O Teatro da Democracia no Brasil

Ou, cobertura de camarote numa manifestação

Eu trabalho na Paulista — esquina com a avenida Consolação. Palco (trocadilho bem colocado) da maior parte das manifestações que acontecem em SP.

Hoje, dia 04/12/2015, sexta-feira, eu cheguei para trabalhar com uma manifestação ocorrendo. Há meses um grupo de estudantes, junto com APEOESP, estão protestando contra reorganização de escolas em São Paulo. No momento desse post, existem 190 escolas ocupadas em São Paulo, e várias manifestações ocorrendo. Além do óbvio silêncio sobre o assunto, houveram prisões, truculência, etc — coisa normal em São Paulo, quando o assunto são manifestações. Obviamente, não deveria ser uma coisa normal, porém é — sempre que há uma manifestação, o grupo de manifestantes deve se preparar para um confronto que pode deixar feridos e presos sem absolutamente nenhum motivo, ou com as motivações genéricas de “perturbar a ordem pública” ou “resistência à prisão”, ou “desacato de autoridade”. Mas não é sobre isso que eu vim falar hoje — eu vim falar sobre teatro.

Terceiro Sinal — começa a peça

Essa manifestação de hoje, ficou óbvio desde o começo, foi um teatro para atrair a PM e fazê-la abusar da força. Começando pelos policiais fechando a entrada da Consolação, e os manifestantes continuando o protesto pela Paulista. Depois, ao invés de fazerem uma marcha pela Paulista inteira, fizeram uma marcha por parte da Paulista, retornaram, e pararam na esquina da Consolação. Simplesmente pararam. Uniram-se, cantando, esperando preparando-se para algo.

Na frente da Praça do Ciclista, policiais começaram a se unir. Esperavam também, preparando-se para algo. Nenhuma conversa, nenhum megafone, nenhuma ordem, absolutamente nada — apenas pararam, como atores esperando para fazerem seus papéis.

Aqui está óbvio o teatro — há um grupo de atores que irão interpretar o papel dos oprimidos, fugindo da mão invisível do sistema. O outro grupo, também de atores, interpretarão os membros do sistema — atuarão, sem perguntar, sem questionar, contra os atores que farão o papel dos oprimidos.

Ato 1 — Definição da rota de perseguição

Pouco tempo depois, dois policiais com motocicletas param ao lado de seus amigos. Câmeras começam a ser sacadas — dos manifestantes, dos policiais, das pessoas na rua.

O teatro moderno é gravado. Assim, depois, podem-se fazer os cortes dos melhores momentos. E, assim como no teatro, quem assiste pode ver todos os lados da história, na gravação mostra-se apenas um lado — aquele que um grupo quer ver. É, basicamente, essa a diferença entre o teatro e o cinema.

O último grupo de atores chega, finalmente. A tropa de choque, com escudos preparados, fechando a Paulista. Os policiais com moto, agindo de acordo com seu papel, fecham uma das rotas de fuga, deixando apenas a Consolação — especificamente, sentido elevado Costa e Silva — livre. A rota de fuga está traçada, e o roteiro agora é revisado por ambos os lados — todos os atores dessa peça sabem que o palco se resume à metade da Consolação.

Começa a peça. Os estudantes viram-se para a tropa de choque. O choque prepara a parede de escudos — alguns pixados — e voltam-se para os estudantes. Os outros policiais preparam-se, esperando. Cantoria, tensão, espera, câmeras, tudo está no ar nesse momento.

Ninguém conversa. Ninguém dialoga. Ninguém sequer dá ordens. Todos sabem seus papéis, é desnecessário uma conversa. Só falta chegar o gatilho que dará o clímax.

Ato 2 — os oprimidos oprimem

Do nada, uma mulher chega. Os mais ingênuos podem dizer que ela é uma cidadã, mas o olhar mais crítico mostra que ela, também, é uma atriz. Tudo bate — uma mulher mais velha, com cara de boa moça, indignada com o que está acontecendo. Todos se olham.

A mulher, então, questiona os estudantes. Desmerece seus protestos — “Pelo menos eu não estou atrapalhando a vida das pessoas”.

Então, os estudantes começam a bater boca com ela. Forma-se um grupo de estudantes ao redor, tentando argumentar. Não há violência — é um teatro, afinal — e a mulher derrama sua indignação contra um grupo imenso de estudantes. Obviamente, se isso fosse a vida real, a mulher sairia correndo assustada. Mas não — ela fez seu papel, e continuará fazendo-o.

Um grupo de estudantes parece perceber, de repente, o teatro. Começam a gritar: — “Ignora, ignora!”. Mas já é tarde demais. Tão logo a mulher se esquiva dos estudantes e vai embora, o choque lança suas bombas.

Ato 3 — Perseguição

O estouro é alto. Estilhaços voam até a sacada o prédio em que eu trabalho, meu camarote.

Os estudantes fogem, a polícia corre atrás deles. A peça terminaria aqui, porém lembrem-se: o teatro moderno conta com a tecnologia, conta com câmeras e gravação.

Acompanho o resto da peça pelo Camerite, um serviço que mostra a imagem das câmeras. Na consolação, há 3 — a mais próxima da Paulista eu quase perco o pedaço. Às 11:11, mais ou menos, a primeira câmera mostra o pessoal correndo — e a fumaça de uma bomba de efeito moral subindo. Michael Bay deve estar orgulhoso de ver seus efeitos especiais no teatro. Pessoas paradas no ponto de onibus dispersam, e algumas pessoas que atravessavam a faixa voltam correndo ao ouvirem o som de outra bomba explodindo…

Cerca de cinco minutos depois, a confusão chega na próxima câmera. Lá, a coisa já é mais confusa — numa área com muito mais gente, transito e confusão, soma-se a confusão das pessoas correndo. Lá, é gás lacrimogêneo — no meio do ponto de onibus.

Fim do ato — lembrem-se de pegar seus pertences…

Assistindo de tudo da sacada do prédio de meu trabalho, após o final da peça, comento com nossos amigos como foi péssimo o roteiro. Sério mesmo que eles esperavam que a gente iria engolir essa história da “tiazinha moralista” que vem bater boca com um grupo de manifestantes? Sério mesmo que ninguém pensou, no roteiro, de colocar uma única fala para os policiais, algo simples do tipo: “Olha, vocês precisam liberar a esquina da Consolação. Daqui a pouco a gente vai receber uma ordem de liberar usando bomba, e aí a coisa pode sair do controle… estou tentando resolver amigavelmente, depois que a gente receber a ordem já não dá pra garantir muita coisa…”

Sério mesmo que esse roteiro é tão ruim assim? Lembrou-me das óperas antigas aonde sempre havia um papel que era o mudo — aquele que não cantava e que não tinha falas — que normalmente era representado pelos atores mais jovens, que ainda não tinham técnica vocal mas que tinham talento pra, no futuro, ter um papel melhor.

Reparo em meu camarote pela primeira vez desde o início da peça. Ele não tem cadeiras, nem pipoca — e, de repente, me lembro que isso não é um camarote.

Não é um teatro.

Ou, ao menos, não deveria ser.