O Grande Dia Que Evitei Alguém Jogar Lixo Na Rua

É sempre a mesma cena: você vê alguém fazendo uma coisa errada e diz consigo mesmo “Vontade de brigar/bater/matar (!) uma pessoa dessa!”

Isso não significa de forma alguma que você irá tomar qualquer uma dessas atitudes. Aliás, geralmente (porque não, sempre), você não tomará nenhuma atitude. Apenas resmungará um pouco, achará que aquela pessoa é uma acéfala, que não pensa no mundo nem nos outros e seguirá sua vida.

Isso é errado? Não. Nem todo mundo tem a obrigação de ter o feeling de um ativista do Green Peace, de fazer uma barricada de lixo na frente das pessoas que “imundificam” (vou utilizar aqui a minha cota de licença poética, me legada para a vida inteira, para criar esta palavra) este maravilhoso planeta, que é a Terra. Não. Nem eu, nem você temos obrigação disso. Na real, a obrigação nossa é fazer o que é certo e justo. Não ter uma atitude igual à daquela pessoa, esse é o nosso dever.

Mas o peso de culpa pela omissão… isso é algo que se carrega pela vida.

Pois bem, houve um dia que tudo isso mudou. Pra ser específico, sábado passado. Eu, no meu melhor estilo bad guy, sentado à janela do ônibus, noto que a mulher do meu lado tinha acabado de comer uma barra de chocolate. Eu sabia e qualquer outra pessoa saberia o que ela ia fazer. Você sempre sabe que a pessoa do seu lado vai fazer a porcaria de jogar lixo pela janela, quando ela fica impaciente com o papel de bala, plástico etc. na mão dela. “Não hoje, bebê”, pensei eu, focado na mão dela.

Demorou: Subiu gente, desceu gente, coça braço, coça cabelo, olha celular, olha pro motorista, olha aquele menino barulhento do lado, olha a mãe dele sem fazer nada, olha o cara do lado encarando tua mão como se ela fosse uma barra de ouro (era eu). Decidi parar de olhar, pois já estava bem constrangedor.

Foi esse momento. Parece que o cérebro dela disse “Não aguento mais esse plástico no meu corpo. Fora!” Então a mão dela foi até a janela.

Esse momento foi mágico; sério, não lembro como consegui ser tão ágil. A minha mão já estava sobre a dela, arrancando o lixo da mão dela. “Pode deixar. Eu jogo no lixo pra você”, disse eu, após virar lentamente a minha cabeça, encará-la sob os meus óculos escuros e retornar a cabeça para a posição inicial.

A mulher sorriu de forma amarela, tocou minha coxa e disse “Ah, obrigada.”

Quando eu levantei pra sair dali, foi como se o Queen fizesse um show particular na minha cabeça. Havia um calor sobre as minhas costas, como se os assentos explodissem a cada passo que eu desse.

“Eu fiz, enfim, eu fiz”, repetia, embasbacado, um garoto de 12 anos na minha cabeça. Não me sinto como um integrante-mor das mais radicais ONG’s ecológicas do mundo, mas realizado por ter feito um passo a mais, além do meu dever, e quiçá fazer aquela mulher mudar de ideia.

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