Rubem Fonseca: leia-o

Rubem Fonseca, de Juiz de Fora (MG), mas radicado no Rio de Janeiro desde os 8 anos, tem 90 anos, 17 coletâneas de contos, 12 romances, 1 livro de crônicas, participações e produções de roteiros para cinema, várias obras adaptadas para televisão e cinema, mais de 15 prêmios recebidos — o último concedido este ano pela Academia Brasileira de Letras, Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra –, diversos estudos, análises e trabalhos acadêmicos sobre sua obra e mais inúmeras traduções delas para o inglês, alemão, espanhol, francês e italiano. E, ainda assim, muitos não o conhecem. Então, deixe-me fazer minha parte na divulgação da obra fonsequiana:

Se nos voltarmos para meados do século XX e para o que era produzido literariamente no Brasil, veremos que vivíamos a Terceira Geração do Modernismo (1945–1960), marcada por uma literatura de cunho mais intimista, de abordagem psicológica e introspectiva — a exemplo de Clarice Lispector — e via-se também a busca pelo regionalismo — a exemplo de Guimarães Rosa -, e os anos seguidos de 1960 até a atualidade são denominados por estudiosos de Pós-Modernista ou de Tendências Contemporâneas.

Acontece que enquanto muitos escritores modernistas até os idos dos anos de 1950 continuavam ligados de alguma forma ao “projeto modernista”, procurando estabelecer a “língua brasileira”, com uso de coloquialismo e de personagens que eram arquétipos brasileiros, surge Rubem Fonseca na contramão desse cenário, fazendo uma literatura seca e objetiva, diretamente influenciada pelas literaturas inglesa e americana, principalmente por esta última, devido aos anos em que morou nos Estados Unidos. Isso fez, de alguma forma, com que a literatura brasileira se aproximasse da literatura norte-americana e se afastasse da literatura ibérica. Por si só, esta já seria uma grande razão para se ler Fonseca. Porém, há mais.

O primeiro livro publicado por Rubem foi uma coletânea de contos chamada Os prisioneiros (1963). Já de início chamou atenção de críticos de renome, como Assis Brasil, crítico do Jornal do Brasil à época.

Ontem lamentávamos a escassez de bons livros de ficção durante este ano. Podemos agora destacar o volume de contos de um estreante, Rubem Fonseca (Os Prisioneiros — Edições GRD — 63), no nível de qualidade dos poucos lançamentos. Sua presença como criador, com algo de originalidade, leva-nos a destacá-lo com entusiasmo. A própria conformação de sua técnica, múltipla, independente, mostra-nos um escritor de recursos vários, desde os de estilo aos de invenção
- Jornal do Brasil, 18/10/1963

A partir daí a crítica e o público voltam seus olhares a esse novo escritor que surgia no cenário brasileiro. Suas narrativas possuem características peculiares: uso de elementos da oralidade e da ordem direta na estruturação de seus textos; influência do cinema, o que fica evidente nas cenas construídas e nos cortes abruptos entre uma ação e outra; e temáticas voltadas à violência nos grandes centros urbanos, solidão dos indivíduos, obsessão sexual como alternativa ao vazio da existência, amoralismo dos transgressores da ordem, entre outros temas. Por inserir ou tratar disso de forma inovadora na literatura brasileira, diz-se que Rubem Fonseca inaugurou a tendência contemporânea denominada brutalista.

Dentre todos os aspectos das narrativas de Rubem Fonseca, provavelmente o que mais se destaca para quem o lê é a temática da violência. Isso devido a não somente a maneira como o autor a expõe, de modo cruel e meticulosamente narrado, mas também devido ao uso de um gênero narrativo até bem difundido literariamente: o gênero policial. Entretanto, ao pegar qualquer obra de Fonseca para ler, não espere dramas policialescos iguais a de Conan Doyle e detetives como Sherlock Holmes. Rubem constrói suas narrativas quase de modo a subverter o romance policial. Pouco interessa quem cometeu o crime, as pistas que levam ao assassino e como ele será punido no final: isso tudo é o de menos nos livros de Rubem. Para ele, interessa a selvageria do crime, o mundo infame e sujo, a moral e a ética dissolvidas, a amoralidade e falta de remorso ou culpa dos “bandidos”, a frieza e perversão, o horror, o vazio da alma. Não há mocinhos ou vilões. Não há maniqueísmo. Há apenas uma atmosfera de violência latente que pode vir à tona a qualquer instante e que, muitas vezes, emerge evidenciando todas as contradições sociais existentes.

Se você quer se deparar com o que há de mais cruel e sujo e infame e amoral e violento daquilo que nos constitui enquanto seres humanos e se quer entender, como um dia alguém bem definiu numa conversa, como o Fonseca determinou o fim da ingenuidade na literatura brasileira, faça apenas uma coisa: leia-o.