O fantástico sempre fascinou a humanidade e, no cinema, fez ainda mais sucesso por mostrar pra qualquer tipo de mente - das pé no chão as cabeças-de-vento - todo um novo universo de criação de histórias.

O cinema de gênero nasce quase junto ao cinema, Georges Méliès, o mágico que virou cineasta, filmou as primeiras histórias que usavam da criatividade para transportar o cinéfilo para outro mundo. Um dos filmes mais conhecidos de Méliès é, também, um dos maiores clássicos do cinema, é Viagem a Lua (1902). Depois disso muitas histórias foram contadas, mas atualmente a tendência mostra que recontar essas histórias, com remakes e continuações geralmente sem o mesmo valor, é o que mais se faz atualmente. É na pegada do resgate do cinema fantástico que projetos como o Cine Phenomena, criado por Cauê Custódio, levam vida para salas de cinema não comerciais de São Paulo ao reexibir clássicos do cinema que ganharam status de cult com o passar dos anos.

“O negócio do cinema é bem comum né, não é algo de cinéfilo. Mas eu sempre peguei por um lado, tipo, eu ia na locadora e sempre ficava na parte do terror, do sci-fi. Queria ver o que tinha monstro… pra mim se tivesse monstro já tava bom.”
Foto: Jotape

O Cine Phenomena acontece desde 2008, as sessões resgatam clássicos para jovens que nunca tiveram oportunidade de assisti-los na tela de cinema. Cauê comenta, com orgulho, que todo filme leva um novo público para a exibição e que geralmente 50% dos expectadores nunca assistiram a obra que será passada no dia. Isso mostra que o Phenomena é muito mais do que um cineclube, termo que o próprio fundador não gosta muito.

Essa função de trazer o passado para o presente caminha em paralelo com uma grande importância de projetos voltados à exibição de clássicos. Assim como o Netflix se utiliza de um algoritmo para descobrir elementos que mais conquistaram as pessoas em filmes clássicos e usa isso para criar todo um novo produto, como é o caso de Stranger Things, o resgate do Phenomena deve uma grande parte do seu sucesso ao fato de abrir as portas de novos mundos para um novo público. Cauê diz acreditar que, assim como o projeto que fundou, Stranger Things funciona como uma porta de entrada para um novo nicho e que ela pode gerar curiosidade nas pessoas por obras mais criativas.

“Acho que acaba ficando meio pasteurizado, mas por outro lado funciona. Eu não me preocupo muito com isso, uma área que a inteligência artificial nunca vai conseguir chegar é a criatividade artística.”
Foto: Jotape

Ele também acredita que uma combinação de direção artística e a descoberta de preferências pode ser o futuro: “Talvez você combinando isso com uma direção mais artística, mas é meio pastiche né? É como uma colagem. O mercado de millennials não pegou essa coisa dos anos 80. Uma parte acaba pegando agora e outra gosta porque é nostálgico né.”

Uma nostalgia que ele não sente muito é pela qualidade das sessões de antigamente. Custódio explica que tem um perfil extremamente preocupado com a qualidade da sessão e que a pré-produção é uma das partes mais importantes do Cine Phenomena. A preferência é por passar filmes em Blu-Ray e, às vezes, alguns pedidos até são deixados de lado, afinal os filmes não tem versões em melhor qualidade disponíveis.

“Tem filme que, quando eu dou o play no cinema, é a melhor versão que já foi exibida no brasil.”

A história de Cauê com o cinema começa em 1989. “Me formei em cinema em 98, não sabia direito o que queria fazer, se queria editar vídeo ou o que… então comecei a mexer com sound design e gostei”. A relação com o som o manteve próximo do cinema, peixão que ele carrega desde criança, quando ainda não era levado ao cinema pelo seu pai.

A sensação de medo, o frio na barriga, que todo bom filme com monstros deve oferecer mantinha Cauê sempre vidrado na tela.As tradicionais promoções das videolocadoras, a era do VHS, eram a felicidade do menino que levava 13 filmes por semana pra assistir em casa..

“Meu pai me levava sempre pra ver filmes. Star Wars, Indiana Jones… eu lembro deles indo na sessão e eu não podia ir ainda porque era muito pequeno. Ficava em casa com a minha vó, ficava muito puto. A primeira vez que ele me levou, O Retorno de Jedi… na hora que eu vi aqueles bichos eu pensei ‘Mano, será que eu vou aguentar… ver esses bichos…’ eu meio que queria ir embora, mas aguentei.”

A ideia do Cine Phenomena é antiga, vem de 2005, quando Cauê queria reunir amigos em casa para assistir a filmes de ficção científica e discuti-los com os amigos. A ideia das sessões caseiras virou a ideia de um festival e, com ela, a noção de que é muito fácil falar, mas difícil fazer. O festival de cinema acabou virando o Cine Phenomena e com o tamanho menor alguns amigos que ajudariam na organização acabaram pulando fora. O Phenomena nasceu como funciona até hoje, apresentando sessões isoladas de filmes, madrugadões ou sessões duplas. Mas a ideia é que ele ainda se torne um festival.

“Alavancar o festival do zero seria muito mais difícil do que lançar uma marca e fortalecer ela aos poucos, com eventos menores.”

O desafio de Cauê era, então, manter vivo o gênero de cinema que mais amava e iniciar o caminho até alcançar o objetivo de lançar um festival de cinema. O cinema de gênero sempre questionou paradigmas através do fantástico, temas como racismo, repressão, rotina e problemas psicológicos são tratadas com uma roupagem criativa para tirar o peso e dar um ar mais leve para questões sérias. Muitas vezes os filmes são leves e parecem desprovidos de profundidade, mas assuntos interessantes nascem a partir de ataques de zumbis ou o renascimento de alguém que estava morto.

E, mesmo vivendo o cinema fantástico, a dica de Cauê para todos é singela, porém sempre bem vinda: “É muito brega falar isso de ‘busque no seu coração’, mas se as pessoas tão fazendo uma coisa que acham maneira, vai dar certo. eu acredito muito nisso”. Desistir de algo que você deseja porque vai dar trabalho é como deixar de fugir dos monstros em um filme, nunca a melhor escolha a se fazer.