A notícia pode surpreender muita gente, mas o Brasil tem o segundo maior mercado de música da America Latina, perdendo apenas para o México. Essa indústria movimentou 165 milhões de dólares em 2010 e registrou um crescimento em comparação com 2014, chegando a movimentar 205 milhões de dólares em 2014. E a estimativa é de que a receita com festivais e shows chegue a 280 milhões com 2019.

E faz parte desse mercado o Coala, festival criado por amigos e com foco na nova música popular brasileira. Criado para ser uma experiência, o Coala acaba tendo o tamanho da cena e se consolidando como um dos novos festivais mais legais de um determinado nicho. Segundo o portal RockInChair, o Brasil foi palco de mais de 26 festivais e mais de 500 shows internacionais. Como se destacar no meio de tantos eventos? Como fazer o público sair de casa e se deslocar até um palco para assistir ao show de uma banda que toca com bastante frequência? Esses são alguns dos maiores desafios do Coala.

Conversamos com Gabriel Junqueira, curador artístico e um dos fundadores do festival Coala, para entender melhor os desafios de empreender com entretenimento em uma época de reinvenção da música.

“Eu acho que o Coala surgiu, um pouco, por causa do streaming. Por causa da internet na real. a internet democratizou a música pra caralho, então hoje você tem muito mais fonte de informação, que antes ficava concentrado nas rádios, nos mega eventos que desprezam uma cena do brasil inteiro né, não é só de São Paulo”.
Foto: Coala Festival

A tradicional separação da música em grupos ainda acontece, mesmo com o fácil acesso e conhecimento a todos os gêneros ainda existem pessoas que julgam um estilo ser superior a outro, e isso se reflete na quantidade e diversidade de eventos que acontecem atualmente. o Festival Coala teve sua primeira edição em 2014 e ele foca em um nicho bastante específico da música. Voltado para jovens das classes BC, o festival já completou três edições e registrou um público de 10 mil pessoas presentes em sua última edição. Pode parecer um número pequeno se comparado a mega eventos, como o Lollapalooza, mas o objetivo de Gabriel e do Coala é um pouco diferente.

“Adoro o Lolla, mas é um trampo. Tem que acordar cedo, chega lá e pega fila, os palcos tem 2 km entre cada um…”

A pegada intimista, em comparação com grandes festivais, traz uma espécie de espírito de encontro de amigos para o Coala que, além de ter uma forte preocupação com sua curadoria musical, também desenvolve uma série de intervenções no espaço do Memorial da América Latina, onde acontece desde sua primeira edição. Grafite, gastronomia e outros tantos nichos são abordados pelo evento, que já abriu espaço para pequenas marcas de produção de seda até tabaco artesanal: “Além da gastronomia, a a gente abre pra iniciativas. Verdi, Leda, Leaf, Vela Bikes, Joaquim Tabaco Artesanal”.

“Além do conceito de música, tem a experiência também. O Coala foi pensado na experiência que a gente tem com festivais.”

Gabriel cita uma forte inspiração do Pitchfork Festival no desenvolvimento do Coala, o festival de um dos sites mais conceituados do mundo da música. No Pitchfork existe um forte senso de curadoria e apresentação de bandas, voltado a um público mais ativo no consumo musical, muitas das bandas que se apresentam lá tem características completamente diferentes e muitas delas não são vistas como ‘fáceis’ para um público mais passivo. É nesse nível de ‘grife’ que o festival Coala busca chegar, sendo um evento em que o lineup não é o fundamental, mas sim algo que faz parte de toda experiência proporcionada e Gabriel sintetiza bem esse desejo: “O que eu gostaria é de ter uma marca forte, do pessoal olhar e pensar ‘Se tá no coala é foda”.

Foto: Coala Festival

Pra isso, ainda existem alguns desafios a serem vencidos. Um deles é o fato da ‘vida útil’ do festival ter cerca de apenas 3 meses: “Trabalhar a marca o ano todo é fundamental. Hoje em dia a gente faz o festival, dura uns 3 meses e daí morre. No fim é construção de marca pra galera ir mais pelo evento do que pelas bandas”.

O Coala chega em um ótimo momento da música nacional independente. A economia da música está se reinventando, o aumento na venda de discos de vinil acaba auxiliando apenas as bandas que tem grana o suficiente pra prensar um álbum, porém a organização que iniciativas particulares ou de pequenos grupos vem incentivando vem fortalecendo grupos de músicas que praticamente não tem chance de chegar nas rádios, na trilha de novelas ou em meios mais populares e de massa. Esse fator é ótimo, porém o mercado ainda é frágil e ações benéficas podem até ter reflexos não tão bons. Gabriel conta: “Essa cena tá se organizando. Esses caras, por exemplo, tem os selos. E esses caras organizam o próprio evento. Não é como se esses caras nunca tocassem. Então pra você conseguir fazer a galera ir num show que não é nada inédito, o ingresso não pode ser caro”.

“Acho que o que falta atualmente no Brasil é rádio. Rádio e TV. TV até já perdeu muito do valor, mas rádio…”
Foto: Coala Festival

O rádio atinge 90% dos brasileiros, segundo pesquisa do Ibope Media, e Gabriel considera que o meio ainda tem uma grande influência na formação do gosto musical de ouvintes mais passivos de música. A mesma pesquisa indicou que a MPB é o segundo gênero musical mais querido pelo brasileiro, logo atrás do sertanejo. No fim das contas, o Coala é uma revolução que quer dar espaço para um gênero difuso, porém com muitas ramificações e poucos novos ícones. “O Coala é uma iniciativa pra dar visibilidade pra essa cena, pra essa nova MPB, pra essa cena que tá meio esquecida. Agora já não tá mais esquecida, já cresceu muito de lá pra cá. mas a ideia era de fazer um festival mais pra esse recorte da música brasileira”. Essa é a revolução que o Coala quer fazer, transformar o festival em marca, com credibilidade na crítica e público. A nova música caminha junto dos novos espaços e movimentos.