Adeus, Google

Maurício Szabo
Sep 3, 2018 · 5 min read

Do Don’t be Evil para o Please, be Evil

Há alguns anos, o Google vem ganhando uma força incrível. Infelizmente, com a minha última experiência, vou começar a dar adeus aos serviços que uso do Google — aos poucos, devagar, porém constantemente. Não dá mais.

Tudo começou nos primórdios da internet. Com o bonito slogan Don’t be evil (não seja mau), o Google ganhava força como buscador, indexador, e adquiria dezenas de outros serviços e arriscava em outros pontos: mapas (indexação de ruas), pacote office (indexação de documentos), vídeos (indexação de conteúdo), e o mais danoso e aonde o Google realmente ganha seu dinheiro: propagandas.

Propagandas, nesse caso, é uma indexação de pessoas — sentimentos, vontades, perfis, compras, e atividade conhecida, o que é a parte mais perigosa. O Google não pode ganhar dinheiro se usuários não clicarem em propagandas — até aí, tudo bem. Esse é um direito deles, e o serviço não sobrevive sem ganhar dinheiro.

O problema é sempre o mesmo: abuso. Eu ia escrever sobre como a ganância vai matar o Android eventualmente, mas basicamente hoje praticamente todos os aplicativos Android que temos tem algum tipo de propaganda — e às vezes, não importa se pagamos por eles ou não. Há jogos que são gratuitos, cheios de propagandas, e você paga para a remoção delas por um tempo. Parece que isso não é culpa do Google, mas também o é: o Android, sistema mantido pelo grupo, possui APIs (interfaces disponíveis para o programado) que facilitam a inseção de propagandas, a inserção de pagamentos por dentro do aplicativo, e popups/notificações/rodapés ou cabeçalhos que apresentem propagandas. Já foram vários jogos interessantes que eu deletei do meu Android simplesmente porque a dinâmica era “passar de fase — propaganda; começar fase — propaganda; comprar algo — propaganda”. Além disso, o Google possui uma ferramenta para fechar uma propaganda e avisar que ela é intrusiva (vi várias vezes, cobre o conteúdo, entre outras possibilidades), que não funciona. E não vamos falar das propagandas que instalam malware no celular né…

Agora, vamos aos serviços: uma viagem que eu fiz no começo do ano foi inteiramente monitorada pelo Google, que sabia: aonde eu passei; qual meio de transporte usei; quais postos de gasolina eu parei; quais hotéis eu me hospedei; quantos dias fiquei, quantos km eu andei, inclusive em outro país aonde eu não tinha internet. Logo que voltei da viagem, desabilitei completamente esse recurso. E surpresa! Alguns serviços do maps (localizações salvas, percursos salvos) não funcionam mais! E o Google me informa que só terei acesso a essas informações se eu deixar ele me rastrear (o serviço tem um nome bonitinho: “location history”). O que o Google não se lembra é que eu já usava “locais salvos” antes deles implementarem a “location history”, e além do mais, uma coisa nada tem a ver com outra.

Ou, o YouTube — apenas o site oficial do YouTube em um computador é autorizado a tocar música em segundo plano — mais nenhum serviço o é. O YouTube Premium, serviço pago, permite no Android — o que, novamente, não é uma limitação técnica. Além disso, ele é totalmente inflexível em relação a músicas e copyright (mesmo que você use um trecho pequeno de uma versão de uma música, ou mesmo que você assine um contrato de poder usar aquele trecho da música, o YouTube não te permite usar, ou permite com algumas condições como a obrigatoriedade de passar propagandas). E por fim, as regras de monetização (mudam sempre, sem motivo) e regras arbitrárias sobre linguagem permitida fazem os criadores nunca entenderem se seus vídeos serão permitidos ou não…

Agora, o navegador — Chrome. Com todas as vantagens, ele faz o possível para tentar rastrear seu comportamento na internet: inclusive, no Android, ele “decide por você” que sua conexão está lenta, e exibe uma versão “lite” da página — claro, versão lite que está hospedada no próprio Google… além disso, cada nova versão adiciona uma feature que você não pediu, não foi avisado, e não pode desabilitar: por exemplo, o Google Chrome detecta links na página que você está navegando, e já os carrega em segundo plano, para que você tenha a impressão que o navegador é mais rápido que os concorrentes… claro, a custo de sua conexão de internet degradando.

Mas, realmente, o que me fez sair do Google foi a última pesquisa que eu fiz. Eu precisava trocar de celular, e consultei no Google (buscador) os modelos que eu queria. Ele me direcionou para a página dos fabricantes. Entrei na página de um fabricante, olhei os modelos, gostei de um, vi mais informações, e saí da página. Imediatamente, recebi um e-mail do fabricante: “seu model XYZ de celular está te esperando, compre conosco!”.

O quê? Quer dizer, mesmo atualizando todas as minhas políticas de privacidade, avisando que não queria ser rastreado o Google:

  1. Entregou meu e-mail, de graça, pro site que eu visitei
  2. Permitiu que o site correlacionasse meu e-mail com a visita do site, e rastreasse todo o meu andamento dentro do site
  3. Permitiu que o site me enviasse um e-mail, logo após o fechamento da página, e sobrescreveu minhas configurações de SPAM para que o e-mail viesse na minha caixa de entrada (porque eu já tinha reportado SPAM para aquela empresa)

E claro, os links que são enviados e recebidos pelo GMail são re-escritos pelo Google para, novamente, rastrear seus movimentos… e uma boa parte dos links que são re-escritos pelo Google não são exibidos na barra inferior do Chrome — ou seja, o próprio navegador esconde que aquele link agora aponta pro Google, e não para o lugar certo.

Se isso não é um Please, be Evil, eu não sei mais o que é…


Em tempo: há uma versão do Chrome que não tem os rastreamentos: Chromium. Provavelmente vou aos poucos migrar para ele, ou para o Brave ou Vivaldi. Firefox está consumindo muita memória no momento para mim, então provavelmente não será possível uma migração.

Para substituir o Google, estou usando o DuckDuckGo. Ele obviamente não tem integrações com os serviços do Google, mas é muito mais seguro usá-lo e também.

Google Maps eu já não usava para navegar pelos lugares. Eu uso o Here We Go no celular (ele tem mapas offline e gasta MUITO menos bateria). Sobre o Google Drive, provavelmente vou pensar numa solução, mas provavelmente será algo auto-hospedado. Blogs eu já tenho o meu próprio da Wordpress, também auto-hospedado.

Enfim, aos poucos, vou recuperando meu direito de não ser rastreado. Há quem diga que é inevitável — talvez seja — mas eu prefiro acreditar que um direito que eu ainda tenho é o da privacidade.

Contra fluxo

Idéias sobre fazer e pensar coisas diferentes do que a maioria das pessoas, que fazem da vida algo mais saudável.

Maurício Szabo

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