você para segurar uma mesa pra oito, nove, dez pessoas. Mesmo que sejam só 15 minutos de espera, não gosto.

Então têm esses dois fatos: ser o primeiro e não gostar de guardar lugares. Isso mostra o quão desconfortável o começo desse encontro pode ser pra mim. Isso dizia muito, quando analisado o meu percurso de fala na mesa. Eu queria que tudo fosse bem, que os ânimos fossem os melhores, porquanto se o princípio foi ruim, o andamento da noite iria salvar todo o resto. Não que evitássemos certos tipos de assuntos, mas lidávamos da forma mais leve e amistosa possível, para que a noite fosse a mais gostosa lembrança. Essa era a minha esperança e a minha análise final de cada uma de nossas saídas aos lugares habituais.

Depois de alguns goles e passados os mais diversos temas corriqueiros, a conversa desembocava em o que tinha acontecido na vida de cada um desde as últimas atualizações. É uma espécie de conversa de comadres que nos faz ter ciência de que somos importantes e que o outro também é importante para nós. E há aqui um outro ponto habitual: havia sempre um fato que somente um subgrupo de pessoas sabiam. Uma fofoca dentro da fofoca. E os encontros eram os momentos onde (em hipótese) todos seriam atualizados sobre a “subfofoca”.

O que se tornou rotina nisso foi eu saber cada vez menos sobre os assuntos desse nível mais íntimo, mais inferior das vidas dos mais dinâmicos participantes do nosso grupo. Parte disso se deve as minhas próprias lidas diárias, parte sobre a falta de interesse de minha parte de me por a par desse patamar de conversas.

- Você não sai mais com a gente! O que você tem feito?

- Ah, o de sempre. Tenho minha rotina, que acaba me tomando todo.

- Mesmo assim: acho que você tá saindo pouco. É difícil te ver.

- Pois é. É difícil para mim acompanhar vocês. Pra mim não dá tanto como antes.

- Oxe, como assim ‘não dá pra acompanhar’?

- Bem, eu trabalho e, mesmo com tempo sobrando, ainda tem a questão do dinheiro. Você sabe, eu posso não pagar contas de casa, mas todo o resto é por minha conta e ultimamente não tá dando.

- Mas eu também passo por isso…

A partir daí era uma lista de como éramos tão iguais em despesas e afazeres, porém eu escolhia estar mais ausente das saídas diversas, estar ausente dos amigos. A verdade era que realmente era uma escolha, mas uma escolha entre usar meus recursos (tempo e finanças) para fazer meus planos com sossego ou ser cadeira cativa em cada uma das saídas que se sucediam semana após semana.

Eu sei que há uma injustiça da minha parte nesse ponto, porém o apanhado das situações apontava em sua maioria para diálogos assim. Eu nunca me senti ofendido nessas situações, mas o fato é que não expressar isso me adoecia por dentro. Dentro de mim se formava um cemitério de desconfortos em prol da boa convivência ou do não-confronto. Como disse antes, seria um extremo luxo lidarmos com os vais-e-véns emocionais que passamos.

Não é sobre se sentir desmerecido. É sobre sentir que até mesmo nas relações mais firmes pode faltar traços de empatia, às vezes.

Talvez o meu medo de ser desprezado me fez achar que qual quer coisa que vier está bom. Talvez isso tudo é só uma mentira que eu mesmo me contei.”

“Você acha que você é desprezado?”

“Não! De forma nenhuma! Acho que sou bastante amado.”

“Então, o que te falta mais nisso que você chama de ‘ser amado’? Por que sua mente te fez imaginar essa situação?”

“Eu sinceramente não sei.”

Contra Argumento

The beer wants to be free

A P O L O is natanael freitas

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Refresco de groselha, com sabor de limão, mas parece tamarindo.

Contra Argumento

The beer wants to be free

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