Tamanho não é documento, mas pode ser identidade. A história da Flávia Durante se mistura com o crescimento do mercado de moda plus size e a redescoberta pessoal que muitas pessoas vem fazendo graças às mudanças e aumento do número de marcas voltadas para esse público.

Flávia é formada em jornalismo e atualmente trabalha como assessora de imprensa, ela começou a carreira trabalhando com música e, com o tempo, foi abrindo o leque dos trabalhos que fazia e abrangendo diferentes assuntos. Não é a carreira profissional dela que mais nos chamou a atenção, mas, sim, o que Flávia faz no tempo livre — que com o tempo não pode mais ser considerado tão ‘livre’. Ela é criadora do Pop Plus, uma convenção que mistura estandes de confecções e acessórios com apresentações de dança, debates e shows, tudo sobre a moda plus size.

“Nunca mudei meu jeito, minha personalidade, por causa disso. Sempre gostei de usar biquíni, usar decotado, e nunca tive vergonha de mim nem nada. Gosto de usar roupas coloridas, só que sentia dificuldade de me vestir do jeito que eu gostaria de me vestir.”

O mercado de moda para gordinhas e gordinhos é pequeno e um pouco esquecido no Brasil. As confecções com medidas grandes representam apenas 5% do faturamento total do segmento de vestuário. É um número um pouco ridículo, ainda mais ridículo se considerarmos que 52,5% dos brasileiros está acima do peso e que 17,9% dessa categoria são considerados obesos. Além disso, esses números mostram que uma parcela gigante da nossa população é ignorada pelas grandes marcas. E é contra deixar qualquer tipo de movimento de lado que Flávia luta.

Ela conta que era uma criança magra, não sofreu bullying na escola, que foi a rotina paulistana que mais influenciou no processo de ganho de peso pelo qual ela passou. Ainda assim, ela não perdeu o costume de sempre ir à praia usando biquínis e maios, e foi desse costume que nasceu a convenção Pop Plus. O interesse dela por moda surgiu por 2009, quando foi convidada a comandar essa editoria no portal Vírgula. “Nessa época tava começando a aparecer blogueiras plus size e eu comecei a conversar pra ver o que elas buscavam.”, conta. A jornalista também diz que antigamente acabava comprando roupas sempre nos mesmos lugares, e geralmente peças mais básicas e cafonas.

Flávia queria fazer uma graninha extra no fim do ano, em 2012, e resolveu comprar vários biquínis direto em uma fábrica e revender para as amigas. Ela conta que todas elogiavam as peças que ela desfilava elas praias de Santos e daí surgiu a ideia. Ela só não contava com a própria timidez como empecilho.

“Tinham umas lojas aparecendo, mas sempre a mesma cara, tudo feito pra senhoras, com estampas feias, ou só coisas de oncinha… nada realmente fashion.”

Pra resolver o problema da timidez nasceu o Bazar Pop Plus Size. Flávia convidou algumas amigas com marcas voltadas para o nicho GG e XG e fez a estreia do empreendimento. Depois de 4 anos, o Pop Pluz deixou de ser bazar e virou convenção. Além de ser um dos maiores empreendimentos nacionais voltado ao público plus size, os eventos também funcionam como um espaço de troca de experiências e de reencontro da auto estima para muitas mulheres e homens. A jornalista acabou virando, também, uma espécie de psicóloga por tabela, mulheres plus size buscam apoio e pedem conselhos sobre situações difíceis como problemas de relacionamento, geralmente causados pelo parceiro que critica o corpo da esposa.

“Pior ainda quando é uma marca plus size que só veste 46-48, as outras meninas, que vestem acima de 50, vão ficar putas, e com razão. As pessoas querem se ver nas campanhas. É uma obrigação das marcas. Não é capricho nem nada, tem que aparecer todo mundo.”

O trabalho da Durante mexe diretamente com a auto estima de um grupo gigantesco de pessoas que é diariamente marginalizado e deixado de lado. Quantas campanhas publicitárias mostram modelos gordos ou gordinhos? Quantas marcas ignoram uma faixa da população e colaboram para a manutenção de um modelo publicitário antiquado e fora da realidade?

Metade da população brasileira está acima do peso e, ainda assim, praticamente todas as marcas ignoram esse fator para insistir na velha ideia da comunicação aspiracional — que é o tipo de propaganda que busca vender um estilo de vida que a pessoa almeja ter — apenas com pessoas magras e majoritariamente irreais.

Flávia toca nesse ponto ao falar do momento atual que vive a moda plus size: “Quem é comunicador tem que ter responsabilidade de mostrar diversidade também. Eu sempre bato nessa tecla, hoje em dia é feio você não mostrar diversidade em uma campanha.” mas a chegada da santista nesse meio aconteceu de uma forma um pouco acidental.

“A gente tem que se ver, sabe? A gente quer se ver na TV, na mídia… não importa se é uma coisa ruim ou boa, mas tem que aparecer. E mostra que é brasileiro. Ou então faz o ensaio mais alternativo das meninas mais Vila Madalena e não chamam uma menina da periferia… em palestra eu vejo muito isso: ‘ah, vamos falar de feminismo’ e chamam as meninas da Santa Cecília, Vila Madalena… mas não chamam uma menina da periferia. As meninas da periferia não são feministas também?”

A moda funciona como um agente de mudança e influencia diretamente a confiança e auto estima das pessoas, ajuda elas a se sentirem mais bonitas e de bem consigo mesmas. O trabalho da Flávia é uma das sementes que deveriam ser semeadas em todas as frentes. Uma revolução na forma de pensar o próprio corpo, se aceitar para evoluir e se tornar uma pessoa melhor, mesmo que apenas pra si mesmo. Vemos na Flávia uma pessoa que cansou da mesmice e resolveu trilhar o próprio caminho, alguém que não aceitou apenas o que era imposto. Ela quebrou barreiras e foi em busca do que faria bem pra ela. Em consequência, ela fez bem para milhares de pessoas.