Facundo Guerra não é o tipo de entrevistado que deixa você ficar preso a perguntas preparadas, a menos, claro, que você esteja tentando pintar uma imagem pré-definida dele. São mais apelidos apelativos dados por jornalistas, que buscam apenas chamar a atenção, do que empreendimentos inaugurados. O empresário também carrega sempre um posicionamento forte e o defende como a própria honra. Esse fato também faz com que seja extremamente fácil atribuir ao empresário em um estereótipo ou outro. Talvez tenha nascido daí a extensa criatividade dos veículos de mídia em criar apelidos para ele.

A conversa com Facundo transita por campos mais filosóficos, como a relação e visão de um empresário de sucesso sobre dinheiro, pobreza e a criação de oportunidades para revolucionar o mundo, mesmo que seja pelo lado de dentro do sistema.

“Eu trabalhava em uma ponto com no começo dos anos 2000. Lembro direitinho meu salário. Em 2002 eu ganhava 17 mil reais.”

Guerra nasceu na Argentina, veio para o Brasil em 1976 e desde então empreende e cria por aqui. Após perder o emprego que tinha na AOL, Facundo tentou abrir algumas empresas e, no seu último tiro, e a convite de um ex-amigo, investiu no Vegas. Para quem não conheceu, o Vegas foi uma boate ícone da Augusta, considerada por muitos uma das casas, ou A casa, que trouxe um novo respiro financeiro para a região da histórica rua. O lugar que sempre foi dividido por prostitutas, bêbados e alguns perdidos, agora também era um dos destinos de jovens que buscavam novas experiências, não é necessário dizer que esses jovens tinham mais grana que os diários frequentadores dos botecos da região.

O Vegas não era uma boate qualquer. A casa conseguiu aproveitar o entorno simples e sujo, geralmente habitado por pessoas que se tornaram invisíveis para a maior parte da população, e misturá-lo com festas criadas para um público que parecia cansado do ‘plástico’ e artificial das outras casas noturnas paulistanas. Era como se você chegasse na Rua Augusta e, ao entrar no Vegas, passasse por um portal que o levava para um dos lugares de maior contraste da cidade. São dos contrastes que nascem as mudanças. Isso chamou a atenção de modelos, músicos, DJs e pronto. A casa tinha um público que transformava todas suas noites em espetáculos dignos de se guardar em um lugar especial da memória.

“Meu pai falava o tempo inteiro: ‘dinheiro corrompe e não pode ser o valor fundamental da sua vida’.”

O Vegas foi o início do pequeno império do entretenimento que Facundo construiu, hoje ele comanda, com a ajuda de mais de duas centenas de funcionários e parceiros, 8 empreendimentos e mais de 10 estão em desenvolvimento. Mesmo com uma carta de apresentação dessas, Facundo parece estar sempre sentindo que precisa provar algo para o interlocutor. E isso, de maneira alguma, pode ser considerado algo ruim.

“Eu tenho uma satisfação egoica, estética, de propósito.”

Sobre dinheiro

O dono de boates como Lions, Cine Joia, Z Carniceria e Yacht parece viver uma relação de amor e ódio com o dinheiro. Ao mesmo tempo que mostra um posicionamento consciente sobre a relação contemporânea que temos com nossa grana, Facundo apresenta uma certa culpa orgulhosa de ter conseguido chegar ao lugar em que está. Talvez por ego ele não tenha problemas em falar sobre seu salário mensal — de cerca de R$ 10.000,00, mas ao comentar que ‘faz tudo’ com esses ganhos mensais, parece esquecer que a maior parte dos brasileiros sonha com um salário desse. Porém, frases como “Eu tenho uma série de luxos que 99% da população mundial não tem, mas não tenho nenhum luxo além desses.” mostram que ele sabe disso.

“Eu tenho uma série de luxos que 99% da população mundial não tem, mas não tenho nenhum luxo além desses. Eu quero dedicar minha vida ao trabalho. Se meu trabalho não tiver um propósito, eu não sou feliz.”

Sobre a nossa relação com a cidade

Facundo vive uma relação de redescobrimento da cidade. Não que ela tenha sido esquecida, ele ressalta, mas muito pela maior parte da população ignorar o que foge da realidade delas. Para ele os cantos que nos cercam, a periferia, os bairros mais pobres, devem ser olhados como vida. Até por isso diz odiar a palavra ‘revitalização’. Ao exemplificar esse distanciamento, ele traça um paralelo entre a classe média que vai ano sim, ano também, para a Europa ou Estados Unidos, sempre para se descobrir e viver novas experiências. A questão que ele está tentando incitar é: por que valorizamos tanto o conhecimento de um lugar distante se não conhecemos nem o que está ao nosso lado? Guerra cita uma história pessoal para exemplificar: “Minha filha pensava que a babá dormia na escada de incêndio do prédio. A babá se materializa todo dia na frente dela”. De uma forma ou de outra, muitos vivem em sua bolha e ignoram a existência desses lugares e o poder de mudança que eles têm e podem ter. “A gente fala da periferia, ela existe, mas quando nos serve. Ela vem até nós, nós nunca vamos até ela.” essa frase exemplifica muito o que é Facundo Guerra. Um cara ciente do que é e de onde está, com anseios de ser diferente e não apenas seguir um rebanho, mas que, às vezes, apenas aceita o conforto de viver a posição em que se encontra. Como todos nós quando estamos felizes com o lugar em que nos encontramos.

“Por que eu não vou pra quebrada que eu não conheço? Sendo um menininho branco, que mora no centro, a quebrada pra mim é um lugar meio imaginário.”
Foto: Facebook Riviera Bar

Sobre entretenimento

Sem meias palavras e sem encontrar atalhos para falar a verdade. A relação de Facundo com a noite é pontual. Ele é um empresário que ganha a vida com festas, refeições e shows, mas sabe muito bem que tudo gira em torno do álcool: “Eu vendo álcool, eu não tô vendendo cultura. Eu vendo cultura pra deixar o álcool mais caro. e nem é cultura que eu vendo, pra mim cultura é livro, eu vendo entretenimento, escapismo”.

“Bar não muda porra nenhuma na sociedade, bar no máximo acalma a resistência, mas não muda porra nenhuma.”

Ao conversar com o empresário você recebe uma grande quantidade de informação, muitas delas são pontos já fortes e defendidos diversas vezes pelo argentino com coração paulistano, e isso chama a atenção em uma época em que todo mundo só pensa em simplificar as coisas. Por mais que a repetição do discurso possa deixá-lo plástico com o tempo, nota-se que Guerra acredita no que está dizendo. Esse fator transforma as opiniões do empresário em espécies de mantras que valem ser debatidos. Por ter se tornado quem é hoje muitos podem ver os pensamentos de Facundo como um final, mas acredito que ele quer mais incitar a reflexão do que dizer o que e como as pessoas devem pensar.

A revolução do Facundo Guerra é acreditar na verdade das palavras. Ele é um cara que diz o que pensa, sem medo do que isso pode lhe causar. Após anos de acertos em seus empreendimentos, o empresário goza de um grande prestígio e valoroso capital social. A personalidade forte parece ter o ajudado a fazer diferente, fugir da mesmice e olhar o simples com de um novo ângulo. E, desse ângulo, ver beleza no passado decadente, tudo para transformá-lo no futuro de São Paulo.

“O erro de alguns foi sempre acreditar que vão conseguir se chocar contra o sistema, como se vocês fossem máquinas suicidas. Você não consegue se chocar contra o sistema, ele domina os meios de opressão. No limite ele te aniquila. Primeiro ele te transforma num louco, depois ele te expele e aniquila.