Ligar a TV pra ver novela já está deixando de ser uma atividade do ócio. Com novas plataformas de mídia e novos formatos de produzir conteúdo, as séries estão crescendo cada vez mais, e as produções brasileiras também. Mas, você já pensou em como é bolar uma série? De onde surge a ideia? É possível fazer uma série de sucesso? Foi pensando nisso que o Contracorrente foi falar com a Camila Raffanti, roteirista da série O Negócio da HBO e atriz desde criança.

CC: Você é atriz desde pequena e hoje termina de escrever uma grande série de sucesso brasileira. Como aconteceu essa troca de papéis?
CR: Ainda como atriz, no final de 2005 eu passei num teste para uma série chamada Mothern, que contava sobre um novo jeito de ver a maternidade. Aos poucos, nesse seriado, eu comecei a me envolver com os roteiros do programa e a frequentar a sala dos roteiristas. A partir daí, o Rodrigo Castilho e o Fabio Danesi viram em mim um talento que eu não sabia e me juntei a eles na produtora.

CC: E de onde surgiu a série “O Negócio” e como foi toda a experiência como roteirista?
CR: Ah, como eu frequentava a sala de roteiro e adorava, eles me convidaram para fazer a série O Negócio, foi bem natural. E a experiência foi super positiva, hoje sou atriz e roteirista, o que promove uma troca criativa muito interessante. Na realidade, depois que me tornei roteirista, acabei deixando o teatro um pouco de lado, mas me envolvi tanto com a escrita que senti vontade de voltar para os palcos.

CC: O Negócio trata de mulheres de programa que aplicaram estratégias de marketing para conseguir mais clientes e crescer financeiramente. Esse assunto é visto ainda com maus olhos. Como vocês chegaram nesse tema?
CR: O assunto é polêmico e tem sido cada vez mais. Como é muito amplo ao mesmo tempo, precisávamos tocar num nicho dele, já que é muito difícil conectar todas as vozes dentro de prostituição. O que me motivou foi a visão de tratar a prostituição como qualquer outra profissão. Por que não vender sexo e tratar esse negócio como uma empresa? Até que ponto é errado já que é um trabalho justo que só depende da pessoa? Esses questionamentos sempre foram o nosso norte. Fora que, com o tempo, a série uma linha de raciocínio, então em cada temporada a gente tenta levar uma nova fase de questionamentos. A última agora é sobre o preconceito: como essa mulher pode se inserir na sociedade? Ela pode colocar “prostituta” como profissão na ficha da academia? A gente chegou nessa discussão na quarta temporada, e a personagem vai em busca da quebra desse preconceito.

CC: E como foi o processo de pesquisa pra estruturar a série?
CR: O primeiro contato foi com entrevistas com várias garotas de programa, com foco no mercado de luxo, que é um nicho com algumas especificidades. Além disso, essa série precisa de muito estudo de marketing, então estudamos cases para pensar em como fazer essa trama. Depois a gente mudou a série para gestão de negócios, aí chamamos consultorias para ajudar… Já chegamos até a entrevistar um astrônomo!

CC: Ao meu ver, o brasileiro está muito acostumado com as novelas. Você acha que há espaço para o Brasil no mundo das séries?
CR: Eu acho que a novela e as séries são formatos diferentes, então sempre vai ter público para os dois. Além disso, sou apaixonada por série e, quem gosta mesmo de série, assiste de tudo. Hoje, eu acho que o maior problema do Brasil é a falta de Oferta de séries. Para você conseguir produzir várias séries ou montar uma com várias temporadas é difícil, você precisa ter uma boa equipe. O problema é que não existe muita gente dentro desse mercado de produção. Mesmo assim, o Brasil está tentando crescer. A Fox, HBO e outros canais estão buscando e investindo nessas produções nacionais.

CC: E, para finalizar, existe um segredo para se fazer uma série de qualidade?
CR: O segredo de uma série de sucesso é tocar em algo universal, que as pessoas se identifiquem com algo. A prostituição, por exemplo, é uma profissão que muitas vezes fala mais da parte pessoal do cliente do que do ato sexual em si. Prostituição se diz respeito muito mais à sociedade do que sobre a garota de programa. Fora que a prostituição tá em todo lugar e todos são clientes: os namorados, pais, irmãos. Então é bem fácil das pessoas se interessarem no assunto.

Depois de 40 minutos de conversa, o Contracorrente ainda teve o prazer de conhecer a Mixer, produtora responsável pela O Negócio e diversas outras produções como Entre Abelhas, História Bêbada etc. Se você gosta muito de um assunto e acha que consegue criar uma história, a hora de tentar escrever sua série é agora, quem sabe você não emplaca o mais novo sucesso entre as séries brasileiras? Só não esqueça de pesquisar muito — e convidar a gente pra assistir!

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