Parangaba/Castelão

O clima agora era outro. O casal já não trocavam beijos e as carícias tornaram-se diminutas. As mulheres olhavam o exterior do veículo, como se essa fosse a sua fuga de realidade. Os homens, duros como vigas inexpressivas, tentavam à sua maneira permanecerem assim. Éramos todos espólios de uma batalha que não defendíamos. Fomos tomados de nosso momento individual para entrarmos em uma tensão coletivizada.

Os guerreiros deixavam sua arena. Partiam rumo a glória alcançada aos pedaços. A sua vitória era o êxtase de suas almas encaminhadas ao inferno futuro. Só importava-lhes o momento grandioso que os fora imputado ao término da disputa. Os seus cantos, aos berros, eram proclamados para a estrada e aos céus.

O que fazíamos nós ali? Qual era nossa parte nisso? O veículo e nossos corpos foram lhes dado como despojo de uma guerra desconhecida? Os questionamentos nos eram apenas internos, pois o palpável pânico assolava nossos espíritos. Cada um vindo de diferentes locais e encaminhados a diferentes destinos, fomos todos unidos por um só sentimento e lugar.

O júbilo da vitória não cessava. Sim, eles eram campeões. Mas queriam mais; não bastava só aquela batalha, eles queriam a guerra inteira. Bradavam ordem aos que são seus algozes, pois a conquista e a coletividade os resguardavam de represálias. Porém, eles tinham certeza de algo: ainda não tinha acabado. Havia um último estágio a enfrentar; era a última parte, das mais intensas, de uma galopante ida a glória total.

Não sabíamos mais o que esperar. Gritos e berros pornográficos nos preparavam para um enfrentamento. A mistura de tensão e gozo, calor e medo. Entraríamos nós em um dos lados para termos de nos safar da violência? Não sairíamos ilesos dali, se mais uma briga começasse. Apesar de toda a balbúrdia, só aguentávamos procurando a paz em nós mesmos. Entretanto, um confronto seria pior principalmente para nós.

As luzes do carro se apagam. As luzes incandescentes dos postes desenhavam o chão em sentido horário, marcando um tempo que não queriam constatar. Apesar dos uivos e chiados, tudo fez-se silêncio nos ouvidos, como se aguardássemos o primeiro estilhaçar de vidro. Segundos ampliados nos roubavam o fôlego, nos dando um último apreço de vida.

O ônibus passa ileso pela área de dominação rival. Fim de uma tarde sábado, pós partida de futebol.

Contra Argumento

The beer wants to be free

A P O L O is natanael freitas

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Refresco de groselha, com sabor de limão, mas parece tamarindo.

Contra Argumento

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