A subida do Monte Carmelo: a metafísica do ser diante do Absoluto.


“Mestre, onde moras?” (Jo 1, 38–39). A caminhada espiritual de uma sociedade é a caminhada espiritual de seus homens; sua alma, o reflexo simbólico das almas de seus reis, sacerdotes, heróis e camponeses. A questão do discípulo ainda é capaz de provocar uma reflexão filosófica e espiritual nos “pobres filhos de uma sociedade que já não reconhece o Mal” ?[1]

É convencido de que. em verdade, nenhuma outra outra resposta é capaz de saciar a sede do intelecto humano senão aquela dirigida ao “ubi habitas” que proponho o pensamento da doutrina teológica de São João da Cruz, doutor da Igreja e primeiro carmelita descalço, à luz da filosofia clássica de Dionísio Areopagita e sua metafísica-ontologia. Felizmente ou não, estas palavras não são jamais o relato de um santo que tão bem experimentou e tampouco são o veredicto de um grande filósofo; são, muito antes de tudo isso, as memórias e reflexões de alguém que não deixa de se espantar ao encontrar em um homem do século XVI um tesouro incomparável.


Há muito, já haviam compreendido os Padres da Igreja que a expressão total da Trindade lhes era impossível. Não por linguagem ou raciocínio: por natureza. Como era possível que o corruptível penetrasse nos átrios de algo que não era capaz de ser sequer pensado em sua grandeza ? O Princípio Primeiro, em verdade, jamais seria decifrado, pois Ele é, e sendo presença infinita, é em perfeito mistério.

Esta formulação de incognoscibilidade total da Presença Infinta não era, de modo algum, algo que distanciasse aqueles homens de seu Deus; tudo possuíam desde que o Logos havia se feito carne. A Encarnação do Verbo não era somente a razão de sua fé, mas também a mais perfeita synthesis. O Princípio caminhara com eles, comera com eles, navegara com eles e os amara com amor infinito.

Neste momento está contido o primeiro germe da metafísica do caminho espiritual. Afinal, este conhecimento se dá pelo encontro de duas existências transcendentes: a infinita divina e a limitada humana. O homem, colocado diante de um realidade que não é capaz de apreender, está obrigado a voltar o intelecto também para a sua existência diante deste Absoluto. É um erro gigantesco considerar a teologia como a mera localização do Infinito como objeto diante do indivíduo: é o homem que está colocado em frente ao Eterno.

O mais claro reflexo intelectual desta realidade encontra-se no neoplatonismo de São Dionísio, o Areopagita (ou Pseudo-Dionísio). A tradição relaciona sua conversão ao próprio Paulo, e a contribuição de seu pensamento, independente de querelas históricas, é incalculável.

A reflexão toma início em sua obra referida como Teologia Mística, I:

“E a vós, caro Timóteo, vos aconselho que, no fervoroso exercício da contemplação mística, deixeis os sentidos e as atividades do intelecto e todas as coisas que os sentidos e o intelecto podem perceber, e todas as coisas deste mundo de nulidades ou deste mundo do ser, e que, vosso entendimento em repouso, vos esforceis (tanto quanto puderdes) para vos unirdes com Ele a quem nem o ser e nem o entendimento podem conter. Pois, pela incessante e absoluta renúncia de si mesmo e de todas as coisas, deveis em pureza deixar de lado todas as coisas e serdes libertado de todas elas e, assim, deveis vos elevar ao Raio daquela Escuridão divina a qual excede toda existência.’’

É patente a primeira herança legada à via espiritual de São João da Cruz, embora tal herança não tenha sida recebida via tradição, mas pela experiência da vida mística. Aqui encontra-se o ponto crítico e central da doutrina do grande santo, a ser explorada posteriormente: a criatura não é nada, senão apoiada na Luz Divina, o tudo.

Nas palavras de Dionísio Areopagita, em seus Nomes Divinos, V, 8:

“Ele não está contido no Ser, mas o Ser está contido Nele”

Percebe-se que a divisão existente entre o “tudo” e o “nada” distancia-se em muito daquela trazida pelo eleatismo antigo. As reflexões sobre o “tudo” e o “nada” na via mística de S. João da Cruz não operam no plano da existência do ser, mas sobretudo na percepção intelectual das características dos seres e no abismo existente entre as qualidades divinas e humanas. É óbvio que existência humana é conhecida, mas torna-se nada ao deparar-se com aquilo que engloba toda a realidade. “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos’’ (Atos 17, 28–30).

