Pensamentos pós-viagem

O que ficou na minha cabeça após viajar 6 mil quilometros de moto

Um belo dia, surgiu uma idéia que parecia idiota: viajar até o Uruguai de moto. De onde eu vivo, SP, isso daria 2.500km, mais ou menos, e exigiria várias paradas.

Apresentei a idéia para minha esposa, que topou prontamente — e então fomos ver documentação, e outros detalhes para a viagem. Por problemas que não valem a pena mencionar, não conseguimos fazer a viagem — o que foi uma sorte, pois na época tínhamos uma moto muito fraca (uma Ténéré 250cc), que tornaria a nossa viagem impossível — mas só descobriríamos isso muito depois…

Esse ano, finalmente, conseguimos fazer nossa viagem. No meu trabalho, desejos de “boa sorte” e aquela brincadeira: “não vai esquecer dos projetos aqui, hein?”, ao passo que eu respondi: “olha, são mais de 5 mil km, existe uma grande possibilidade de que eu nem sobreviva!”. Rimos juntos, e numa sexta-feira, parti.

E eu morri nessa viagem. Não literalmente, óbvio. Mas uma parte de mim morreu, e eu ainda preciso me entender com isso.

Moro numa grande metrópole, um dos lugares com os melhores empregos e os maiores salários do Brasil. Ganho um salário bom, que me sustenta e sobra sempre um valor para investimentos. Pensando no que a sociedade nos dita, eu sou “um homem de sucesso”. Esse “homem de sucesso” ruiu frente aos caminhoneiros com os quais conversamos, aos Uruguaios com sua calmaria, à tranquilidade das ruas dos lugares aonde passamos, ao simples fato de atravessar a rua na faixa sem olhar para os lados. Esse “homem de sucesso” morreu, e agora sobrou um homem que se sente fracassado.

Na viagem, experimentamos muitas coisas — conversar com uruguaios no meio da cidade, despretenciosamente, sem nenhum motivo e sem saber falar espanhol; participar de uma “roda de mate” com gaúchos, conversando sobre absolutamente tudo; bater papo com fazendeiros, caminhoneiros, funcionários públicos, todos muito felizes de suas vidas (o fazendeiro, inclusive, mora numa cidade cuja população se mede em centenas); ganhar um convite para se hospedar na casa de uma pessoa que acabamos de conhecer; nos hospedar na casa de uma amiga que não vemos quase nunca, e sentirmo-nos tão em casa que não queríamos sair; fazermos um lanche na “sacada” de um hotel na praia (a sacada, no caso, era um espaço aberto pra rua, sem cerca, portão ou muro), e não ter uma única pessoa olhando, analisando, ou mexendo conosco; poder andar à vontade pela cidade, com a roupa que for, sem qualquer tipo de julgamento/olhares/comentários, sem stress, buzinas ou barulho excessivo; comer comidas deliciosas em shopping, na rua, em lugares semelhantes à botecos ou mesmo compradas de uma loja de conveniencia do posto de gasolina, e não passar mal ou sequer ter uma azia leve…

Todas experiências que eu não consigo imaginar, sequer cogitar, viver na cidade aonde eu nasci. Me senti em casa num país do qual eu sequer falo o idioma.

Voltei pra casa com uma sensação ruim no peito. De repente, aquele stress todo de grande cidade não vale mais a pena — não, na verdade, nunca valeu, e eu sempre soube disso, mas depois de 6 mil km conhecendo outras formas de vida, a sensação foi pior ainda. Me senti oprimido e desesperado de ter que passar, novamente, por toda a experiência de pegar 1 hora e meia de transporte público para ir ao meu trabalho — basicamente, perder 3 horas do meu dia em indas e vindas, apertado desumanamente em toneladas de ferro, espremido entre outras tantas pessoas que vivem o mesmo que eu, ou até pior.

E tudo isso, por quê? Um salário no final do mês, do qual eu não consigo aproveitar quase nada porque moro num lugar cheio de gente, aonde uma simples ida ao parque da cidade estressa tanto que não vale a pena o esforço. Conversar, às vezes nem com o meu vizinho. O dinheiro custeia o alto custo de vida da cidade, os entretenimentos super-faturados, e o valor que eu gasto para manter o padrão de vida que eu não gosto. Olhei pela janela do meu prédio, já sentindo o meu nariz tampar e surgir uma falta de ar por ter desacostumado com a poluição, e pensei: “aonde eu me encaixo nisso tudo?”.

Seis mil quilômetros depois, vários pedaços de mim ficaram na estrada. Uma grande parte ficou em Montevideo, em seus parques aonde podemos andar, praticar esportes, conversar, sem medo de malandros de qualquer tipo; em sua população amistosa e despreocupada querendo puxar conversa sobre qualquer assunto; em seus jornais televisivos mostrando apenas esporte, porque não havia muito o que passar fora “ventos fortes derrubaram uma árvore no muro de alguém, ninguém se feriu”, ou “greve do lixo tem 4 dias, e a cidade está improvisando uma coleta” (a cidade estava mais limpa que SP, com sua coleta funcionando). Uma menor parte, ficou em Rio Grande do Sul, embora eu não saiba ainda determinar uma cidade. Sobrou um resto, uma migalha de mim, que ainda pertence a SP, mas que não é suficiente para sustentar mais a forma de vida que eu levo.

Hoje, eu estou juntando essas migalhas, pegando os pedaços, e juntando com um novo “eu”, que surgiu nessa viagem. Uma nova pessoa que nasceu da morte do antigo. Mas confesso que eu ainda não sei direito como lidar com isso tudo.