A primeira vez que encarei o caroço, eu comecei a pensar no que eu fiz de errado. Desejo como um pobre coitado uma oportunidade de redenção, uma máquina vinda dos céus que me desse de volta os momentos que errei, tais quais os vivi, e poder refazê-los. Quão estúpido eu me sentia. Quão inútil me era clamar de novo pelas faltas cometidas, mesmo sabendo que o desejo de reescrevê-las nada mais era que o fruto podre de um remorso.

A felicidade não é para mim. Não agora.

Por que eu fiz tudo isso? Será que não dava pra viver dentro de um modo mais seguro? Será que não foram avisos suficientes de pessoas especializadas ou de outras tantas acometidas por maus parecidos?

Em nenhum momento me veio vontade de chorar. Eu sentia que nada adiantava demonstrar emoção diante da frieza da sala de consulta, diante da naturalidade do especialista me contando os passos a tomar dali pra frente. Eu me sentia menor, sentia culpa, sentia nojo do prazer da vida vivida. Eu sentia nojo de mim. Eu só conseguia escutar palavras soltas.

Vírus. Cuidados. Procedimento. Simples. Anestesia. Recuperação. Cuidados.

“Vai ficar tudo bem.” Eu nunca vi uma expressão que se esvaziasse tão rápida de significado quanto essa. “Não tem nada de bom aqui” Eu pensava, como alguém que observa uma cena de terra arrasada. Haviam muitos sentimentos dentro de mim, muitas incertezas de enredo, muitas improbabilidades. A minha mente parou de imaginar a minha própria história. É como assistir um seriado sabendo ser a temporada final.

“Quanto drama!” Eu estava na rua, indo pra casa. Uma Aldeota de muros baixos, paredes floridas e ruas vazias se abria na minha frente. Eu não tinha mais certeza se aquilo era fato, se eu realmente vivia naquele momento ou se estava dentro do consultório, imaginando uma outra vida naquele momento.

A apreensão e a ansiedade são como formigas carnívoras. São pequenas e fáceis de se livrar, quando poucas. Porém o perigo reside no somatório de suas forças, que te devoram por cada buraco que podem entrar e se esconder. Os dias foram passando e eu me sentia em carne viva, sangrando e sangrando. O silêncio era meu escudo e a solidão o meu esconderijo. Eu não me sentia a salvo, só me sentia imundo e contaminado. Eu não precisava ser um fardo pra ninguém.

Do anúncio ao dia do procedimento, das recomendações aos dias de recuperação, só o silêncio me era permitido. Foram os dias mais infelizes da minha vida. “Nós tiramos antes que ficasse algo intratável. Que bom, não é?” Por que eu não via nada bom aí? Por que não me fazia sentido ser feliz depois de toda aquela tempestade? Era como se a doença ainda me rondasse, como se as suas sequelas fossem sentidas e ampliadas. Não havia o que comemorar. Ainda tinha um problema, a cura não havia chegado. “Agora você pode viver uma vida normal?” Isso é o que menos fazia sentido pra mim, pois não tinha o que viver. Era como ser após todo o procedimento, depois de retirado todo o mal, o bem que também estava ali fora retirado ou contaminado. Era como estar vazio.

Passou-se tanto tempo desse momento e a vida que não tinha possibilidades seguiu. É bem capaz, na verdade que aquela vida tenha morrido, que as células cancerosas fossem também uma parte vital que se fora numa fria sala de cirurgia. E o que restou de oco se preencheu de uma nova vitalidade, mas nem de longe igual a anterior.

Contra Argumento

The beer wants to be free

A P O L O is natanael freitas

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Refresco de groselha, com sabor de limão, mas parece tamarindo.

Contra Argumento

The beer wants to be free

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