O retorno do vinil como item de colecionador e de status para quem ama música é uma certeza. Crescimento nas vendas são registrados todos os anos e os espaços dedicados exclusivamente ao discos cresce. Cada vez mais feiras especializadas surgem, espalhadas por todo o brasil. Ao mesmo tempo, festas já clássicas ganham cada vez mais força e apoiam o ganho de força desse formato que perdeu espaço para os CD’s. Uma dessas festas é a Discopédia, criada pelo DJ Nyack e DJ Dan Dan, com lineup completado pelo DJ Marco, para ser um evento de celebração da cultura do vinil. Conversamos com Fernando Carmo da Silva, o Nyack, sobre a vida de DJ e como ele vê o retorno do vinil para as prateleiras de quem ama música.

Primeiro é importante citar que o vinil nunca morreu. Dificilmente um formato some completamente, ainda existem por aí adoradores de fitas VHS, cassete, e por que não, CDs. Porém os discos de vinil acabaram se transformando em um ícone cult para adoradores de música. Algo como medalhas que você coleciona e, muitas vezes, usa para consagrar o seu ‘status’ em um determinado nicho. Sobre os vinis, e o retorno da popularidade deles, Nyack comenta exatamente isso: “Nunca parou na verdade. Nesses últimos 6 anos vem crescendo bastante, essa volta do vinil né. Acho que vem muito do que é ditado na moda, por exemplo, a gente vê muito, de uns 10 anos pra cá, as roupas voltando aos anos 80, acho que essa coisa do vinil vem junto”.

A história de Fernando com música começou em uma ONG, a UNEGRO, que faz um trabalho formando agentes multiplicadores de cultura. Nyack conta: “Comecei a tocar em 2005, 2006, mas aprendi a tocar em 2003 em um projeto chamado Do Risco ao Rabisco, que era de uma ONG chamado Negro. Nesse projeto o intuito era formar agentes multiplicadores. O que a gente aprendesse lá era pra passar pra frente do jeito que pudesse. E lá tinham várias oficinas: de fotografia, reciclagem, teatro, dança… e tinha de DJ também! E foi lá que eu comecei a aprender a tocar”. Depois disso, o DJ recebeu o convite para tocar com o rapper Emicida, que já havia conquistado o prêmio de campeão da Liga dos MCs.

“Em 2005 comecei a tocar em algumas casas noturnas e em 2007 surgiu o convite de tocar com o Emicida. Ele já vinha fazendo alguns shows depois que foi campeão da Liga dos MCs em 2006, e em 2007 a gente começou a trampar junto. Tocamos juntos até hoje. A Discopédia começou em 2012, fez 4 anos esse ano (2016), em setembro.”

A festa Discopédia acontece todas as terças e tem um formato um pouco diferente dos eventos do gênero. Ela acontece mais cedo, na faixa das 19h às 23h, e seu principal diferencial é o fato dos DJs do evento tocarem apenas discos de vinil.

“A ideia foi minha e do Dandan. Quando a gente tava em Londres, em turnê, eu com o Emicida, ele (Dan Dan) com o Criolo. A gente saiu pra comprar vinil e pensou ‘pô, porque a gente não faz uma festa só de vinil num dia e horário que seja bacana pra nós dois’. A demanda de shows tava muito grande aquela época, ainda tá né, mas tava muito grande e a gente perdia os finais de semana, sexta, sábado e domingo era difícil a gente tá por aqui.”

Os encontros acabam sendo uma espécie de laboratório e espaço para tocar tudo da coleção de vinil dos DJs: “Nessas viagens a gente acaba comprando muito disco e, às vezes, a gente não tem festa pra tocar tudo aquilo que a gente tem. Então decidimos fazer essa festa semanalmente pra compartilhar essas paradas que nem sempre a gente tem oportunidade pra tocar”. Assim, a Discopédia acabou se tornando um dos eventos de vinil mais tradicionais de São Paulo, já são 4 anos de happy hours com raridades e hits do rap, soul, R&B, funk e tudo o mais que foi garimpado por aí por Nyack, Dan Dan e Marco.

Foto: Rodrigo J Marques

A volta dos vinis para as pistas não é a única, o retorno econômico do vinil vem registrando uma crescente interessante. A venda de discos já gera mais lucro do que a publicidade feita em serviços de streaming, como Youtube, Spotify e VEVO. Além disso, as vendas de discos de vinil aumentaram 52% nos Estados Unidos no primeiro semestre de 2015. No Brasil o mercado também está em expansão, a Polysom, empresa produtora de vinis que voltou a funcionar em 2009, registrou crescimentos significativos nos últimos anos. João Augusto, consultor, disse em entrevista ao Estadão: “Há um aumento de pelos menos 60% ao ano tanto de fabricação quanto de venda de vinil no mundo. É o mesmo número nosso no Brasil. A empresa cresceu, de 2012 a 2013, 63,50% e, no ano seguinte, 63%. É muita coisa”. Sobre isso, Nyack acredita que a Discopédia tem sua parcela de influência: “Acho que a festa acho que contribuiu bastante, sim. Por que a gente vê pessoas que frequentam bastante e que começaram a colecionar vinil por causa da festa. É muito louco isso aí”.

“A gente vê artistas do Brasil voltando a prensar vinil agora, muito porque a Polysom voltou também. Então, alguns artistas voltaram a prensar discos em vinil. E a Polysom tem um projeto muito legal. Eles tão represando alguns discos clássicos dos anos 60, 70, 80. É o Meu Primeiro Álbum, que eles reprensaram o primeiro álbum do Jorge Ben, do Tim Maia… isso voltou a ser lucrativo, acho. Por isso que eles tão fazendo também, senão, não faria sentido.” Conta Nyack.

Sobre o processo de relançamento de discos clássicos, o DJ completa, sorrindo: “É bom pra gente né. Tem muitos desses discos que saíram na época o que torna muito difícil de achar. Então, a gente tem o primeiro do Tim Maia, que é muito difícil de achar, o primeiro da Gal (Costa), que também é difícil de achar. Robson Jorge & Lincoln Olivetti, que é um álbum muito raro. A gente acha a um preço acessível, sabe, num Mercado Livre da vida tá 500 reais. Agora dá pra achar por 80”.

Foto: Estúdio Urbano

É no meio de um retorno de antigos rituais, como o de tirar um disco de vinil de sua capa, colocá-lo pra tocar, ajustar a agulha no vinil, que tradições se mantém e se fortalecem indo de encontro a tecnologia e o caráter de facilidade que a música ganhou com o passar do tempo. Festas como a Discopédia, e DJs como Nyack, Dan Dan e Marco, ajudam a manter viva e fortalecer uma tradição que merece continuar presente na vida musical de todos nós. Essa é a revolução pela qual eles escolheram trabalhar e dançar.