Ensaio Sobre Honestidade

Pensamento rápido sobre o prazer de apoiar um criminoso.

De tempos em tempos eu gosto de imaginar que não moro no Brasil. Que moro em algum lugar encantado aonde as pessoas são honestas de verdade, aonde a maioria das pessoas quer fazer a coisa certa. Infelizmente, a realidade costuma bater na porta nessas horas.

Uma quinta-feira de manhã, estava no trem. Ando só uma estação, e não passo pelas áreas mais perigosas de SP, o que elimina aquela clássica discussão de “mas isso é coisa de quem tem menos dinheiro” ou algo assim.

Basicamente, como sempre, um vendedor entrou no trem vendendo chocolates. O que foi diferente, dessa vez, foi a abordagem — ao invés do tradicional “lá fora você encontra por tanto, na minha mão só uma moedinha de…”, a abordagem dele foi começar falando do jornal da manhã, e como uma carreta virou, e que ele sem querer querendo pegou várias caixas de chocolate. E claro, o preço era só por hoje porque a carreta não vira todo dia no mesmo lugar.

Reações — as pessoas riam, outras compravam, outras comentavam sorrindo. Acho que, provavelmente, eu fui um dos únicos que se assustou com essa postura. O cara literalmente disse “roubei essa mercadoria de alguém, estou vendendo pra vocês”. Isso não é motivo pra ser engraçado. Isso é, e sem adocicar a palavra, um crime.

Mas, estranhamente, para alguns aquilo era engraçado. Queria saber também se é engraçado quando assaltam um carro para vender as peças. “Bom dia pessoal, estou aqui divulgando meu trabalho. Quem viu o jornal hoje deve ter visto que teve um arrastão hoje na zona sul de SP. Eu, sem querer querendo, estava passando por lá e por isso estou vendendo celular novinho pra vocês, um por 50, dois por 100. Celular Samsung, celular Motorola, só cinquentinha”.

Assustador não?

Isso me lembrou também de quando, há alguns anos atrás, eu visitava eventos de quadrinhos. E como haviam, dentro dos eventos, pessoas que legendavam series (que provavelmente não passariam no Brasil), depois simplesmente gravavam CDs e saíam vendendo dentro dos eventos, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E como as pessoas também compravam como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Na época, existiam sim grupos que faziam legendas amadoras de séries que não tinham sido registradas por nenhuma empresa. Entretanto, esses grupos disponibilizavam seus trabalhos gratuitamente, na internet, ou vendiam CDs / DVDs a preço de custo, e se obrigavam a, uma vez que a série fosse registrada por alguma empresa, retirar o material do ar. Continuava sendo pirataria, mas havia de certa forma um mínimo código de ética que os grupos seguiam.

Hoje, pessoas riem quando alguém fala que furtou encomendas e está revendendo-as. E há quem diga que o Brasil é um país de honestos, e que os poucos desonestos estão no governo…

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