“E então, o que você faz?” | Reflexão

De vez em quando eu penso o quanto ando ressignificando o RPG na minha vida.

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Imagem por uniquedesign52

Calma, esta não é uma postagem sobre RPG, é sobre o que a gente faz da vida.

Tipo, ele sempre teve uma posição elevadíssima (quase central, eu acho) na minha vida. Minhas relações de amizade e de família, de certa forma, se confundem nele. Tem sido uma fonte quase inesgotável de ficar pensando sobre como a vida pode ser, sobre que caminhos ela pode tomar e, acima de tudo, sobre o que a gente pode fazer em relação ao que acontece com a gente.

Digo, para pra pensar: quem é você hoje? Que coisas você faz, sente, pensa e vive? Pensou? Ótimo. Agora, de tudo isso o que você pensou, quantas dessas coisas vieram estritamente de ações e iniciativas suas e quantas vieram daquilo que a vida fez a você?

É possível fazer essa distinção? É importante?

Sinceramente, eu não sei o que pensar sobre a distinção, mas sinto que a importância disso é mínima. Se eu sou o que sou, eu o sou porque me fiz ser assim, de algum modo.

Então, corrigindo, este texto é sobre o que a gente faz daquilo que a vida nos faz.

Há uma característica muito forte presente na maioria dos RPGs de mesa que é a pergunta do mestre/narrador/facilitador/mediador às pessoas que estão jogando: “… e então, o que vocês fazem?”. Esta pergunta é simples e serve para dar continuidade à narrativa, mas ela possui umas repercussões tão interessantes e poderosas. Por fora, ela explicita a agência dos jogadores sobre suas personagens. Por baixo dos panos, ela exprime o quanto a vida não para.

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Imagem por JanBaby

Exprime o quanto somos impelidos a tomar alguma atitude em relação à vida que nos é apresentada, a cada segundo, dia após dia. Essa atitude pode ser algo tão singular quanto usar algum enxaguante bucal diferente tendo em vista a recomendação médica, mas também pode ser capaz de revirar as suas raízes como buscar uma nova casa ao fim de um relacionamento.

Gosto de pensar que a resposta à pergunta que abre este texto também é uma forma de resiliência. É uma forma de criar um caminho quando simplesmente não há nenhum. Em uma narrativa ficcional, há um foco na protagonista para que ela decida como irá resolver a situação apresentada diante de seus olhos. Em muitos jogos eletrônicos, caso você não faça nada, nada acontece. Inclusive, há aquela máxima de que “a vida nos videogames me ensinou que se há obstáculos, eu estou no caminho certo”.

Na vida não ficcional a gente não tem esse privilégio de ter um cenário ao redor que para quando a gente para, mas ainda assim precisamos tomar essas decisões, certo? Se elas não forem tomadas, alguma coisa vai acontecer e provavelmente não será para nosso benefício. Então, é, é uma forma de resistir.

Quando eu falo em resistir, me refiro a continuar andando, continuar vivendo e continuar fazendo aquilo que consideramos ser certo e útil para nossas vidas. Acho que na maioria das vezes faremos escolhas um tanto erradas, mas os acertos entre os erros podem ser capazes de colocar ̶t̶u̶d̶o̶ algumas coisas nos trilhos.

Conversei dia desses com uma pessoa querida, ela estava (e ainda está) passando por mais uma dessas encruzilhadas da vida. Ela comentou o quanto vinha segurando o choro, e o quanto ele viria de forma torrencial quando finalmente furasse a barreira dos olhos. Não que eu ache que ela precise de algum conselho gratuito meu, longe disso. Mas disse a ela o quanto esse tipo de momento é poderoso, e que pode ser apreciado, ainda que cause dor.

Quero dizer, se ele virá, que venha. E que seja bem vivido. E que, depois, ele possa seguir seu curso natural e partir. Após isso, a gente faz algo da vida.

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Imagem por Bessi

Porque, com certeza a vida vai fazer algo da gente.

ConversAção

Narrativas de RPGs de mesa para ler e sentir.

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