A espiritualidade joanina plasma esta experiência no centro da vida da alma. Não é pelos grandes conhecimentos e prazeres que a união com Deus Infinito se dá, tampouco pelas grandes consolações e alívios da alma, pois o cálice a ser bebido é o amargo vinagre: somente na experiência da alma, em sua escuridão e silêncio do nada, encontra-se a Presença Infinita.

“O Pai disse uma palavra que foi seu Filho. Di-la sempre no eterno silêncio; ela há de ser ouvida pela alma.” (Ditos, 8. São João da Cruz)

Toda a inteligência, vontade e percepção retrai-se para ampliar-se. O ser se esconde, para logo brilhar eternamente. Ao seguir este caminho de indigência espiritual, a alma logo desvencilha-se do desejo de todo conhecimento, pois alcançara a Sabedoria. Nisto está apoiada a metafísica da obra joanina, todo o seu escopo e finalidade: todas as categorias de seu ser estão orientadas para a simplicidade eterna dAquele que não possui mudança. Não deseja mais nada, pois realizou-se o seu fim último.

Não faltaram teólogos tardios e filósofos diversos a enxergar neste plano a plena realização de todo o esforço filosófico dos antigos. A enxergar nesta realização espiritual o contato primeiro do homem com o seu ser-ontológico e mesmo uma intelectual caminhada cronológica-histórica iniciada antes mesmo da Encarnação do Verbo Divino. Não é a pretensão desta pequena introdução (que certamente não para por aqui) responder a estas perguntas, mas anunciar a beleza do pensamento e caminho daqueles homens que realizaram o seu ser na eternidade: negando a si mesmos, uniram-se Àquele que É.

“Para vir a saborear tudo, não queiras ter gosto em nada.
Para vir a saber tudo, não queiras saber algo em nada. 
Para vir a possuir tudo, não queiras possuir algo em nada, nada, nada, nada, nada.
Para vir a ser tudo, não queiras ser algo em nada, nada, nada, nada, nada.
Para vir ao que não gostas, hás de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes, hás de ir por onde não sabes.
Para vir a possuir o que não possuis, hás de ir por onde não possuis.
Para chegar ao que não és, hás de ir por onde não és.
Para vir de tudo ao todo, hás de deixar-se de todo em tudo.
E quando venhas de tudo a ter, hás de tê-lo sem nada, nada, nada querer.
Nada querer, tudo ter. Nada querer, tudo ter.” (Subida do Monte Carmelo, São João da Cruz).

Toda a caminhada do homem sobre a Terra parece estar contida nestas sentenças: seu nada grita com autoridade e eloquência. Talvez, por isso mesmo, possamos chamá-la filosofia. O legado de homens que, vivendo em épocas tão distintas e distantes, fizeram a mesma experiência do Ser e apreenderam da realidade fatos tão semelhantes não deve jamais ser esquecido. Expondo em sua própria vida a doutrina das grandes escolas de pensamento e evocando em seus passos os gigantes de outrora, estes homens não devem ser lembrados senão com a gravidade devida àqueles que penetraram na eternidade; não em figura e símbolo, mas na eternidade em si mesma.

Este pequeno e pobre artigo introdutório não pretende solucionar questões nem tampouco sintetizar em breves palavras doutrinas capazes de absorver toda uma vida. É, antes de tudo, um retrato de si mesmo e um apelo. Que os novos intelectuais, amantes da Verdade, não pensem metafísica sem antes perceber o seu nada. Que os filósofos responsáveis por reconstruir o pensamento não “sejam” jamais senão em função do Absoluto que o cerca.

Afinal, as sendas do Paraíso iniciam-se na floresta mais escura.


Citações e pequena bibliografia temática:

[1] https://padrepauloricardo.org/blog/pobres-filhos-de-uma-sociedade-que-ja-nao-reconhece-o-mal

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Teologia Mística, Dionísio Areopagita.

Os Nomes Divinos, Dionísio Areopagita.

Noite Escura da Alma, São João da Cruz.

A Subida do Monte Carmelo, São João da Cruz.

O Amor não cansa… nem se cansa, textos de São João da Cruz organizados por Frei Patrício Sciadini, OCD.

Summa Theologicae, São Tomás de Aquino.

O Ente e a Essência, São Tomás de Aquino.

Comentários à Metafísica de Aristóteles, São Tomás de Aquino.

Metafísica, Aristóteles.

Categorias, Aristóteles.

O Saber dos Antigos, Giovanni Reale.

História da Filosofia, vol. I e II; Giovanni Reale.

Coleção Patrística, Ed. Paulus

Patrologia Grega, autores diversos.

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